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General-de-Brigada Gabriel D’Annunzio Agostini

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 124-148)

Em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, caberia ao Vice-Presidente, Sr. João Goulart, que estava na China, assumir a Presidência da República.

Os ministros militares reagiram contra a posse de Goulart, devido à sua gestão anterior no Ministério do Trabalho, estimulando greves de trabalhadores e atos de baderna, inclusive.

A solução para o impasse foi a experiência frustrada do regime parla-mentarista. Passado algum tempo, o Governo preparou um plebiscito visando ao retorno do regime presidencialista.

Vencedor da consulta popular, João Goulart assumiu o cargo de Presidente do País e incentivou os comunistas a se infiltrarem na administração federal. Chegou-se a uma situação insustentável, fazendo eclodir a Revolução, em 31 de março de 1964.

Nessa época, servia no 3o Regimento de Obuses 105 – “Regimento Mallet”–, localizado em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, inicialmente respondendo pelo comando e, depois, efetivado comandante.

A população da cidade girava em torno de 150 mil habitantes. Santa Maria, localizada no centro geográfico do Rio Grande, destacava-se por ser um importante entroncamento ferroviário – as rodovias eram inexistentes, à época – e centro cultural dos mais adiantados.

Havia a Universidade Federal de Santa Maria, inclusive meu filho foi formado lá, e uma bem servida rede de escolas primárias e secundárias. Possuía quatro estações de rádio: Rádios Imembui, Medianeira, Santamariense e Guaratan, e dois jornais: A Razão e A Cidade, este de tendência comunista.

Santa Maria era uma grande guarnição militar, com dois quartéis-generais: o QG da Divisão de Infantaria (DI) e o da Artilharia Divisionária (AD/3); quatro unidades de combate: o 7o Regimento de Infantaria (7o RI) com dois batalhões, o 3o Batalhão de Carros de Combate Leve (BCCL) com três companhias, o 3o Regimento de Obuses 105 (3o RO 105 – “Regimento Mallet”), com dois grupos, e o 3o Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado. Contava, ainda, com o Regimento de Polícia Montada da Brigada Militar do Rio Grande do Sul e, também, com a Base Aérea de Santa Maria, que já estava organizada.

A situação de intranqüilidade reinante no País já se fazia sentir em Santa Maria. Em 1961, a Guarnição foi favorável à posse de Jango Goulart. Argumentavam, na defesa desta posição, a prescrição constitucional e o fato da oposição basear-se numa questão de ordem política e não de ordem ideológica, como depois se revelou. A partir daí, os comunistas passaram a atuar largamente, tendo como centro da agitação as oficinas da Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS) que possuía

da ordem de cinco mil operários. O líder era Baltazar de Mello, e havia, ainda, uns quatro ou cinco homens com cursos na URSS.

Eles conheciam a técnica para atemorizar os indecisos. Por qualquer motivo, eram decretadas greves que, devido à posição central de Santa Maria no Estado, paralisavam, quase totalmente, as atividades.

As greves eram incentivadas, também, em todas as classes e, em repetidos comícios, exigiam o fechamento do comércio. Santa Maria era considerada uma cidade “comunizada”.

Naquele tempo, no Rio de Janeiro, foram se sucedendo o comício da Central do Brasil, o levante dos marinheiros e fuzileiros navais e, por último, o evento do Automóvel Clube, presidido pelo próprio João Goulart.

Finalmente, na manhã de 31 de março de 1964, o Exército tomou uma atitude contra-revolucionária, desencadeada a partir de Minas, que se irradiou a todo o País.

Participação pessoal

Convidado pelo Comandante do Regimento, Coronel Ruy de Paula Couto, cheguei à Unidade em janeiro de 1964, a fim de ocupar o cargo de subcomandante. Senti que o desencanto atingia grande número de oficiais, pois presenciavam o descalabro reinante, com o conluio dos principais chefes militares que davam cobertura àquele estado de coisas.

A criação do “espírito de classe”, insuflado, em particular, entre os sargentos, feria profundamente a coesão dos quadros, pela quebra dos princípios da hierarquia e da disciplina, e criava uma constante desconfiança entre os diversos círculos.

