• Nenhum resultado encontrado

8. EFEITOS SUBJETIVOS DO DISPOSITIVO GEOPROCESSAMENTO

8.2. GEOCÓDIGO

O estudo sócio-técnico dos mecanismos de controle, apreendidos em sua aurora, deveria ser categorial e descrever o que já está em vias de ser implantado no lugar dos meios de confinamento disciplinares, cuja crise todo mundo anuncia. Pode ser que meios antigos, tomados de empréstimo às antigas sociedades de soberania, retornem à cena, mas devidamente adaptados. O que conta é que estamos no início de alguma coisa (Deleuze, 1992, p.223).

Deleuze (1992) no final de sua obra anuncia para atualidade um novo tipo de relação entre as pessoas e as novas tecnologias através do ―Post-scriptum Sobre as Sociedades de Controle‖45 escrito para L'autre journal, em maio de 1990, e publicado em Pourparlers,

Les éditions de Minuit, em 1990.

Para Deleuze (1992), o conceito "Controle" é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, Paul Virillo uma substituição da disciplina operando agora fora de um sistema fechado e Foucault reconhecendo-o como nosso futuro próximo. Essa diferença entre sociedade disciplinar e de controle serve para ajudar a construir um referencial de

45

Ao invés do que ele subscreve, não acreditamos que seja uma substituição, mas um novo balizamento dos interesses e práticas de poder da sociedade atual. Temos uma trama teórica onde a delimitação feita não especificadamente de Foucault, sobre esses pontos de localização históricos dos tipos ―sociedade‖. No livro ―Segurança, Território e População‖, ele anuncia que a atual configuração apontaria para uma ―Sociedade da Segurança‖, alicerçado por um dispositivo de poder regulador agregado ao conjunto de sociedades já descritas durante os últimos séculos por ele.

discernimento em relação à sociedade da segurança. Desde os exemplos críticos que Foucault fez dos hospitais na década de 60, como meio de confinamento, setorização, classificação dos pacientes, desumanização, começou-se a prestar atenção na dinâmica exercida pelo sistema de hospitalização com seus pacientes.

Curiosamente, uma entrevista dada para a revista brasileira 'Manchete', com o título ―O mundo é um Grande Asilo‖ em 16 de Junho de 1973. Nela Foucault (1994d) enuncia que ―[...] Le monde est un grand asile, où les gouvernants sont les psychologues, et le peuple,

le patients. Avec chaque jour qui passe, le rôle joué par les criminologues, les psychiatres et tous ceux qui étudient le comportement mental de l’homme est plus grand. C’est pourquoi le pouvoir politique est en train d’acquérir une nouvelle fonction, qui est la thérapeutique [...]

(p. 433).46‖O ser vivo resumido a um código e serializado numa cadeia de intervenção de profissionais providos de um discurso de verdade, que em princípio foram localizados pela sociedade disciplinar, reduzidos em instituições totais, agora podem ser projetados para toda um rede de poder pulverizada em todos os lugares, de uma microfísica para uma macrofísica do poder. Para Deleuze (1992) na sociedade de controle:

[...] o essencial não é mais uma assinatura e nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem (tanto do ponto de vista da integração quanto da resistência). A linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição. Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se "dividuais", divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou `bancos` (p. 222).

Na discussão sobre as funcionalidades do geoprocessamento e a coleta de dados dos boletins de cadastro dos imóveis (com sua rede de informações articuladas), além de extrair informações dos espaços, gera-se um Geocódigo. Esse número serve para concentrar em uma identificação, um conjunto de informações sócio-econômicas, documentais, geográficas, políticas e estatísticas de pessoas, codificado com seus meios e fluxos de circulação. Esse sistema necessita ter alguns componentes como: um formato de apresentação cartográfica dos diversos tipos de informações (ponto, linhas e polígonos); e esse banco de dados com geocódigos idênticos na base não gráfica e na base gráfica. Esse vínculo é o que permite a realização de consultas e a manipulação dos dados geográficos. Um SIG deve

46

"[...] O mundo é um grande asilo, onde os governos são psicólogos, e as pessoas, os pacientes. Com cada dia, o papel dos criminologistas, psiquiatras e todos aqueles que estudam o comportamento mental do homem é maior. É por isso que o poder político está no processo de aquisição de uma nova função, que é terapêutico [...]" (Foucault, 1994d, p. 433).

também dispor de ferramentas que permitam o usuário realizar análises espaciais, sejam elas estatísticas ou não (Pina, 2000). Os geocódigos devem ser unívocos, isto é, não pode haver códigos iguais para representar elementos diferentes ou vice-versa.

Não há necessidade de ficção científica para se conceber um mecanismo de controle que dê, a cada instante, a posição de um elemento em espaço aberto, animal numa reserva, homem numa empresa (coleira eletrônica). Félix Guattari imaginou uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, graças a um cartão eletrônico (dividual) que abriria as barreiras; mas o cartão poderia também ser recusado em tal dia, ou entre tal e tal hora; o que conta não é a barreira, mas o computador que detecta a posição de cada um, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal (Deleuze, 1992, p. 222).

O sujeito hoje, e não estamos falamos de futuro, tem um geocódigo a partir de seus vários espaços de movimentação, sob possibilidades que se ampliam em uma velocidade surpreendente do controle de suas informações íntimas, qualificadas por um fator numérico e espacial.

8.3. SUJEITO BIOPOLÍTICO E POPULAÇÕES BIOPOLÍTICAS – EFEITOS DE