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Geometrias e espaços de Robbe-Grillet a Nassar

Capítulo 1. Líbano e Brasil

2.4. Les Cris de Paris : pré-textos de literatura francesa em

2.4.2. Geometrias e espaços de Robbe-Grillet a Nassar

Existe, efetivamente, uma ligação entre os romances de Nassar e de Rob-be-Grillet? A nova maneira de construir as obras narrativas, para torná-las

adequadas para a sociedade racionalista e tecnológica contemporânea, di -fundida pelas Éditions de Minuit, relaciona-se, de alguma forma, com

ambientes que não se enquadram no tempo e nos espaços urbanos do es -critor de Pindorama? Esse último cita Les Gommes dentre os seis ou sete

textos do Nouveau Roman que leu, estimulado pelas resenhas de Leyla Perrone-Moisés, publicadas no “Suplemento Literário” do jornal O

esta-do de S. Paulo, nos anos de 1960. A obra citada lhe parece bem

construí-da, mas a compara a um navio dentro de uma garrafa, que, num primeiro

momento, pode gerar sentimentos de admiração, mas, em seguida, susci-ta enfastiamento. Apesar das descrições caracterizadas por grande plas-ticidade visual, a frieza do texto o obrigou a proteger os ombros durante

a leitura. Embora tenha renegado essa obra por considerar sua “escritura excessivamente civilizada”, Nassar admitia que sua leitura pudesse ter

deixado nele algumas marcas106.

Com certeza, a língua intencionalmente pobre, ou melhor, científica

do autor francês, em que as conotações são reduzidas ao mínimo, em que

não há sugestões analógicas e as metáforas são sacrificadas à visibilidade

dos contos, não corresponde ao discurso de Nassar, que procura desen -volver-se na saturação, realizada pelas metáforas. Se, em Robbe-Grillet,

em função da organização textual se esgarçam e quase desaparecem as

estruturas narrativas, entendidas como transmissores de significados, atingindo, em primeiro lugar, a história, mas também as personagens e suas opiniões, suas características psicológicas, seus papeis sociais e o próprio narrador; em Nassar, busca-se exatamente o contrário: a

amplifi-cação do eu, da narração em primeira pessoa, do solilóquio como afirma -ção extrema e inelutável da própria condena-ção.

Existem, porém, alguns pontos em comum, que dizem respeito à re

-presentação estática do espaço, que prevalece sobre a sucessão lógico --cronológica. O tempo também é fracionado, representando os instantes

em que um gesto ou um detalhe se manifestam. O espaço é delimitado e

subdividido em uma série ilimitada de aspectos.

O descritivismo visual, que, no modelo francês, iguala pessoas e coi

-sas, na narrativa de Nassar convive com as hierarquias de valores que os

protagonistas instituem por meio de sua subjetividade, manifestando-as

106. “A Conversa” em Cadernos de Literatura Brasileira– Raduan Nassar, São Paulo, Instituto Moreira Salles, 1996, n. 2, p. 35.

mediante sentimentos e opiniões, preferências e escolhas, comentários e juízos.

Um romance emblemático da école du regard parece ter sido o ponto de partida para a redação do conto um Copo de Cólera. Nas-sar, mais uma vez, produziu uma obra original, retomando o procedi-mento adotado em Lavoura Arcaica para a reformulação da estrutura

narrativa de Gide. A obra em questão é La Jalousie107, de Alain

Robbe-Grillet, que apresenta uma minuciosa sequência descritiva de

espaços externos e de outros ambientes de um palacete, moradia do proprietário de uma plantação de bananeiras num departamento fran-cês ultramarino. Alguns cômodos, como o escritório e a sala da jantar,

apresentam uma descrição dos móveis; a sacada, que dá para o jardim,

zona limítrofe entre a intimidade da casa e o espaço exterior, é

descri-ta para definir o ambiente, com as poltronas de fabricação local, que

acolhem as conversas entre as três personagens principais: um

mari-do, a mulher dele e o vizinho. Na sequência de descrições repetidas que fazem desviar a conversa do plano real para o plano da alucina -ção, ressalta o esmagamento de uma centopeia, cujas marcas perma-necem na parede da sala de jantar, imagem carregada de referências

simbólicas para o narrador “distanciado” da história. Uma informação

acessória sobre uma personagem secundária trata da tarefa de um dos

trabalhadores locais, ou seja, do tratamento à base de inseticida a que

devem ser submetidas as bananeiras novas, antes de serem

transplan-tadas. O inseticida serve “para protegê-las dos cupins”108. Também

em Copo de Cólera, de Nassar, apresenta-se um ambiente rural, num

sítio, próximo de uma cidade grande que, porém, nunca é nomeada. Aqui também as informações topográficas são percebidas imediata -mente e remetem à geografia real, contribuindo para a verossimilhan-ça da história.

107. Alain Robbe-Grillet, La Jalousie, Paris, Éditions de Minuit, 1957. Edição italiana La Gelo-sia, trad. Franco Lucentini, Torino, Einaudi, 1958. Edição brasileira: O Ciúme, trad. Waltensir Dutra, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.

Os protagonistas são dois amantes que usam a propriedade dele para

encontrar-se; a casa é distribuída em dois níveis. No andar de cima há um terraço, com poltronas confortáveis, fronteira entre o mundo interior e o

mundo exterior. Aqui também os ambientes internos necessários para a

economia da narrativa são descritos, mas por um narrador intradiegético.

O momento fulcral da fábula aflora em consequência do descobrimento pelo eu narrador do estrago feito pelos cupins na planta que forma parte da

cerca viva da propriedade. A reação furiosa do protagonista, precedida por uma aplicação profunda de inseticida na região atacada pelos insetos, gera

a tempestade dialética que permite a esse romance afastar-se do romance

francês, ganhando características próprias e autonomia narrativa. Na rela-ção entre hipotexto e hipertexto evidencia-se a arela-ção de contaminarela-ção

in-tertextual de Nassar, que satura uma relação conjugal velada pelo delírio

provocado por uma suspeita, expressa de maneira impessoal e rarefeita,

mediante a inserção da retórica hipertrófica do eu narrador, que, em Robbe

--Grillet, ao contrário, não quer aparecer. O autor altera, assim, o hipotexto, de maneira lúdica, como se quisesse enunciar a história à la manière nas-sarienne, ou seja, numa elaboração satírico-caricatural.