Diante disso, as áreas demarcadas na cor laranja possuem grande importância para o estudo da ciência geológica, no qual, mesmo após centenas de anos, existe uma gama de riqueza voltada para o interesse da proposta da criação do Geoparque Costões e Lagunas no estado do Rio de Janeiro, conforme descrito abaixo.
A região proposta para o Geoparque Costões e Lagunas do Estado do Rio de Janeiro compreende área com evolução geológica singular envolvendo mais de 2 bilhões de anos de história geológica e afloramentos que podem ser enquadrados em tipologias variadas como, por exemplo, espeleológico, estratigráfico, geomorfológico, hidrogeológico, história da ciência, ígneo, marinho-submarino, paleoambiental, mineralógico, tectono-estrutural, incluindo vestígios arqueológicos e sítios de interesse histórico/cultural (GEOPARQUE, COSTÕES E LAGUNAS, online, n.p).
Com grande potencial geoturístico, envolvendo gente, natureza e cultura, as paisagens e singularidades de interesse geológico dessas regiões atraem a atenção do mundo para o seu grande valor histórico-cultural e científico. Visitado por naturalistas como Charles Darwin, príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied e Saint-Hilaire o território do geoparque mantém registros histórico-científicos desde o descobrimento do Brasil, bem como as histórias retratadas pelos quilombos sobre a época da escravidão. Além disso, é reconhecida como raridade devido à biodiversidade da região, no qual, foram criadas Unidades de Conservação - UCs de Proteção Integral e Desenvolvimento Sustentável. São muitos os sítios de conservação distribuídos em todo o território dos geoparques, costões e lagunas do Rio de Janeiro - contando com algumas representações na Figura 20, destacando-se as salinas, igrejas, paisagens naturais, faróis, lendas, mitos, danças, entre outros patrimônios, a gama de riquezas encontradas no geoturismo abrange uma rede de educação ambiental com museus e centros de interpretações abertos à visitação (GEOPARQUE, COSTÕES E LAGUNAS, online, n.p).
Figura 20 - Paisagens de interesse geológico estado do Rio de Janeiro
Fonte: Geoparques, costões e lagunas, modificado pela Autora, 2022
Diante dessa biodiversidade em grande parte do litoral do estado do Rio de Janeiro, a busca pelo reconhecimento em grande escala e a preocupação quanto à conservação dessas áreas de interesse geológico, a comunidade do projeto vem trabalhando com o intuito de um dia receber nominação de Geoparque Mundial da Unesco (GEOPARQUE, COSTÕES E LAGUNAS, online, n.p).
A integração de elementos arqueológicos, naturais, culturais e saberes, tem o poder identitário de uma região, e sua individualidade o torna interessante, aguçando a curiosidade do visitante e consequentemente, firmam ainda mais a importância da sua valorização. Não distante, com o intuito de integrar a proposta do projeto de restauração da antiga estação ferroviária de Leitão da Cunha - explicitado no capítulo 6 - a um percurso turístico no município de Trajano de Moraes, viu-se necessário a adoção do referencial do Geoparque. Nesse caso, foi utilizada uma proposta mais próxima da região do município de Trajano, uma vez que, a interação turística, e a prática da promoção de preservar o território se assemelha da idealização do percurso na localidade.
6 ANTIGA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE LEITÃO DA CUNHA
A antiga Estação Ferroviária Leitão da Cunha (FIGURA 21) - edificação escolhida para a proposta de restauração, dando-lhe um novo uso - encontra-se localizada no Município de Trajano de Moraes, em uma área rural, cerca de 8,7 Km - seguindo pela rota da antiga linha do trem - afastada do centro do município, e, atualmente, locada em uma região onde houve um grande fluxo de êxodo rural, mantendo-se na região apenas algumas ruínas, como no caso da própria estação, como poucas construções abandonadas, e outras resididas por famílias humildes e que trabalham com a pecuária para o seu sustento.