Em fevereiro de 1964, quando passei a responder pelo comando, o Regimento se preparava para as manobras de fim de período. A intensificação da instrução nessa fase colaborou para que fosse mantido um benéfico ambiente de trabalho. Durante o período da manobra, recebemos um radiograma que transferia o licenciamento do pessoal, previsto para o dia 4 de março, logo após a manobra, para 4 de maio. Isso constituiu uma séria preocupação para o Regimento, pois, após o término das manobras, difícil seria encontrar motivação para a instrução. No intuito de garantir, da melhor maneira possível, o enquadramento dos homens, foi elaborado um intenso programa de instrução diária, baseado, essencialmente, em Educação Física, Ordem Unida e Controle de Tumultos. Esta última teve ênfase especial, simulando-se comícios, tumultos, apedrejamentos etc. Servia na Unidade, um graduado muito bom, o Sargento Porto, que simbolizava um líder político

discursando, incitando o povo ao tumulto, trazendo realismo ao treinamento. Foi muito importante, porque deu experiência e confiança aos homens.

Algumas reuniões eram realizadas com os oficiais e sargentos, quando, então, comentavam-se os atos de serviço; em todas, era enaltecida a necessidade de disciplina, da coesão e da dedicação ao serviço. A propósito do incidente havido com os marinheiros e fuzileiros navais, no sindicato dos metalúrgicos, acentuei que aquele fato era um absurdo, pela destruição da disciplina, que era o sustentáculo de qualquer Força Armada.

Acreditava, mesmo, que o impacto causado pelo problema naquele sindicato, o comício havido no dia 13 de março, junto ao Quartel-General, próximo da Central do Brasil, e a reunião do Automóvel Clube, no dia 30 de março, chefiada pelo Presidente da República, trouxeram tal perplexidade aos companheiros possuidores de espírito militar, que criou uma força aglutinadora, capaz de compelir à reação.

No Regimento, esse mal-estar era visível, particularmente porque a cidade sempre foi considerada um centro de agitação e se temia que fatos daquela natureza viessem aqui ocorrer.

Alguns dias antes do Movimento de 31 de Março, fui visitado por um oficial, relatando que já se esboçava, entre os chefes militares, uma reação e já existia um chefe responsável.

Dia 29 de março, chegou às minhas mãos o documento elaborado pelo então Chefe do Estado-Maior do Exército, General Castello Branco, confirmando a notícia trazida pelo companheiro. Na oportunidade, respondi um questionário sobre o assunto.

Esse documento circular, dirigido aos generais e demais militares do Estado-Maior do Exército e das Organizações subordinadas, fazia uma análise da situação política e a decorrente conduta militar. Aliás, consta do livro: “A Revolução de 1964 – um depoimento para a história pátria”, do Marechal M. Poppe de Figueiredo, APEC Editora S. A., 1970.

Dia 31 de março, às 17h, encontrava-me em casa e um soldado foi avisar-me de que havia ordem de rigorosa prontidão. Dirigi-avisar-me ao Regiavisar-mento e, ao passar pelo QG da 3a DI, já encontrei o General Mario Poppe de Figueiredo em seu Gabinete de Comando, procurando notícias no rádio, pois nada sabia.

Fui, em seguida, para o Regimento e transmiti a ordem de prontidão. A Unidade estava com o seu efetivo praticamente completo. Tinha havido, alguns dias antes, ordem para licenciar 50% do efetivo, a fim de fazer economia, mas do total de oitocentos homens, licenciei apenas cinqüenta e comuniquei à DI por meio de

ofício. Foi uma inspiração que tive: telefonei para o QG, dizendo que não podia licenciar. Como não houve reação, permaneci com o efetivo praticamente completo. Sentindo controlada e calma a situação dentro da Unidade, voltei ao QG, para acompanhar de perto o desenrolar dos acontecimentos. O Paula Couto estava no comando da Artilharia Divisionária (AD/3) e o Coronel Edmundo da Costa Neves era o Chefe da Circunscrição de Recrutamento (CR) – atualmente Circunscrição do Serviço Militar (CSM).

Na parte da tarde, já corriam pela cidade notícias de greve geral. Permaneci no QG, conversando, esperando alguma informação, que não chegava. À noite, dirigi-me, juntamente com o Coronel Paula Couto, à gare local da Viação Férrea, onde tivemos oportunidade de conversar com o Inspetor, que estava num carro dormitório, e que nos afirmou nada saber sobre greve. Voltamos ao QG, chegamos lá às 23h45min, e comunicamos ao General o resultado de nosso entendimento. Quinze minutos depois, com surpresa, verificamos que chegava ao QG a notícia de greve na Viação Férrea. Na mesma hora, recebi ordem para desencadear o plano de ocupação, pois a área nos cabia pelo Plano SEGIN (Segurança Interna).

