2. A ABORDAGEM SOCIOAMBIENTAL NA GEOGRAFIA: Elementos de sua
2.2 GEOGRAFIA ECOLÓGICA/AMBIENTAL: DA APROPRIAÇÃO DA NATUREZA A
Em diversos centros de pesquisa da Geografia do mundo e também no Brasil, a partir da década de 1970, os geógrafos passaram a se preocupar com a problemática social e colocaram em evidência esta temática, considerando que o desenvolvimento, tanto tecnológico, como cultural da sociedade passou a desempenhar grande ação sobre a natureza e a sociedade. Desde então, temas como meio ambiente e sustentabilidade tem sido pauta entre estudiosos e, portanto conhecer as causas, consequências e as relações do meio com a sociedade, vêm acarretando interessantes debates na busca do entendimento dessas relações.
Pouco antes, na década de 1950 como já exposto, a Geografia adotou métodos pautados na exatidão, por meio de conceitos apoiados em uma explicação matemático-estatística. Entretanto, tal corrente do pensamento geográfico passou a receber duras críticas. Uma das principais é o fato de não considerar as características particulares dos fenômenos, pois o método matemático preocupa-se em explicar aquilo que acontece em determinados períodos, mas não explica os intervalos entre eles, além de apresentar dados considerando o todo de forma homogênea, e desconsidera as particularidades (GOMES, 2007).
Com o declínio desta corrente, alguns geógrafos começaram a estabelecer o rompimento daquela neutralidade no estudo da Geografia e propuseram um engajamento e criticidade junto à conjuntura social, econômica, ambiental e política do mundo. Tais ideologias estabeleceram uma leitura crítica frente aos problemas e interesses que envolviam as relações de poder e pró-atividade frente às causas
sociais, defendendo a diminuição das disparidades socioeconômicas e diferenças regionais.
Neste período, uma nova abordagem geográfica, denominada Geografia
Ecológica/Ambiental começa a ser delineada e difundida, objetivando, a priori, a
defesa do ambiente natural. Inicialmente, com o surgimento de tendências ecológicas, muitas vezes “românticas”, os pensadores arriscaram um retorno às
ideias de Rousseau, no seu Contrato Social, a qual pregava uma preservação da
natureza e uma volta à vida em maior contato com a mesma.
No Brasil, a corrente ecológica inicia-se com os trabalhos de Ab’Saber e
Monteiro entre as décadas de 1960 e 1970. Entretanto, visualizou-se maior enfoque ecológico a partir da década de 1980, partindo da abordagem naturalista para uma abordagem centrada no ambiente, onde sociedade e natureza compõe as duas partes de uma interação dialética (MENDONÇA, 1993).
O início de uma Geografia Ecológica foi influenciada pela publicação em 1979
da proposta da Ecogeografia de Jean Tricart e Jean Kilian (MENDONÇA, 2001). Na
sua concepção, esta corrente se construiu a partir do momento em que os geógrafos passaram também a preocupar-se seriamente com o problema do meio ambiente, observando-se que na área de Geografia Física, muitos evoluíram de trabalhos específicos sobre morfologia, clima, hidrologia, etc. para realizar pesquisas mais amplas a respeito do meio ambiente, ou, continuando os trabalhos em suas áreas específicas, passaram aplicar os conhecimentos especializados, levando em conta o impacto dos elementos naturais quando influenciados pela sociedade sobre o meio ambiente.
Sobre isso, Figueiró (2011, p.32) sem se remeter a questão da Geografia Ecológica, mas sim uma Geografia Física, afirma que este período é marcado pela,
incorporação de um paradigma sistêmico em geografia física, que tem por fundamento a busca de respostas às questões da complexidade da organização espacial, onde a distinção entre o físico e o humano passa a ser irrelevante, representa uma tentativa de retomada de uma concepção geográfica unitária, na sua melhor acepção.
Sobre isso, sabe-se que o período pós-guerras marca o início de uma nova consciência mundial, principalmente após as revoluções industriais que gerou o desenvolvimento econômico de muitos países. Intensificou-se o processo de crise ambiental global e a década de 1960 foi marcada pelo surgimento dos primeiros
ecologistas/ambientalistas preocupados com os efeitos desse crescimento acelerado do mundo e como isto iria repercutir no ambiente global.
A industrialização gerou vários problemas ambientais, muitos de abrangência global, levando à internacionalização da questão ambiental. A poluição do ar que foi fruto de um processo intenso de urbanização foi a primeira temática a ganhar destaque. Os resíduos lançados pelas indústrias poluem o ar, tornando-se uma fonte de problemas de saúde para os seres humanos (DANNI-OLIVEIRA, 2000).
Em 1962 foi publicado o livro da jornalista Rachel Carson, ‘Primavera Silenciosa’. O livro foi considerado um clássico do movimento ambientalista, promoveu uma discussão na comunidade internacional pela forma contundente como denunciava a diminuição da qualidade de vida devido ao uso excessivo de inseticida, pesticida e outros produtos químicos na produção agrícola, contaminando os alimentos e deixando resíduos no meio ambiente. A revolução verde provocou o uso abusivo de grandes quantidades de fertilizantes e adubos químicos. O fato é que, na década de 60, teve início de movimentos com outros valores culturais e de referenciais de vida. O efeito conjunto desses movimentos provocou o surgimento de novos valores que priorizaram melhores condições de vida à humanidade e não apenas os problemas do consumismo, colonialismo, exploração predatória, etc.
