• Nenhum resultado encontrado

Geossímbolos na construção da identidade do migrante retornado

1.1 O lugar e o território migrante

1.2.3 Geossímbolos na construção da identidade do migrante retornado

As práticas espaciais que costuram as espacialidades rurais e urbanas são forjadas em vivências híbridas, como nos casos citados acima e em infinitas outras relações que transitam entre estas duas formas espaciais de vida. E neste trânsito se processa a construção de representações da realidade decorrente dos processos complexos de produção e atribuição de significados comunicados entre pessoas de um mesmo grupo cultural. Em outras palavras, trata-se da criação de formas simbólicas (CORRÊA, 2007) espaciais que constituem signos elaborados a partir da relação entre formas, significantes, e conceitos, os significados (ibid., p. 7). Materializadas em fixos e fluxos, ou seja, passíveis de atribuição geográfica (localização, orientação, conexão), as trajetórias, memórias, imagens, paisagens, edifícios, monumentos, entre outras, marcam os atributos espaciais que podem ser novos, criados com esta finalidade ou ressignificados, ou preexistente e incorporado com significados novos.

100

As formas simbólicas (...) têm uma localização relativa, associada à visibilidade, mas, sobretudo, à acessibilidade face a toda a cidade ou espaço regional ou nacional. Esta acessibilidade é um dos meios mais importantes para que as formas simbólicas possam transmitir as mensagens que delas se espera. Finalmente, as formas simbólicas apresentam uma localização relacional, isto é, são localizadas em relação a outras formas simbólicas que denotam interesses divergentes: a localização delas enfatiza um conjunto de valores que é referenciado a um dado espaço, ao qual opõe-se outro espaço (CORRÊA, 2007, p. 9)

Uma vez declarado nosso entendimento das formas simbólicas espaciais, cabe evidenciar que as relações dos migrantes com os espaços rurais e urbanos reconstroem e ressignificam tais formas, seja na migração cidade do interior-metrópole, ou no retorno, metrópole-cidade do interior. De tal maneira é que a paisagem em que o migrante contribui para a construção se altera assumindo uma retórica que permite que se constate metonímias espaciais (MACIEL, 2004, 2005, 2009), atingindo uma consistência histórica e geográfica profunda que se projeta “nas percepções e comportamentos daqueles que a mobilizam, re-interpretam e integram em novos sistemas de metáforas. Esse poder direcionador do imaginário pela paisagem é o que a faz matriz de comportamentos e ações...” (Ibid., 2005, p. 12).

No caso da presença de nordestinos nas metrópoles do Sudeste, consideremos como algumas paisagens metonímicas a Rocinha e a Feira de Paraíbas, no Rio de Janeiro, ou as obras e favelas em São Paulo, constituídas essencialmente por nordestinos ou descendentes que reproduzem no aspecto destes lugares formas simbólicas que representam seus lugares de origem. Os lugares dos migrantes se tornam, eles mesmos, metonímias espaciais porque estão povoados de geossímbolos. Isto leva próprios lugares, muitas vezes, a se constituírem em geossímbolos. Mas como se compreende aqui este termo?

Alguns trabalhos geográficos que se propõem a analisar geossímbolos os têm apresentado ressaltando sua dimensão política ou seu caráter físico/natural (GONZALEZ, 2009; LANDEROS, 2009) igualando geossímbolos a formas simbólicas espaciais. Entretanto, embora os geossímbolos possam ser considerados formas simbólicas espaciais, nem todas as formas simbólicas podem ser interpretadas como geossímbolos, isto porque, de acordo com Bonnemaison (2012) o que torna qualquer forma espacial em geossímbolos é a sua dimensão simbólica capaz de fortalecer identidades: “... um geossímbolo pode ser definido como um lugar, um itinerário, uma extensão, que, por razões religiosas, políticas ou culturais, aos olhos de certas pessoas e

101 grupos étnicos, assume uma dimensão simbólica que os fortalece em sua identidade” (p. 292).

Os geossímbolos, pois, ultrapassam as dimensões estrutural e vivida do espaço. Na consideração dos seus efeitos, deve-se levar em consideração que estes símbolos espaciais operam na esfera da cultura, que engloba o vivido e produz o estrutural. O espaço geossimbólico envolve, portanto, as representações culturais, que vão além do horizonte cotidiano, embora sejam produzidas nele. Surgem da sensibilidade e da busca por significações, são carregados de afetividade e de simbolismos, tornam-se territórios- santuários, isto é, “um espaço de comunhão com um conjunto de signos e valores” (ibid., p. 293).

O espaço do migrante nesta acepção assume, então, o caráter de trama geossimbólica, “uma forma de linguagem, um instrumento de comunicação partilhado por todos e, em definitivo, o lugar onde se inscreve o conjunto da visão cultural” (Ibid., p. 299). É neste ponto que se cruzam, na construção territorial do migrante, o mundo material pragmático e simbólico. A elaboração de geossímbolos é um recurso que presente nas redes e cadeias migratórias, produzindo a manutenção do migrante ou estimulando o retorno, ao passo que a circularidade migratória, as idas e vindas, evidenciam também o uso do recurso imaginário que os geossímbolos ajudam a construir, fazendo com que os territórios do migrante, sejam os da metrópole ou do lugar de retorno, não sejam estranhos aos sujeitos que estão na circularidade, o que os permite se manter neste fluxo constante de ir e vir.

Conclui-se, assim, que os geossímbolos permitem a consolidação das redes e cadeias migratórias. Se por um lado, ao construírem formas simbólicas espaciais que remetem suas memórias aos espaços de origem e a suas histórias próprias, tornando-os geossímbolos, os migrantes encontram maior equilíbrio e podem se reterritorializar efetivamente a partir da superação das transterritorialidades no lugar de destino através do acionamento das múltiplas territorialidades resultantes de sua experiência. Por outro lado, todavia, é preciso que se considere que há migrantes que não superam as transterritorialidades e retornam, há os que vivenciam os conflitos de territorialidades lançando mão de estratégias territoriais híbridas e se mantém no lugar de procedência, apesar de estar vinculado simbolicamente ao lugar de origem. Enfim, há muitas situações possíveis, mas em todas elas, o território, as trajetórias, os lugares, um marco geográfico, um itinerário, uma prática espacial (uma rotina de trabalho, por exemplo),

102 tudo isso é capaz de se constituir em um geossímbolos capaz de influenciar a permanência ou o retorno do migrante, a depender de como se combinam estes geossímbolos com as redes e cadeias migratórias, como veremos a seguir.

1.3 As redes e cadeias migratórias e a formação dos geossímbolos