Determinei ao Comandante do II Grupo o cumprimento da missão, para a qual, inclusive, já estava alertado. Imediatamente, deslocou sua tropa, de modo que, por volta de 0h45min, toda área da Viação Férrea estava ocupada, até o quilômetro dois.

Essa ordem verbal do General Poppe de Figueiredo foi, posteriormente, confirmada pelo seguinte memorando:

1. “Confirmo minha ordem verbal para que o 3o RO-105 passe a executar o PLANO SEGIN – REP (repressivo), ocupando os seguintes pontos sensíveis: (seguem-se os nomes em código).

2. Deverá, outrossim, manter cerrada vigilância em todo seu setor, nele mantendo a ordem, bem como dissolvendo qualquer tumulto e aglomeração humana.

3. Deverá ficar em condições de, mediante ordem, ocupar, mesmo à força, a Prefeitura Municipal, fazendo silenciar a estação de rádio que de lá está transmitindo.”

O Prefeito de Santa Maria era um comunista inveterado.

Ao II Grupo, cabia a missão principal de manutenção da ordem pública. Criado em 1962, não possuía viaturas nem material de comunicações para atender a qualquer situação operacional, enquanto o I Grupo estava pronto para atuar como Artilharia.

Durante aquela noite, as informações ainda eram escassas. O Comandante da 3a DI continuava em busca de orientação, já começando a ficar aflito. Apenas ao amanhecer, soubemos que o General Ladário ( Ladário Pereira Telles) tinha assumido o comando do III Exército, em substituição ao General Benjamin Rodrigues Galhardo. Levando em conta a peculiar situação da Cidade de Santa Maria, seja no aspecto físico, seja militar, era necessário evitar luta no seu interior, sob pena de comprometer os resultados da Revolução em todo o Estado do Rio Grande do Sul. Não tenho dúvida de que o Estado pararia. Considerando que a área atribuída ao Regimento – a Viação Férrea – era a mais crítica dentro da cidade, foi determinado ao 3o BCCL, ao amanhecer, que o reforçasse com um pelotão de carros de combate. Aliás, o Comandante teve o cuidado de entregar o comando dos cinco carros a um 2o sargento, casado com uma sobrinha minha, meu amigo, de inteira confiança.

Durante a manhã, procurei esclarecer os oficiais e sargentos do Regimento acerca dos acontecimentos. Sempre tive em mira ressaltar a necessidade de coesão e de disciplina. Sentia certa pressão dos oficiais, cerca de sessenta, na época em que cheguei. Dizia-lhes:

– Olha, não pode, não tem jeito. Vamos ficar quietos e reagir quando necessário. Agora, iremos tumultuar Santa Maria.

Às 8h45min, dirigi-me à Viação Férrea.

Foi no dia 1o de abril?

No dia 1o de abril, às 8h45min, com o intuito de verificar como estava o meu II Grupo. Ao chegar, tive conhecimento de que havia ordem para organizar uma composição, com 119 vagões, a fim de transportar tropa para Curitiba. Essa ordem havia chegado no “Movimento” da Viação Férrea. Recomendei ao tenente, que tomava conta da “gare”, que não autorizasse encostar vagão algum ali. Logo imaginei que deveria ser tropa de Santa Maria.

Cheguei ao QG, para dar a notícia, e soube da determinação do III Exército, de embarcar, com destino a Curitiba, um batalhão do 7o RI, uma bateria do 3o RO 105 e uma companhia de carros do 3o BCCL. Nesse ponto estou divergindo do livro do General Poppe, nomeado acima, quando fala em um Grupo de Artilharia e cita como destino da tropa a Cidade de Cruz Alta. A idéia, porém, permanecia a mesma, ou seja, ocupar a ferrovia, o tronco principal sul, no corte do rio Pelotas.

Conversei com o General Paula Couto sobre o assunto e chegamos à conclusão de que aquela ordem não poderia ser cumprida, mas que haveria tempo, até a hora da partida do trem, para evitar o seu cumprimento.

Voltei ao Regimento, falei com o Subcomandante, S3 e com os Comandantes dos I e II Grupos, sobre a ordem de embarque. A repulsa foi unânime; disse mais para eles:

– Não vamos tomar uma atitude a não ser empurrando o General na frente. Pouco tempo depois, chegou a notícia de que um grupo de oitenta ferroviários, aproximadamente, havia tentado entrar na gare da Viação Férrea para formar o trem, mas foram impedidos por meu pessoal que, diante da atitude agressiva dos mesmos, intimou-os a se retirarem, sob ameaça de serem alvejados. A estação estava sob nosso controle e não haveria jeito de entrarem.

