3 Variáveis consideradas no planejamento e na realização do ensino de
6.1 Generalidade do que se entende por comportamento seguro e suas
Aquilo que instrutores e funcionários consideram como conceito de “comportamentos seguros no trabalho” apresenta divergências. Quando se trata de um processo ensino-aprendizagem de comportamentos seguros essas divergências podem representar sérias conseqüências sobre o resultado do processo. Se instrutores (que já ministraram o evento com esse tipo de objetivo) não são capazes de definir com precisão as propriedades essenciais do fenômeno ao qual o conceito se refere, é alta a probabilidade daquilo que foi ensinado aos participantes não condizer com o resultado que se espera: funcionários capacitados para se comportarem de forma segura. Se funcionários que participaram de eventos que tinham por objetivo capacita-los para comportarem-se de forma segura não são capazes de definir com precisão as propriedades que caracterizam o fenômeno ao qual o conceito se refere, é provável que não tenham aprendido o que exatamente se esperava que saíssem do evento um pouco melhor capacitados a comportarem-se de forma segura. O confronto das duas constatações permite inferir que é improvável que os funcionários que participaram dos eventos passem se comportar de forma segura em decorrência do evento.
Foi necessário derivar os objetivos de ensino pelo fato dos instrutores não terem sido observados apresentando os objetivos de ensino aos participantes. A natureza dos objetivos derivados remete aos processos de mudança de comportamentos relativos a segurança, adequação do trabalhador às normas da empresa e ampliação do rol de conhecimentos do funcionário a cerca da prevenção de acidentes. As expressões utilizadas pelos instrutores para referir-se àquilo que os participantes devem ser capazes de fazer após participar dos eventos (Tabela 3.7) revelam equívocos no estabelecimento dos comportamentos-objetivo para os eventos de segurança ministrados por eles.
Os equívocos podem ser verificados na indicação de “meios” para promoção da aprendizagem como sendo “os fins”, uso de enunciados muito genéricos que encobrem amplos conjuntos de comportamentos a serem aprendidos, expressões que se referem à generalização daquilo que foi aprendido (etapa posterior à aprendizagem) e, com grande ênfase, a indicação de objetivos que se referem a comportamentos que não condizem com
aquilo que se entende por “comportamentos seguros no trabalho”. A utilização de objetivos de ensino equivocados no que diz respeito àquilo que se espera como competência a ser desenvolvida pelos aprendizes em decorrência de participar dos eventos de segurança pode influenciar de maneira significativa nos resultados esperados e, por conseguinte, no atendimento das demandas que originaram a realização dos treinamentos e reuniões de segurança.
O uso excessivo de regras, de acidentes como forma de aprender e de contra- exemplos (o que não deve ser feito) confirma a inadequação de alguns procedimentos para o contexto do ensino de comportamentos seguros. Para os instrutores “cumprir regras” é uma espécie de pré-requisito para que o sujeito possa comportar-se de forma segura. Almeida (1996) concluiu ao estudar análises de acidentes e ações educativas para segurança que os materiais educativos utilizados estimulam o medo dos trabalhadores de sofrer lesões e levam à atribuição de culpa ao acidentado pela ocorrência do acidente do qual foi vítima.O exame dos dados observados é possível identificar que muitas das relações estabelecidas pelos instrutores entre fatores humanos e acidentes aparentam ser suposições sobre o que de fato define a influência humana na ocorrência dos acidentes de trabalho, o que confirma a generalidade das informações utilizadas como temas para ensinar a prevenir. As medidas de prevenção mais freqüentes nas análises de acidentes referem-se a mudanças de comportamento do trabalhador, formuladas de maneira genérica (Almeida, 1996).
6.2. Decorrências da identificação das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho
Para a formação de profissionais para atuar em indústrias de alto nível de risco, as decorrências de conhecer as variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho podem ser consideradas no que diz respeito à qualidade e à efetividade do que é oferecido como ensino para a segurança no trabalho. As variáveis descritas podem servir como insumo para a reformulação de alguns tipos de eventos para que eles possam proporcionar aprendizagem para os participantes, capacitando-os para atuar de forma mais segura.
As descobertas apresentadas podem ser úteis na reformulação de módulos de capacitação para instrutores nos cursos técnicos em segurança do trabalho. Para os profissionais de outras formações e funções que atuam como instrutores podem ser
formulados cursos específicos de capacitação para a docência incrementando a sua atuação como docentes em segurança do trabalho.
Para a formação do psicólogo, o conhecimento produzido sobre ensino de comportamentos seguros no trabalho pode somar-se ao conhecimento já produzido sobre as contribuições da Psicologia para a prevenção de acidentes e fortalecer a segurança no trabalho como área de conhecimento e campo de atuação profissional nos quais esse profissional conta com espaços a preencher e a contribuir com outras áreas e campos, agregando valor à saúde e à segurança dos trabalhadores.
No caso das empresas, as descobertas evidenciam a necessidade de investir na preparação dos seus funcionários para atuar como “agentes de aprendizagem”, independente de cargo ou função. No entanto, é necessário que os investimentos sejam orientados mediante critérios de validade daquilo que será veiculado como sendo “prevenção baseada em comportamentos”, sob pena do investimento transformar-se em custos devido à falta de precisão e clareza de propósitos.
Para a sociedade, ao somar-se com o conhecimento já produzido sobre desenvolvimento de desempenhos preventivos no trabalho, as variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho podem representar um passo (ainda que pequeno) na direção de condições de trabalho e de formação mais dignas e saudáveis para o trabalhador brasileiro, que não pode continuar encontrando a morte e a doença no lugar para o qual se dirige todos os dias para “ganhar a vida”.
6.3. O conhecimento e o manejo das variáveis que caracterizam o processo de ensinar