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3. CULTURAS DA ESCOLA: TEMPORALIDADES,

3.3 Gerências internas: o quadro institucional escolar

Conduzir uma pesquisa sobre o estudo dos fragmentos da cultura escolar de uma instituição também requer atenção, não somente para seus aspectos estruturantes, mas também, e talvez principalmente, para a constituição da escola a partir das pessoas que a compunham, a saber: professores, alunos, gestores e o corpo de funcionários. O fazer ordinário escolar só era possível graças à interação desses diversos grupos no âmbito institucional, a partir das

mais diversas relações. Inventariar quem eram esses grupos é fundamental para compreender melhor a escola e desvelar sua cultura.

O corpo de funcionários que compunham o quadro institucional do GAAC para o primeiro ano de funcionamento (1963) era formado por: um diretor, um vice-diretor, um secretário escolar, um chefe de disciplina, dois auxiliares de escritório, dois datilógrafos, um arquivista, quatro inspetores de alunos, um porteiro, um jardineiro e dois serventes.

FIGURA 1 - Primeiros gestores e aluno do GAAC.

Fonte: Arquivo da EAAC.

Esta fotografia do Ginásio Agrícola data da década de 1960: da direita para a esquerda, podemos observar o engenheiro agrônomo João de Sousa Barbosa, primeiro diretor da Escola e professor de Inglês, e o Professor de Desenho Técnico e primeiro vice-diretor Severino Duarte de Melo. Chama-nos a atenção o segundo homem da esquerda para a direita. Ele usa um quepe, que

é um tipo de boné de uso militar. Por certo, saber quem era o homem da foto nos revelaria alguma informação que ligasse a escola ao corpo dos militares.

Devido ao fato de a escola ter funcionado provisoriamente em Campina Grande, o pequeno número de funcionários seria relativamente suficiente. Com a mudança para a cidade de Lagoa Seca em 1967, este quadro logo se mostraria bastante insuficiente para as atividades escolares, dado o tamanho da área escolar, o aumento das turmas e as diversas atividades pedagógicas de campo oferecidas. O espaço escolar engendrava, além de novas práticas, novas demandas institucionais e necessidades. O corpo de funcionários cuidava do funcionamento burocrático e administrativo da instituição, conferindo regularidade às atividades escolares e subsidiando as práticas ordinárias.

Cada categoria de funcionários tinha suas próprias atribuições e papéis. O Estatuto do GAAC previa em sua redação os principais deveres, tarefas e princípios norteadores das práticas do diretor, vice-diretor e secretário escolar. Competia ao diretor do GAAC, além de outras funções, observar e fazer cumprir todas as prerrogativas dos dispositivos dirigentes da escola. Assim, a ênfase principal recai sobre o cumprimento das determinações da SEAV, as deliberações da Congregação e as legislações concernentes ao ensino técnico e secundário.

Também era sua atribuição “manter a ordem e a disciplina dentro do Ginásio, e aplicar o princípio de autoridade quando se fizer necessário” (ESTATUTO DO GAAC DE CAMPINA GRANDE, 1968, s.p.). Manter a ordem dentro da instituição era um pré-requisito, conforme entendido pelos docentes que elaboraram o Estatuto do GAAC, que promoveria a disciplina e a docilização dos corpos, com vistas ao melhor funcionamento da instituição. Ordenar o desordenado através da imposição e do uso de autoridade era uma das estratégias legais conferidas ao gestor por meio do referido documento. Nesse sentido, percebemos, neste documento, o desvelar da arquitetura escolar enquanto “um programa, uma espécie de discurso que institui na sua materialidade um sistema de valores, como os de ordem, disciplina e vigilância, marcos para aprendizagem sensorial e motora” (ESCOLANO, 2001, p. 26).

O diretor detinha, ainda, sob sua responsabilidade o zelo pelo patrimônio escolar. A ele cabia o dever de elaborar as despesas do orçamento anual escolar, com o auxílio esporádico do secretário escolar. Era de sua incumbência também apresentar todo ano à SEAV um relatório escolar com todas as

atividades realizadas na instituição e emitir portarias e pareceres que contribuíssem para o melhor funcionamento da escola. O vice-diretor possuía as mesmas atribuições do diretor, e também o substituiria em sua ausência por algum motivo extraordinário, férias ou vacância de qualquer outra natureza.

O secretário escolar era responsável por diversas atribuições, as quais estavam sob a dependência do diretor escolar. Dentre as mais variadas, destacamos as atividades mais essenciais de sua incumbência: organizar a escrituração do estabelecimento de ensino; organizar a secretaria; encarregar- se das correspondências oficiais; organizar o funcionamento de toda a secretaria da escola, distribuindo as atividades entre os pares e supervisionando as atividades; encaminhar ao reitor os requerimentos dirigidos a ele; servir de secretário nas sessões da Congregação, utilizar a palavra quando solicitado pelo gestor escolar e convocar por escrito os docentes para as sessões deste órgão. Para além dessas funções, outras atribuições eram de sua incumbência: assinar os documentos oficiais da escola; organizar e manter ordenados os registros dos funcionários; articular, junto ao Serviço Central de Administração da Secretaria de Agricultura, os requerimentos pertencentes à instituição; supervisionar o ponto dos professores, registrando suas respectivas faltas; supervisionar o horário de chegada dos funcionários, atribuindo falta ao que chegasse atrasado ou se retirasse do local de trabalho antes de encerrar o expediente; expedir certificados escolares e documentos para serem assinados pelo diretor; zelar pelo devido cumprimento da legislação do ensino e das medidas de caráter administrativo relativas ao pessoal e material, além de organizar as requisições de material necessário ao estabelecimento a serem encaminhadas ao Departamento de Serviço Público.

O serviço do secretário escolar, como visto acima, além de complexo e repleto de pormenores, também era uma atribuição de exercício de poder. Ele poderia supervisionar e exercer o controle sobre o horário de trabalho dos funcionários e de ratificar as faltas destes e dos docentes. Como vimos, não era permitido ao funcionário se atrasar ou sair antes do final do expediente sem permissão. Assim, o secretário poderia exercer a vigilância e punir os infratores, atribuindo falta no respectivo funcionário que agisse de encontro às normas escolares.

FIGURA 2 - Secretaria e secretárias do GAAC.

Fonte: Arquivo da EAAC.

O acervo da instituição dispõe de pouquíssimas fotografias escolares do período abordado por este trabalho. No arquivo da instituição, digitalizamos as fotografias acima, as quais nos permitem vislumbrar a secretaria da escola nos seus primeiros anos de funcionamento.

Sobre a fotografia, podemos refletir acerca do cuidado do fotógrafo em demonstrar os elementos ornamentais da imagem que compunham a secretaria escolar: birôs na sala dispostos em fila, organizados para uso da secretaria, estantes dos arquivos escolares, duas funcionárias em seus ofícios: a primeira trabalha em uma máquina de escrever, representando a utilização de aparato “moderno” na escola, enquanto a segunda possivelmente consulta algum documento escolar.

Ainda nos revela que os funcionários não usavam fardamento escolar para o trabalho, pois cada uma se veste à sua maneira ou como lhe parece mais conveniente, o que indica não ter havido padronização. Notamos que a secretaria funcionava como arquivo da escola pela quantidade de pastas armazenadas nos armários.