3 AÇÕES AFIRMATIVAS
3.4 Os Vários Objetivos das Ações Afirmativas
3.4.3 Garantia de diversidade e multiculturalismo
Na sociedade multicultural, a principal fonte de identidade é exatamente a diferença. Sendo assim, o reconhecimento, por todas as instituições, de valores culturais específicos, trazendo-os para o espaço público, é o objetivo das políticas públicas, que visam ao tratamento igualitário, nesse contexto. Por essas razões, são demandados novos direitos, voltados a demandas específicas desses novos focos de identidade coletiva119. Para Dobrowsky:
[...] se torna um imperativo de legitimidade democrática e estabilização política o asseguramento, a cada um e a todos, de idêntico acesso ao reconhecimento público e, nesta medida, também jurídico, das particularidades julgadas relevantes e especificidades distintivas que requerem tratamento peculiar, a fim de que sejam dispensados a cada componente da comunidade política igual respeito e consideração, através da atribuição de idêntico nível de direitos e oportunidades para realização pessoal, isolada ou coletivamente120.
Uma das maneiras de inclusão é a ampliação da representatividade desses grupos. Entretanto, vê-se uma profunda bipolaridade nos anseios em termos do papel do Estado e do direito. Ao mesmo tempo em que se pede um estado neutro diante de várias opções de vida e que permita uma distância regulamentar para manter a independência na escolha de cada um, também se lhe exige uma posição cada vez mais assertiva na garantia de acesso a certas cenas de destaque na vida social e cultural121.
O que se observa, no entanto, é que mesmo a sociedade sendo cada vez mais plural, esta não é a tendência de suas instituições sociais, e consideram-se as organizações que empregam pessoas um dos espaços que conferem maior representatividade social e cultural à pessoa humana. Por essa razão, as ações afirmativas no mercado de trabalho se prestariam também ao objetivo de tornar as instituições que promovam cidadania e status social – sendo o trabalho talvez a mais importante destas – um reflexo genuíno da sociedade contemporânea; até porque a emergência do multiculturalismo leva a aflorarem novas reivindicações para um novo direito, no qual as minorias pedem seu espaço na cena social. Para Semprini,
As minorias atuais têm aprendido a explorar as possibilidades oferecidas pelas instituições liberais e por um sistema democrático. Elas por vezes conseguem impor a mudança e a mestiçagem, bem como o entrincheiramento identitário. Frequentemente, sua única exigência é que se apliquem, na realidade da prática social concreta (educação, trabalho, mobilidade social), a letra e o espírito igualitários da Constituição e de suas leis.122
119DOBROWOLSKI, Samantha Chantal. A construção social do sentido da Constituição na democracia contemporânea: entre soberania popular e direitos humanos. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007, p. 239. 120
Ibid, p. 240.
121DOBROWOLSKI,, 2007, p. 243.
As novas demandas trazidas pelo multiculturalismo são a justificativa mais interessante para a existência das ações afirmativas na contemporaneidade, pois trazem, em seu bojo, benefícios para a própria sociedade em termos de tolerância e respeito às diferenças. Tornar o ambiente de trabalho diversificado refletiria a pluralidade trazida pelo mundo globalizado; como bônus se ganharia em tolerância e pacificação social.
Não se trata aqui apenas da diversidade de raça, gênero ou posição social. A sociedade está repleta de modos de pensar e agir diferentes e sua característica intrínseca, fruto da contemporaneidade, é a pluralidade de crenças (sejam estas morais ou religiosas) e de estilos de vida.
A diversidade tem a grande virtude de estimular, no seio da sociedade, a revisão de padrões e o espírito crítico, afinal, fechando-se em guetos, de acordo com características similares, não haveria a chance de se reinventar, quebrar paradigmas e conceitos. Ver o outro e percebê-lo diferente causa uma transformação pessoal e, concomitantemente, causa um impacto importante no ambiente laboral.
É importante a própria existência da diferença, e uma sociedade que se pretenda plural deve possuir normas que permitam a realização dos fins pessoais de cada um dentro dessa pluralidade. Tais fins não podem ser impostos pela maioria, pois isso iria de encontro ao ideal da liberdade e ao direito de cada um à diferença; porém é impossível negar que existem bens básicos que são necessários para que se chegue a qualquer estágio de escolha, pois o indivíduo somente está apto a buscar seus objetivos pessoais quando o arranjo coletivo do sistema lhe permite sobreviver e ter acesso a bens sociais de base, tais como educação de qualidade e saúde123.
O primeiro passo para a pluralidade e a tolerância exige o acesso a tais bens, muitos deles obtidos através da contraprestação auferida pela venda da força de trabalho. O emprego é uma maneira de permitir ao cidadão poder fazer suas próprias escolhas e vivenciá- las de maneira autônoma. Mais ainda quando não se trata de questão de escolha, como no caso da raça, gênero ou características físicas. É preciso permitir ao cidadão desvencilhar-se da dependência econômica, seja da família ou do Estado, pois, enquanto economicamente dependente, não poderá, de fato, escolher seus rumos e definir seu estilo de vida.
Como afirmado anteriormente, a diversidade no ambiente de trabalho vai propiciar uma convivência com a diferença, que se refletirá em tolerância no seio da própria sociedade. Não que se deseje forçar a escolha desta ou daquela pessoa pelo empregador,
123KUNTZ, Holf. A redescoberta da igualdade como condição de justiça. In: FARIA, José Eduardo (Org.). Direitos Humanos, Direitos Sociais e Justiça. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 151.
objetivando que a convivência compulsória vá levar a uma aceitação maior de determinadas características sociais desvalorizadas; mas, muito provavelmente, o medo do desconhecido e da diferença talvez seja o principal motivo para que certas pessoas sejam preteridas em critérios de seleção. A existência de ações afirmativas leva a uma revisão desses critérios, de forma a compatibilizá-los com as exigências de colocação dos grupos vulneráveis.
O direito passa a ter papel central na integração social quando se presta a criar modelos de inclusão de forma a fazer valer o pluralismo e a repensar instituições, com o objetivo de garantir cidadania aos grupos vulneráveis; promovendo, então, a inserção social de grupos tidos como subalternos ou sufocados, articulando sua representação social e política. O direito é o instrumento para trazer novos arranjos institucionais que garantam o tratamento igualitário124.
No que tange às ações afirmativas no mercado de trabalho, tem-se, de um lado, a necessidade de garantir o posto de trabalho para aquele que possui características pessoais e opção de vida diferente – o que é bom em termos de tornar a sociedade mais plural institucionalmente – e, do outro, o paradoxo de exigir uma contratação por parte de uma organização que, em última instância, também teria a opção de escolher o tipo de trabalhador que deseja para produzir e conviver.
Apresenta-se nesse ponto, para fins de debate, o aspecto negativo dessa garantia de diversidade, materializada no fato de que cada tentativa que o direito faz de rearranjar as forças sociais, com certeza, exigirá ônus para pelo menos uma das partes envolvidas. A questão é saber até que ponto o empregador efetivamente se prejudica com a contratação forçosa de trabalhadores. Para avaliar de forma objetiva o custo/benefício da diversidade auferida através das ações afirmativas no mercado de trabalho, será apresentada, no quarto capítulo deste trabalho, a pesquisa de campo realizada.