Sempre conversamos com o General Poppe de Figueiredo, acerca do perigo de ocorrer qualquer tumulto na cidade. Às 11h da manhã do dia 1o de abril, ele resolveu aderir à Revolução. Reuniu, na sala de instrução da 3a DI, o Estado-Maior – o Chefe do Estado-Maior, Coronel Ramão Menna Barreto, ainda não chegara da visita à família na fronteira, não sei se em Uruguaiana ou Santana do Livramento, de modo que não compareceu à reunião, embora conste, no livro citado, a sua presença, mas logo que soube dos acontecimentos, retornou e assumiu a sua função – ,o Coronel Paula Couto, o Coronel Edmundo, o Coronel Ito do Carmo Guimarães, Comandante do 3o BCCL, e eu, Comandante do Regimento Mallet. O Coronel Paula Couto substituía o General Rubens Barra, titular da AD/3, em férias. Vivamente emocionado, o General Poppe, em rápidas palavras, disse que havia pesado a importância da decisão que tomaria e que não poderia ficar indiferente à ação nefasta do comunismo que se infiltrava entre nós. Era necessário dizer um “basta!” – expressão dele – a tudo o que vinha acontecendo e decidiu “não cumprir as ordens do III Exército e combater o comunismo dentro da cidade”. Assim que ele acabou, levantei-me e disse:

– General, o “Mallet” está, unanimemente, com Vossa Excelência.

Logo após ter ouvido a decisão do Comandante da 3a DI, dirigi-me ao Regimento e, de imediato, reuni os oficiais. Também estava emocionado. Fiz uma exortação contra o comunismo, transmiti a decisão do General Poppe e, ao terminar, disse ao meu pessoal que havia reafirmado o apoio unânime do “Mallet”. A sensação foi de desafogo e euforia entre eles, exceto um capitão.

Esse oficial, após a dispensa dos demais, veio falar comigo e disse: – Coronel, o senhor não consultou o pessoal?

Respondi-lhe que a ocasião não comportava isso e que havia transmitido uma decisão.

Determinei, em seguida, a reunião dos sargentos. Repeti o que tinha dito aos oficiais e nada de estranho notei; todos permaneceram em silêncio. Depois, na parte da tarde, o presidente do círculo dos sargentos veio dizer-me que dois não haviam aceitado a decisão, e choraram, porque eram amigos do General Osvino Ferreira Alves, já na reserva.

Os sargentos eram ligados a ele.

O Osvino era um homem bom, mas estava do outro lado. Desfrutava de prestígio entre os sargentos e exerceu, durante cinco anos, o comando da 3a DI, ocasião em que realizara verdadeira “política de sargentos”.

Gostaria de citar o Boletim Divisionário número 16, desse mesmo dia 1o de abril, quando foi tomada a decisão de aderir a Revolução:

“Nossa Pátria passa por um momento decisivo de sua História. Herdamo-la de nossos pais, cristã e democrática. Assim queremos transmiti-Herdamo-la aos nossos filhos. Nos últimos tempos, vem nosso País sendo levado para o comunismo ateu e totalitário, numa flagrante violação da vocação do povo brasileiro.

Após os últimos episódios, de conhecimento público, nos quais a dis-ciplina das Forças Armadas foi praticamente destruída, a situação atingiu a um ponto que se desenhou nítida, sob o império do mais puro e legítimo pa-triotismo, a necessidade de ser, enquanto é tempo, oposto um dique à avalan-che comunista.

A 3a DI alia-se aos camaradas da 2a DC (Uruguaiana), 3a DC (Bagé) e demais Grandes Unidades que já manifestaram sua decisão de cooperar na missão sagrada de impedir a comunização de nossa grande Pátria. (a) Mário Poppe de Figueiredo. General-de-Divisão Comandante da 3a DI”

Aproximadamente às 15h do dia 1o de abril, a DI recebeu um aviso de que, defronte ao “Palácio Rosado” – era a sede do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), costumeiro ponto de reuniões e comícios de comunistas – estava se iniciando uma reunião de duzentos a trezentos ferroviários. Como eu estava “à mão”, o General determinou:

– Dissolve isso!

