• Nenhum resultado encontrado

PORTUGAL 4.1. INTRODUÇÃO

4.4. ANÁLISE JURISPRUDENCIAL

4.4.2. GASTOS ELEGÍVEIS PARA EFEITOS DO ARTIGO 43° DO CIRC

O segundo ponto, incide sobre os gastos elegíveis para efeitos do artigo 43.° do CIRC. Para tal, vamos analisar os Acórdãos do STA, processo n.º 0539/17 de 20-06-2018, e a decisão arbitral do CAAD, processo n.º 161/2018-T de 03-01-2019.

No Acórdão e decisão elencados, foi abordada a temática da dedutibilidade fiscal de determinados gastos, à luz do artigo 43.º do CIRC, ou seja, independentemente de serem necessários ou não, para obter ou garantir os rendimentos sujeitos a IRC.

Acórdão STA: Processo n.º 0539/17 de 20-06-2018 a) Descrição do caso

O Acórdão Processo n.º 0539/19 do STA, de 20-06-2018, aborda a temática da dedutibilidade fiscal de determinados gastos em sede de IRC, bem como, o enquadramento fiscal dos referidos gastos, à luz do artigo 23.º do CIRC ou do artigo 40.º do CIRC (atual artigo 43.º do CIRC).

No âmbito do processo inspetivo aos exercícios de 2005 e 2006, da empresa A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A., a ATA procedeu à emissão de liquidações adicionais de IRC e juros compensatórios, no valor de 10.493,99 euros e 13.844,27 euros, respetivamente.

As liquidações adicionais ao IRC, supracitadas, tiveram origem na discordância entre a empresa A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A. e a ATA. Estas, divergiram quanto à dedutibilidade fiscal dos gastos relativos a ofertas a clientes e a consultores/mediadores da entidade A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A., de diversos seguros do Ramo “Vida” e seguros de doença.

Após ter efetuado o pagamento, a 08-01-2010, das referidas quantias, a empresa A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A, apresentou no dia 08-05-2009 Reclamações Graciosas, contra as liquidações referentes aos exercícios de 2005 e 2006. Em 16-03-2010 e 17-03-2010, respetivamente, por despacho do Chefe de Divisão da Justiça Administrativa, estas foram indeferidas. Face ao indeferimento das Reclamações Graciosas apresentadas, a empresa A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A. avançou para a impugnação judicial a 08-04-2010.

O TTL, por sentença proferida em 12-02-2016, decidiu dar razão à A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A., julgando a impugnação judicial procedente e, desta forma, ordenado a anulação das liquidações de IRC, respeitantes aos anos de 2005 e 2006.

Não concordando com esta sentença, a Fazenda Pública recorreu da decisão por entender que o TTL falhou no seu julgamento. Esta falha, foi associada ao facto deste último ter decidido integrar as despesas relativas a ofertas a clientes e a consultores/mediadores, da empresa A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A., de diversos seguros do Ramo “Vida” e seguros de doença, ao abrigo do disposto no n.º 1 do artigo 23.° do CIRC e, consequentemente, anular as liquidações adicionais de IRC.

O TCA Sul, ao qual recorreu a Fazenda Pública, declarou competente para esse efeito, o STA. O processo foi remetido para o mesmo, na sequência de requerimento da Requerente.

b) Alegações da Requerente

A requerente entende que, os gastos relativos a ofertas a clientes e a consultores/mediadores da empresa A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A., de diversos seguros do ramo vida e seguros de doença, não são fiscalmente dedutíveis, de acordo com o n.º 4 do artigo 23.° e do artigo 40.º, ambos do CIRC (à data dos factos). Estabelecia então, o n.º 4 do artigo 23.° do CIRC que, “exceto quando estejam abrangidos pelo disposto no artigo 40.º, não são aceites como custos os prémios de seguros de doença e de acidentes pessoais, bem como as importâncias despendidas com seguros e operações do ramo vida, contribuições para fundos de pensões e para quaisquer regimes complementares de segurança social que não sejam considerados rendimentos de trabalho dependente, nos termos da primeira parte do n.º 3) da alínea b) do n.º 3 do artigo 2º do Código do IRS.”

Já o n.º 2 do artigo 40.º do CIRC, referia que, “são igualmente considerados custos ou perdas do exercício, até ao limite de 15% das despesas com o pessoal escrituradas a título de remunerações, ordenados ou salários respeitantes ao exercício, os suportados com contratos de seguros de doença e de acidentes pessoais, bem como com contratos de seguros de vida, contribuições para fundos de pensões e equiparáveis ou para quaisquer regimes complementares de segurança social, que garantam, exclusivamente, o benefício de reforma, pré-reforma, complemento de reforma, benefícios de saúde pós-emprego, invalidez ou sobrevivência a favor dos trabalhadores da empresa”.

