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3.2 A NÁLISE DAS R ESPOSTAS

3.2.1 Apresentando as Respostas

3.2.1.2 Geografia tradicional

Aqui nos apoiaremos em duas respostas: o objeto da Geografia seria a “Paisagem Geográfica” ou a “Sociedade e desdobramentos territoriais”. Essas duas formam um conjunto que revelam características da Geografia tradicional. Paisagem e Território formaram importantes componentes de análise para a Geografia, consideradas até mesmo como conceitos-chave para a compreensão da ciência. Assim como para Milton Santos - com o qual os autores das DCEs concordam - esses dois conceitos formam categorias que devem balizar o objeto da Geografia, e não formarem estes o objeto da ciência geográfica.

De acordo com CUNHA et. al. (referencia), surge como um conceito ligada a questão espacial e o conjunto do território. O conceito de paisagem para os autores.

Ainda que se trate da sociedade, não podemos inserir este conceito na vertente crítica. Se o espaço geográfico é social, a sociedade é um componente que exprime este caráter. Porém, ela sozinha seria incapaz de se justificar enquanto objeto de estudo de uma ciência e, para a Geografia, podemos considerá-la mais como uma categoria de análise, ou como um componente que cerca o espaço geográfico, do que propriamente o objeto para a Geografia.

Por sua vez, os desdobramentos territoriais exprimem, segundo Raffestin (apud, BATISTA, TREVELIN 2009, p.33 ) “[...], as relações de poder que são estabelecidas em determinados espaços, o que não implica de forma alguma em uma representação política,

econômica ou de Geografia física”. Este termo evidencia os embates políticos contidos no espaço geográfico resultado das relações sociais.

Enfim, o território é fonte de recursos e só assim pode ser compreendido quando enfocado em sua relação com a sociedade e suas relações de produção, o que pode ser identificado pela indústria, pela agricultura, pela mineração, pela circulação de mercadorias etc., ou seja, pelas diferentes maneiras que a sociedade se utiliza para se apropriar e transformar a natureza (SPOSITO, 2004, p. 112-113 apud GIOMETTI, PITTON, ORTIGOZA, data p. 37)

Apesar das diferentes formas utilizadas para descrever o termo território, durante muito tempo esse conceito foi considerado como objeto da Geografia e enquanto método para descrever a Geografia regional - configurada pela vertente tradicional da ciência. Entretanto, sociedade e desdobramentos territoriais podem representar as categorias da ciência geográfica, o que justifica seu caráter científico e, enquanto objetos, tornam-se algo comparável talvez com uma mistura dos anseios sociais com as teorias da antropoGeografia de Ratzel.

3.2.1.3 Geografia: ciência da síntese

Para Lacoste (1988) o problema ideológico parece estar no cerne do problema epistemológico da Geografia, sempre e hoje se discute muito mais sobre a Geografia do que sobre espaço, enquanto o objeto dessa ciência.

No período de crise da Geografia pós-guerra, que perdurou até meados de 1960, a definição de seu objeto ficou por muito tempo subsumida a outras disciplinas e a um corpo de conhecimentos utilitaristas, levando a uma pulverização do seu objeto. Como nos aponta Santos (1986, p. 89-90).

O problema é que a Geografia deixou de ser abrangente para vir, praticamente, a perder tudo, seja pela invasão de outras disciplinas em seu domínio de estudo, seja pela sua incapacidade de se fixar um objeto próprio, bem definido [...] sob diferentes maneiras, (autores) procuravam fazer da geografia um corpo de conhecimentos imediatamente utilizável, sem se importar quais poderiam ser as demandas dos utilizadores efetivos ou potenciais.

Este período representa reação imperialista ao movimento de renovação da ciência geográfica, neste período houve uma redução do campo de trabalho dos Geógrafos, por imaginarem que podiam tratar de tudo.

Tais afirmações de Santos releva o contexto por meio da qual Yves Lacoste conseguiria afirmar que a Geografia serve em primeiro lugar para fazer a Guerra. Com esta perda de identidade e tal confusão entre termos e referências para o seu objeto, Lacoste (1988) afirma que suas funções ideológicas e políticas aparecem encobertas, como forma estratégica essencial a demonstra-la como ciência desinteressada, uma vez que, para aqueles que se colocam no poder, ou querem dele se apossar, é necessário saber organizar o espaço e poder agir ali do modo mais eficaz possível (LACOSTE, 1988, p. 30).

O espaço é considerado conceito chave para a Geografia. Mas, como já visto, nas palavras de Santos (1986) a que espaço a Geografia se refere?

Para Oliveira (1972) a evolução do conceito de espaço se atrela à Física, à Filosofia e, principalmente, à Matemática. Para a autora, as mudanças culturais quase sempre envolvem mudanças nos conceitos espaciais, pois, o espaço tem mudado substancialmente, desde a Antiguidade.

Para a autora, a evidência sistemática do conhecimento geográfico como ciência é encontrada em Erastóstenes, que foi o primeiro sábio grego a se chamar geógrafo e o primeiro a metodizar sobre localização de lugares, com certa precisão. Já o espaço para Aristóteles se confunde com o conceito de matéria, ora com lugar (topos). Para Platão, a Física, e consequentemente o espaço físico, se converte em Geometria, e para Pitágoras, em Aritmética. Para os geógrafos na Antiguidade Grega, o espaço possuía formação matemática e filosófica, nesta época o conceito de espaço se refere a localização absoluta de lugares e à medição de pontos sobre a crosta terrestre. (OLIVEIRA, 1972, p. 6)

Os primeiros geógrafos, sendo também geômetras e preocupados com a mensuração de pontos, linhas, áreas, distâncias, extensões, procuram inventar instrumentos e sistemas de localização mais acuradas para a melhor responder a questão onde.

Durante o período grego-romana, a concepção geográfica de espaço foi em termos de espaço absoluto, com a preocupação inicial de localização e depois de descrição de lugares. No contexto medieval, a explicação cientifica do espaço dominada pela explicação teológica. O conceito de espaço e luz se confundem em um mesmo conceito, pois deus, como espaço absoluto de revela aos homens como luz. É na idade moderna, que reaparecem o interesse e a necessidade de localização e descrição de lugares, com as grandes viagens descobridoras e exploradoras.

Devemos considerar, portanto, que mesmo a Geografia elegendo o espaço como seu principal representante, o termo sozinho pode caracterizar uma noção vaga de um espaço absoluto. O espaço para a Geografia não pode ser considerado pelos mesmos termos

tal como os utilizados pela física quântica (como o “espaço sideral”), mas deve ser entendido como um espaço concreto, assim apresentados por Nitsche (2001, p.39):

A Geografia se preocupa com as atividades e relações humanas no meio, sendo este o ponto fundamental. Deve atribuir como objeto de estudo da Geografia a RELAÇÃO SOCIEDADE/NATUREZA. Este deve ser de fato o estudo e ponto de partida no desenvolvimento das pesquisas e dos trabalhos geográficos (grifos no original).

Neste contexto, é necessário não mais teorizar o espaço, mas utilizá-lo como pano de fundo nos questionamentos geográficos; parar de teorizá-lo e começar a trabalhar nele.