Dei ordem ao II Grupo, que estava sendo substituído pelo I Grupo na ocupação da área, que tomasse a seu cargo a missão, logo após concluída a substituição. Passei três carros de combate, que estavam na gare, na Viação Férrea, distante mais ou menos um quilômetro, à disposição da Unidade. Deveriam permanecer na gare, mas de olho na reunião.

Assim que teve duas Baterias prontas, o Comandante do Grupo (Major Maia) aproximou-as a uns cem metros do local e as dispôs em linha, de acordo com a técnica de controle de tumulto, mandou armar baionetas e dirigiu-se ao “Palácio Rosado”, a fim de concitar os ferroviários a se retirarem. Eles não acreditaram, e ninguém queria sair. O Major Maia deu-lhes três minutos para que o fizessem. Terminado esse prazo, deu ordem para as Baterias avançarem, o que fizeram em passo cadenciado e com as baionetas em riste.

Diante da aproximação da tropa, um grande número logo foi embora, mas outros quiseram resistir e os soldados, depois me disseram, tiveram que cutucá-los com baioneta para que saíssem. A reunião foi dissolvida.

A população, que morava nas vizinhanças, manifestou-se, aplaudindo a tropa, tomada de uma emoção muito grande. Ocupamos o “Palácio Rosado” para lá passar a noite e muitas senhoras obsequiaram os soldados com doces e café, como manifestação de seu agrado.

Nesse mesmo dia, apesar de convocado pelo General, não pude comparecer à sua presença, tendo designado o Major Alexandre para representar-me. Foi incrível a petulância com que os cinco líderes da subversão na Viação Férrea do Rio Grande do Sul, chefiados pelo Sr. Baltazar de Mello, numa entrevista, foram ao Comandante da 3a DI, exigir que fosse respeitado o seu direito de greve.

Relatou-me o Major Alexandre que o General esclareceu, calmamente, que esse direito estava sendo respeitado, mas que se garantia, também, aos outros trabalhadores que desejavam trabalhar, o direito de fazê-lo.

Baltazar de Mello respondeu:

– Depois, se fosse outra tropa, mas com aquela tropa medonha do “Mallet”, tivemos a impressão de que iríamos ser massacrados.

– Não, a tropa do “Mallet” é muito disciplinada – retrucou o General – e, dirigindo-se ao Major Alexandre, completou:

– Não é, Major?

– É verdade, General. Só que os soldados aprenderam que ninguém pode interferir no cumprimento de sua missão.

– Muito bem, senhores, está encerrada a entrevista. Major, o senhor pode ir para a sua Unidade – concluiu o General.

Então, note-se a petulância com que quiseram enfrentar o General. Referiam-se àquele grupo de oitenta ferroviários que forçaram a entrada na gare da Viação Férrea, para formar o trem. Queriam ter o direito de parar a VFRGS.

No dia 2 de abril, pela manhã, começamos a trabalhar para que o General Poppe assumisse o comando do III Exército. Surgiram rumores de que estavam ocorrendo problemas na 3a DC, em Bagé, chegando notícias de ocupação do QG, pelos sargentos, de oficiais presos e que o General teria se refugiado em uma Unidade. Com a tomada da gare da Viação Férrea, o Comando do III Exército, em Porto Alegre, ficou imobilizado; nenhuma tropa conseguiria chegar a Santa Maria. Em termos estratégicos, seria conveniente estabelecer o Comando do III Exército na cidade, sob as ordens do General Poppe, substituindo o General Ladário, solidário ao Governo de João Goulart. Achávamos que as mesmas medidas tomadas

dentro de Santa Maria deveriam ser repetidas no âmbito do Estado, possibilitando a coordenação entre as 2a e 3a DC.

Assim, nesta mesma manhã de 2 de abril, o General Poppe assumiu o comando revolucionário do III Exército, em Santa Maria.

O restante do dia 2 e o dia 3 foram calmos, embora com muitos boatos na cidade. Durante a noite de 3 para 4 de abril, foi preso o líder ferroviário Baltazar de Mello.

Durante o dia 4 sentiu-se que a situação dentro dos quartéis estava consolidada e foi, então, feito um plano para aprisionar o pessoal de esquerda. À noite, oficiais e sargentos reconheceram os seus locais e, ao amanhecer do dia 5, 12 patrulhas, todas comandadas por oficiais, realizaram as prisões previstas nas suas missões. Cometemos o erro, e assumo, junto com os tenentes, a responsabilidade

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 124-148)

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