Face ao exposto, a ATA efetuou as referidas correções, por entender que os encargos relativos aos seguros de vida e doença, atribuídos a pessoas externas à empresa, não cumprem com os requisitos vigentes para a dedutibilidade fiscal, instituídos pelo n.º 4 do artigo 23.° e n.º 2 do artigo 40.º, ambos do CIRC.

c) Alegações da Requerida

A requerida não concordou com o entendimento da ATA, referindo que os gastos relativos aos seguros de vida e doença, atribuídos a pessoas externas à empresa, devem ser enquadrados à luz da alínea d) do n.º 1 do artigo 23.° do CIRC (à data dos factos). Ora, a alínea d) do n.º 1 do artigo 23.° do CIRC, referia que “1- Consideram-se custos ou perdas os que comprovadamente forem indispensáveis para a realização dos proveitos ou ganhos sujeitos a imposto ou para a manutenção da fonte produtora, nomeadamente os seguintes: (…) d) encargos de natureza administrativa, tais como remunerações, ajudas de custo, pensões ou complementos de reforma, material de consumo corrente, transportes e comunicações, rendas, contencioso, seguros, incluindo os de vida e operações do ramo "Vida", contribuições para fundos de

poupança-reforma, contribuições para fundos de pensões e para quaisquer regimes complementares da segurança social;

Desta forma, por se tratarem de seguros atribuídos a indivíduos externos à empresa, a requerida entende que os gastos não cumprem o critério para serem considerados Realizações de Utilidade Social. Suportou tal entendimento, com os registos contabilísticos, demonstrando que os referidos gastos se encontravam contemplados na rúbrica de ofertas a clientes.

Entende assim que, a dedutibilidade fiscal dos referidos encargos, não merece censura, uma vez que, encontra-se justificada pela promoção da atividade da empresa, com vista à maximização do lucro.

d) Decisão do Tribunal

O Tribunal entendeu dar razão à requerida, negando provimento ao recurso interposto pela Fazenda Pública, confirmando assim, a sentença recorrida.

O STA considera que, se por um lado a alínea d) do n.º 1 do artigo 23.° do CIRC (à data dos factos), elenca os gastos dedutíveis para efeitos de IRC, desde que, “indispensáveis para a realização dos proveitos ou ganhos sujeitos a imposto ou para a manutenção da fonte produtora”, por outro lado, o n.º 4 do mesmo artigo menciona que, com exceção dos gastos estabelecidos no artigo 40.º do CIRC (à data dos factos), “não são aceites como custos os prémios de seguros de doença e de acidentes pessoais, bem como as importâncias despendidas com seguros e operações do ramo "Vida", contribuições para fundos de pensões e para quaisquer regimes complementares de segurança social que não sejam considerados rendimentos de trabalho dependente, nos termos da primeira parte do n.º 3) da alínea b) do n.º 3 do artigo 2º do Código do IRS”.

Posto isto, o Tribunal chama à colação os artigos 9.º do CC e 11.º da LGT, no que respeita aos critérios legais para a interpretação da Lei, considerando que a alínea d) do n.º 1 do artigo 23.° do CIRC, consubstancia a norma geral, enquanto o n.º 4 do artigo 23.° do CIRC, corresponde a uma norma especial. Ainda neste sentido, o STA citou Machado (1994), referindo que as normas gerais estabelecem o regime regra, o qual regula as normas especiais50.

Face ao exposto, o Tribunal refutou o entendimento da ATA, por considerar que esta apenas analisou se os encargos contabilizados tinham, ou não, abrangência à luz do n.º 4 do artigo 23.° do CIRC e, consequentemente, do artigo 40.º do CIRC. No entanto, conforme refere a empresa A…Portugal Companhia de Seguros de Vida, S.A., os encargos encontram-se contabilizados como ofertas a clientes, tendo como finalidade a promoção da atividade da empresa. Não estava assim em causa, a respetiva dedutibilidade fiscal, de acordo com a alínea d) do n.º 1 do artigo 23.° do CIRC (à data dos factos).

Como conclusão, o Tribunal entendeu que, os gastos em análise, não são fiscalmente dedutíveis à luz do n.º 4 do artigo 23.° do CIRC e do artigo 40.º do mesmo diploma, conforme entendeu a ATA. Todavia, a dedutibilidade fiscal não merece censura, por aplicação alínea d) do n.º 1 do artigo 23.° do CIRC, sendo certo que, a ATA não expressou a sua opinião nesta matéria.

Todas as custas ficam cargo da Fazenda Pública.

Decisão CAAD: Processo n.º 161/2018-T de 03-01-2019 a) Descrição do caso

Na decisão arbitral, processo n.º 161/2018-T de 03-01-2019, com o tema “IRC – Dedutibilidade de custos; Preços de transferência; Função acionista; Despesas de representação”, foi solicitada a constituição do Tribunal Arbitral pela “A…SGPS, SA” (doravante a requerente).

A requerente apresentou o pedido de constituição do Tribunal Arbitral, solicitando a apreciação da legalidade dos atos tributários de liquidação adicional de IRC e de liquidação de juros compensatórios, no montante global de 287.822,98 euros, relativa ao exercício de 2012, bem como, do ato de indeferimento da Reclamação Graciosa, deduzida contra os referidos atos de liquidação.