Sobre isso, cabe destacar o exposto por Foladori (1999) que diz que esta discussão sobre meio ambiente passa a tomar todos os meios científicos, políticos e sociais, a partir do qual o foco passava a ser quais as formas de solucionar os problemas que surgiam, seja nas escalas macro e micro, porém, pouca discussão teórica se faz acerca dos motivos que levaram a estes efeitos. O autor reforça o fato que não se discute quais as relações no interior do processo produtivo destes efeitos que levam aos problemas ambientais da época. Para Foladori (1999, p.96) grande parte das respostas advém da relação ser humano e meio ambiente mediada pelo trabalho. Para ele,
El trabajo humano interrelaciona una actvidad física com un médio ambiente externo y com médios de trabajo legados por procesos de trabajo anteriores. En esta interrrelácion consiste la esencia de la producción, y de la interrelación socedad-medio ambiente.
Neste tema, o autor evidencia que a questão da relação entre sociedade e natureza sempre foi permeada pelo trabalho, porém, o que se diferenciou com o passar dos séculos foi a “Forma Social” que se estabeleceu esta relação, e o momento de crises ambientais é marcado pela forma agressiva de exploração dos
recursos naturais, pela necessidade desenfreada por produtos industrializados e pela geração de resíduos advindos deste processo. Sendo assim, há uma crítica muito forte ao modelo econômico capitalista da época que passa a ganhar força com a supremacia dos Estados Unidos e demais países do então Primeiro Mundo sobre os países do chamado Terceiro Mundo. Para Foladori (1999, p.98, grifo do autor),
No discutir la forma social de producción em el momento em que la crisis ambiental alcanza escala mundial e impactos de largo alcance temporal sobre la biosfera y la especie humana es una actitud totalmente clasista, porque implica, aunque sea por omisión, suponer que la forma capitalista es la única posible contra ló que enseña la historia de la humanidad.
O manifesto dos problemas ambientais se engajou na chegada desses novos valores, integrando um movimento mais amplo que exigiu maior senso de justiça social, reformulação dos critérios de produção e da atuação mais efetiva dos governos junto a sociedade civil para a garantia de melhores condições de vida. Na década de 70, o pensamento ambientalista foi influenciado pela publicação do livro ‘Limites do Crescimento’, em 1972, como resultado do estudo feito pelo Clube de Roma, foi mostrado que o consumo crescente da sociedade, a qualquer custo, imposto pelo crescimento humano exponencial, levaria a humanidade a um colapso.
Para Xavier da Silva (1995, p.349) é neste momento que “firmou-se a imagem do mundo como um conjunto estruturado de padrões espaciais, a serem identificados, analisados e classificados de modo a facilitar a intensificação do uso dos recursos ambientais nele disponíveis.” Esta visão tornou-se extremamente perigosa ao planeta e foi combatida veementemente pelos então movimentos ambientalistas que surgiram a época.
Contemporaneamente, a ciência como um todo colocou a questão da relação Natureza/Sociedade no centro da discussão, por isso a Geografia passou por uma fase de mudanças de posturas teóricas e metodológicas para a compreensão da questão ambiental e sua relação com a sociedade.
Sendo assim, define-se a Geografia Ambiental como este novo campo dentro da Geografia onde pesquisas, teorias e métodos foram surgindo visando mostrar as
contribuições das análises geográficas na compreensão da relação
homem/sociedade e natureza/ambiente, principalmente com vistas a manutenção, recuperação e preservação de ambientes degradados.
Cabe destacar aqui que a noção de ambiente adotada por esta abordagem na Geografia está relacionada a uma visão integradora dos elementos naturais e sociais sobre uma base comum. Para Xavier da Silva (1995, p.358) este ambiente passa a ser entendido como “um conjunto estruturado sobre uma determinada localização, que tem uma extensão determinável e representa uma síntese da atuação de uma variada gama de fatores ambientais – naturais e sócio-econômicos – correlacionados causal ou aleatoriamente para produzi-lo”.
Analisada no campo do pensamento geográfico moderno, a abordagem ambiental pode ser concebida a partir de dois grandes momentos, conforme afirma Mendonça (1993): o primeiro, no qual o ambiente configura-se em sinônimo de natureza, prevaleceu desde a estruturação científica da Geografia até meados do século XX. No segundo momento ocorre o avanço ou salto dado por alguns geógrafos ao romperem com a característica majoritariamente descritivo-analítica do ambiente natural passando a abordá-lo na perspectiva da interação sociedade-natureza e propondo, de forma detalhada, intervenções no sentido da recuperação da degradação e da melhoria da qualidade da vida dos seres humanos.
Ao longo do tempo, a Geografia vai transformando sua compreensão e passa a pensar o ambiente como homem/sociedade e seu entorno. O ser humano não só está envolvido pelos objetos e ações, mas envolve-se com eles, numa integração conflitante. As tendências mais atuais pensam o ambiente sem negar as tensões sob as suas diferentes dimensões. E, na perspectiva da Geografia, retoma-se um pensamento conjuntivo na medida em que sua análise exige compreensão das práticas sociais, das ideologias e das culturas vividas.
Pode-se considerar que o surgimento e a evolução do pensamento ambiental está diretamente associado ao desenvolvimento das ciências ocorridos ao longo da história da civilização, assim como as degradações e alterações ambientais processadas no planeta. Grande parte destes fatos marcaram grandes discussões teóricas, políticas e estruturais que deram a base de uma abordagem socioambiental como se verá a seguir.
2.3 A ABORDAGEM SOCIOAMBIENTAL: DISCUSSÕES INICIAIS PARA SUA