Figura 21 – Antiga estação ferroviária Leitão da Cunha
Fonte: Acervo próprio, 2021
São poucos os registros sobre a localidade, sabe-se que o seu nome se dá em homenagem à Ambrósio Leitão da Cunha, natural de Belém do Pará, em 21 de agosto de 1821, e falecimento em 05 de dezembro de 1898; homem importante no período do Brasil Império, Ambrósio - tido como Comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo - recebeu o título com grandeza de Mamoré, foi uma pessoa de grande influência no Brasil e uma das representatividades do desenvolvimento em Trajano de Moraes, município onde localizava-se sua propriedade, a fazenda Santana de Macabu (MUSEU IMPERIAL, online, n.p.).
Segundo o professor e historiador local Vladimir Miguel Leão – vulgo Bigu, o Ambrósio Leitão da Cunha - presidente de cinco províncias Grão-Pará, que hoje se diz Estados - comprou a fazenda no antigo município de São Francisco de Paula (hoje localidade pertencente ao atual município de Trajano de Moraes), localidade onde o corpo do Barão encontra-se no cemitério da antiga Matriz da Igreja São Francisco de Paula (estado de conservação em ruína) em meio às montanhas. Posteriormente, a fazenda passou de geração em geração até ser desmontada por volta de 1988-1989 - não tendo sido possível rastrear a atual localização dos elementos da fazenda, devido à falta de documentação disponível ao público, entretanto, vários nativos da cidade e visitantes lembram da fazenda e lamentam pelo vazio onde ficava a sua implantação. De acordo com Vladimir, antes do desmonte da fazenda, a região possuía cerca de trinta famílias, além de um alambique, uma fábrica de vassouras, dois campos de futebol, um cemitério que acompanhava a Igreja de Nossa Senhora Santana, com sua estrutura sobrevivente do tempo, demonstrada na Figura 22 a seguir (LEÃO, 2022).
Figura 22 – Igreja Nossa Senhora Santana, em Leitão da Cunha
Fonte: Acervo próprio, 2021
Outra edificação que resiste aos intempéries, é a antiga estação ferroviária, que por mais que seu estado de conservação esteja em péssima condição, levando-a à ruína, ainda assim resiste, e é notório na paisagem, juntamente com a estrutura contemporânea de uma escola pequena, escondida entre árvores e vegetações de médio e grande porte que a tomaram após a mesma também ser desativada. Todavia, antes das linhas de trem serem desativadas, há registros da estação repleta de pessoas, como nos mostra a Figura 23, possivelmente em algum evento na região, ou até mesmo a inauguração da própria estação, após a implantação da linha nas terras da fazenda Santana de Macabu.
Figura 23 - Registros históricos da Estação Ferroviária Leitão da Cunha por volta de 1890
Fonte: Estações Ferroviárias, 2017
Conta Vladimir que a região iniciou o êxodo rural após a retirada da linha em 1965, tendo seus trilhos retirados mediante a “campanha limpa trilhos”, e com o tempo, a região tornou-se abandonada, onde os únicos moradores são pequenos produtores rurais que vivem da agricultura e, apesar da paisagem rural, com algumas poucas ruínas e muita mata nativa, até hoje pessoas seguem visitando a região, tanto para fins esportivos com atividades físicas, como caminhadas e andar de bicicleta, devido a região ter estradas tranquilas e que possibilitam passeios em família e/ou com amigos, como também por curiosos e aventureiros que vão para a localidade buscando conhecer o famoso “túnel” (FIGURA 24), que nada mais é que uma ponte antiga, erguida com a técnica de encaixe de pedras, construída para dar passagem aos trilhos do trem (LEÃO, 2021).
Figura 24 - “Túnel” Leitão da Cunha
Fonte: Acervo próprio, 2021
Por fim, os últimos registros encontrados da estação em dias operantes foram algumas imagens fotográficas (FIGURA 25). Nestas, um fato curioso, é que quando comparadas com a imagem mais antiga – apresentada na Figura 23, nota-se que a estética da fachada teve uma modificação, pois, o sistema construtivo é de tijolos maciços, e em sua versão original, a alvenaria encontrava-se aparente. Entretanto, as imagens abaixo, possivelmente da década dos anos 40, nos revelam que em algum momento houve uma reforma na edificação, cobrindo os tijolos maciços com uma camada de reboco, e uma faixa – por volta de 1,50m de altura – descaracterizando a peculiaridade da data da sua construção.
Figura 25 - Estação Ferroviária Leitão da Cunha operante
Fonte: Estações Ferroviárias, 2017