Neste sentido, a requerente impugnou a liquidação adicional de IRC e liquidação de juros compensatórios, originada por correções levadas a cabo no procedimento inspetivo, nos seguintes temas:

i. Não aceitação como gasto fiscal do montante de 3.462,66 euros, suportado com o pagamento de viagem do Revisor Oficial de Contas, uma vez que, a ATA entende que tais gastos são da total responsabilidade do terceiro;

ii. Correção efetuada em sede de preços de transferência, no montante de 2.064.733,089 euros, por se entender que não são gastos imputáveis à função de acionista;

iii. Acréscimo ao rendimento tributável no valor de 43.681,01 euros, relativamente a despesas incorridas com viagens para prestação de serviços às empresas participadas, isto porque, a ATA entende que não se encontram comprovadas, nem justificadas, do ponto de vista empresarial;

iv. Consideração como despesas de representação de gastos no montante de 44.006,05 euros, realizados com reuniões de liderança e assembleias gerais, para aprovação de contas.

Assim sendo, pese embora o processo n.º 161/2018-T, aqui em análise, aborde outras temáticas para além das Realizações de Utilidade Social, será efetuada apenas a análise destas últimas.

b) Alegações da Requerente

A requerente esclarece que, a reunião de liderança, consiste num evento organizado pela própria entidade, com o intuito de reunir os vários administradores e responsáveis, para promover a discussão de diversas questões empresariais e, ao mesmo tempo, permitir a confraternização entre os colaboradores do grupo. Por este motivo, a empresa A…SGPS, SA, entende que tais encargos devem ser considerados como Realizações de Utilidade Social, nos termos do artigo 43.º do CIRC.

No que concerne às despesas suportadas com reuniões e assembleias gerais, para discutir e aprovar as contas, a empresa refere que tais encargos são estritamente necessários, para a realização da atividade económica, uma vez que, permitem que a empresa possa desempenhar as suas funções de controlo e gestão de forma eficaz.

Por fim, face aos argumentos enunciados, a requerente afasta a aplicabilidade do n.º 7 do artigo 88.º do CIRC, argumentando com o artigo 43.º do CIRC na primeira situação e, por sua vez, com o artigo 23.º do CIRC na segunda.

c) Alegações da Requerida

A ATA, defende que os encargos relativos a reuniões de liderança e assembleias gerais, para aprovação de contas, onde se incluem gastos suportados pela entidade patronal em benefício dos seus empregados, não são enquadráveis no conceito de Realizações de Utilidade Social. Neste sentido, entende à ATA, que tais encargos se encontram sujeitos a tributação autónoma, à luz do n.º 7 do artigo 88.º do CIRC. Refere ainda que, as despesas de representação, poderão não abranger apenas clientes e fornecedores, mas também quaisquer outras pessoas ou entidades.

d) Decisão do Tribunal

O Tribunal Arbitral entendeu que a razão está do lado da requerente, alegando que está em causa a interpretação do conceito de despesas de representação, e não a realização das despesas, nem a sua específica finalidade.

O CAAD salienta que, a implementação do mecanismo de tributação autónoma, tem como finalidade prevenir e evitar que através de determinadas despesas, as empresas procedam à distribuição de lucros de forma oculta, ou atribuam rendimentos que poderão não ser tributados, na esfera dos respetivos beneficiários, para além de outros objetos, nomeadamente, o combate à fraude e à evasão fiscal.

Deste modo, o Tribunal Arbitral chamou à colação o n.º 7 do artigo 88.º do CIRC, o qual estabelece que “são tributados autonomamente à taxa de 10% os encargos efetuados ou suportados relativos a despesas de representação, considerando-se como tal, nomeadamente, as despesas suportadas com receções, refeições, viagens, passeios e espetáculos oferecidos no País ou no estrangeiro a clientes ou fornecedores ou ainda a quaisquer outras pessoas ou entidades”. Isto para referir que, o conceito de despesas de representação para a ATA é bastante amplo, considerando mesmo como terceiros beneficiários os colaboradores da própria empresa.

A aplicabilidade do n.º 7 do artigo 88.º do CIRC é indiscutível, quando se tratam de terceiros externos à sociedade e com os quais a empresa tem, ou pretende ter, relações empresariais. O Tribunal Arbitral entendeu que, os gastos relativos a viagens e estadias de administradores e colaboradores, para participarem em reuniões de liderança ou assembleias gerais, da própria sociedade ou de sociedades participadas, por serem deslocações diretamente relacionadas com a atividade normal da empresa, não devem ser qualificados como despesas de representação. De igual forma, defende que não devem também ser classificados os gastos decorrentes de reuniões de confraternização, quando apenas envolvam administradores e colaboradores da empresa.

Fica a ATA obrigada ao pagamento do valor da causa (287.822,98 euros), o qual corresponde ao valor da liquidação adicional de IRC, entretanto anulada.