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Gatekeeping: reféns da inteligência artificial?

Se os media mudaram com a chegada da Internet, também mudaram com o desenvolvimento da utilização da inteligência artificial, que trouxe recursos como os algoritmos. Estes permitem registar os nossos hábitos e rotinas de consumo na internet, que por sua vez se podem traduzir em conteúdo personalizado. Tudo isto dependerá do tipo de algoritmo desenvolvido/utilizado por cada site ou rede social.

Podemos então admitir que, de facto, “a sociedade está a mudar a cada algoritmo de aprendizagem que surge. A aprendizagem automática está a reconfigurar a ciência, a tecnologia, os negócios, a política e a guerra” (Domingos, 2017: 16).

Mas o que é um algoritmo, tecnicamente falando? “Um algoritmo é uma sequência de instruções que diz a um computador o que fazer” (Domingos, 2017: 25), sendo responsável por memorizar todas as pesquisas que fazemos na internet. Assim, quando fazemos uma pesquisa, os resultados são “filtrados” automaticamente, para nos mostrar as respostas o mais próximo possível daquilo que procuramos. Afinal, podemos afirmar que o algoritmo é o resultado do registo do padrão de todos os nossos movimentos online. “A Google vê as nossas pesquisas, a Amazon vê as nossas compras online, a

AT&T os nossos telefonemas, a Apple a música que descarregamos, a Safeway as

mercearias que compramos, a Capital One vê as nossas transações com cartões de crédito” (Domingos, 2017: 298).

A recolha destes dados terá como objetivo oferecer, mais rapidamente, aos utilizadores o resultado que pretendem quando efetuam uma pesquisa. Isto porque, “os computadores permitem a existência da Internet, que cria uma enchente de dados e o problema da escolha ilimitada; e a aprendizagem automática usa a enchente de dados para ajudar a resolver o problema da escolha ilimitada” (Domingos, 2017: 36).

A inteligência artificial é utilizada de tal forma que a visão que um utilizador tem ao entrar num website pode surgir desde logo adaptada aos interesses e hábitos de consumo. Seja através da alteração das cores, da disposição dos conteúdos ou da ordem dos mesmos, os utilizadores estão a ser alvos, sem se darem conta, de uma autêntica

25 personalização de conteúdos, “por vezes incluída na interatividade” (Deuze, 2003: 214, Amaral & Espanha, 2006: 31). Ou seja, a personalização “consiste em alterar a configuração genérica de um sítio web de acordo com os critérios especificados por um usuário” (López, Gago & Pereira, 2003: 224).

No que diz respeito aos sites dos media, a utilização do algoritmo “consiste na opção oferecida ao utilizador para configurar os produtos jornalísticos de acordo com os seus interesses individuais” (Palacios et al., 2002: 4-5).

Em 2008, Fernando Zamith considerava que os jornais digitais portugueses permitiam “(…) muito pouco aos seus visitantes personalizar a forma como recebem os seus conteúdos” (Zamith: 2008, 20). O autor Joseph Daniel Lasica também critica o uso da personalização nos meios jornalísticos, pois garante que “as notícias personalizadas reduzem o papel dos editores” (Lasica, 2002: 1).

Será, então, aqui que o fator audiência começará a interferir com o papel de gatekeeper, dos jornalistas? Estarão os “cliques” a afetar a forma como se difundem notícias e até mesmo a influenciar aquilo que se difunde?

Francesco Marconi e Kourosh Houshmand afirmam que “estamos precisamente na era da utilização da inteligência artificial como assistente no newsgathering” (Marconi, F. and Houshmand, K., 2018: 3)13. Para Welbers et al. “ neste momento, continuamos a saber pouco sobre as semelhanças e diferenças entre as organizações de notícias, a forma como pensam, a utilização das medições de audiência online, como as usam e como é que isso afeta o processo de produção de notícias” (Welbers et al., 2016: 6)14. Estaremos a assistir a uma alteração de paradigma daquilo que é o gatekeeping? Schudson, em 2003, citado por Welbers et al. no artigo “News selection criteria in the

digital age: Professional norms versus online audience metrics”, divulgado em 2016,

questiona se “devem os jornalistas determinar que notícias são baseadas no seu julgamento profissional – a trustee model – ou devem deixar a audiência decidir o que quer – a market model?” (Schudson, 2003 apud Welbers et al., 2016: 2)15.

13Tradução nossa.

14Tradução nossa. 15Tradução nossa.

26 Na obra “A diluição do jornalismo no ciberjornalismo”, de 2012, Helder Bastos baseia- se na visão de BRUNS (2005):

“BRUNS (2005) vai mais longe e considera que o processo de seleção das notícias tem sido alterado pelo gatewatching, em contraste com gatekeeping. O gatewatching consiste na publicação colaborativa de notícias, em sistema open source, que poderá substituir aquele papel tradicional do jornalista. O autor sugere que os jornalistas necessitam de se reinventar de modo a tirarem partido da tecnologia da Internet, plataforma com potencial comprovado para a notícia multiperspetivada” (BRUNS, 2005

apud Bastos, 2016: 4).

A opinião é partilhada por Fernando Zamith (2008), que complementa a ideia:

“O território mediático deixou de ser dominado pelos jornalistas e newsmakers. A antiga audiência (o público, o cidadão comum, os antigos receptores de notícias) começou a abandonar o seu papel de mero agente passivo e a participar neste complexo processo de pesquisa, produção e difusão de informação/notícias, através de fóruns, caixas de comentários, sites pessoais e colectivos, weblogs, wikis e outras ferramentas de expressão, acção, interacção e participação, acessíveis a qualquer pessoa que entre na grande rede ubíqua que é a Internet” (Zamith. 2008: 11).

Bill Kovach e Tom Rosenstiel referiram inclusivamente que “o novo jornalista já não decide o que o público deve saber. Ajuda-o, antes, a ordenar as informações” (Kovach e Rosentiel, 2004: 24), e demonstram, assim, que não estão de acordo com esta alteração de paradigma.

Francesco Marconi e Kourosh Houshmand consideram que atualmente os “jornalistas estão a transferir algumas decisões editoriais para as recomendações e motores de personalização”, mas indicam que “isso não significa que os repórteres estejam a perder o controlo. Pelo contrário, as redações precisam de se concentrar em otimizar as tags e o

metadata associados com cada história”. Para ambos “o objetivo desta nova colaboração

entre os humanos e as máquinas deve ser otimizar jornalismo e não automatizá-lo” (Marconi, F. and Houshmand, K., 2018: 5)16.

16Tradução nossa.

27 Ainda para Bill Kovach e Tom Rosenstiel “se o jornalismo fornecer às pessoas apenas informação na qual elas afirmem antecipadamente estar interessadas, estaremos a mostrar-lhes apenas a parte da comunidade que elas já conhecem” (Kovach e Rosentiel, 2004: 181).

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Capítulo III – O projeto P24