Capítulo 1. – A evolução dos estudos meteorológicos e o clima do Noroeste de
1.3. O clima do Entre Douro e Minho na evolução do pensamento geohistórico
1.3.3. De Gerardo Augusto Pery (1835-1893) a Ricardo Jorge (1858-1939)
A partir de meados do século XIX, o labor despendido nos novos Observatórios Meteorológicos e o avanço da ciência forneceram os elementos necessários para um conhecimento mais detalhado sobre o comportamento climático de Portugal. Todavia, foi ainda preciso esperar até à década de 1870 para que aparecessem os primeiros resultados relevantes. Até lá, a esmagadora maioria das informações compiladas sobre este assunto pouco ou nada avançam relativamente ao já publicado por Adrien Balbi ou por outros autores anteriores, não faltando as referências habituais, repetidas desde há mais de três séculos e meio. Alguns autores enunciam logo na abertura das suas obras as fontes e a estratégia adotada: uns para avisar o leitor de que apenas encontrará a tradução de informação já disponível: «Por eso la mayor parte de los materiales, y hasta el plan de mi obra, están tomados de la que publicó en francés Adriano Balbi en el año 1822, titulada ‘Ensayo estadístico del reino de Portugal y de los Algarbes’, por ser la que se ha escrito hasta el día con más exactitud, extensión, sensatez e imparcialidad»238; outros para se defenderem da acusação de plágio: «Não faltará por ventura quem nos acuse de plagiato; qual será porém a obra estatística deste género que não tenha a dizer o que outros têm dito, e estes copiado ou imitado ainda de outros copiadores ou imitadores? Os geógrafos e historiadores não podem deixar de transcrever ou repetir»239.
Uma das poucas exceções dignas de nota neste período é o trabalho do professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, Luís António Pereira da Silva, publicado na Gazeta Médica do Porto (vol. I de 1843), que reúne vários dados instrumentais, recolhidos pelo próprio autor, na cidade do Porto, entre Novembro de 1842 e Setembro de 1843. De salientar ainda o trabalho do engenheiro Rodrigues de Freitas, Notice sur le Portugal (1867), pela compilação de dados instrumentais, relativos a Lisboa (1861- 1863), Campo Maior (1861-1863) e Porto (1865-1866), provenientes do Observatório Meteorológico Infante D. Luís240. Infelizmente, em ambos os casos, os autores ficam-se pela simples exibição das tabelas com os valores numéricos e pequenos resumos sobre os valores apresentados, sem os enquadrar, interpretar e explicar.
238 Marugán y Martín, 1833: IV-V. Tradução livre do autor: «Por isso, a maioria dos materiais, e até o
plano do meu trabalho, são tirados da obra publicada em francês por Adriano Balbi no ano de 1822, intitulada ‘Ensaio Estatístico do Reino de Portugal e dos Algarves’, por ser até ao momento o estudo com maior precisão, extensão, sensatez e imparcialidade».
239 Camara, 1850: VI. 240 Freitas, 1867: 5-8.
Em 1875, o engenheiro militar Gerardo Augusto Pery (1835-1893) publica uma Geografia e Estatística Geral de Portugal e Colónias, com a qual se propõe «preencher uma importante lacuna de há muito reconhecida: a de uma descrição exata e completa de Portugal»241. Nesta obra, o oficial do exército português traça um retrato minucioso do País, socorrendo-se da abundante informação estatística coligida pelo Estado e apoiando-se na observação sistemática e extensiva do território, que percorreu ao longo de vários anos de trabalho no desempenho de diversas funções242.
No quarto capítulo, Pery debruça-se sobre o clima de Portugal, que enquadra «na região média da zona temperada setentrional, gozando portanto de um clima temperado». No entanto, explica que, apesar da pequena extensão do País, diferentes circunstâncias «meteorológicas, orográficas e geológicas» introduzem diferenças notáveis nas condições climatéricas. Assim, divide Portugal em sete zonas climáticas que coincidem com outras tantas regiões agrícolas: Zona de Nordeste ou Terra Fria, Zona Quente do Norte, Zona Litoral do Norte, Zona Central, Zona Litoral do Centro, Zona do Sul e Zona Litoral do Sul. Para a sua divisão regional de índole agroclimática, Pery utilizou os valores médios dos principais elementos meteorológicos observados em diversos postos climatológicos supervisionados pelo Observatório Meteorológico Infante D. Luís, designadamente, o da Guarda (1864-1872), Porto (1864-1872), Lisboa (1856-1863; 1864-1872), Campo Maior (1864-1872), Évora (1869-1872) e Lagos (1866-1872). Utilizou ainda os dados recolhidos no Observatório Meteorológico e Magnético da Universidade de Coimbra, relativos ao período de 1867-1874. Nesta divisão, o Entre Douro e Minho está arrumado na terceira região (litoral do Norte), que se estende para sul, até Aveiro. Aqui, a exposição aos ventos húmidos e frescos do mar, a constituição geológica e a disposição dos principais alinhamentos montanhosos, «que do lado do nascente abrigavam dos ventos de terra», conferiam à região um clima mais temperado e húmido do que o das restantes zonas climáticas. Como exemplo do que fica dito, o autor apresenta os valores recolhidos no posto climatológico do Porto, sem nada acrescentar243.
241 Pery, 1875: V.
242 Gerardo Pery foi adjunto da Direção Geral dos Trabalhos Geodésicos, tendo sido um dos responsáveis
pela elaboração da Carta Geográfica de Portugal, sob a direção de Filipe Folque; foi membro da Academia das Ciências de Lisboa e da Sociedade de Estatística de Paris, sendo um dos fundadores, em 1875, da Sociedade de Geografia de Lisboa (Justino, 2012: 97).
Embora Gerardo Pery se fique por uma descrição superficial de cada uma das divisões climáticas, as quais nem sequer foram cartografadas, o texto em análise trouxe um efetivo avanço no conhecimento do clima de Portugal, não só porque o autor reuniu e utilizou de forma efetiva as observações instrumentais realizadas nos recém-criados observatórios meteorológicos de Lisboa, Porto e Coimbra, mas também porque, ultrapassando a tradicional divisão em províncias ou a organização administrativa do País, Pery foi capaz de esboçar, pela primeira vez, uma divisão geográfica do território, combinando o clima com outras características naturais, tais como, a arborização, o tipo de pastagens, as árvores de fruto e o cereal dominante.
Também em 1875, Bernardino de Barros Gomes (1839-1910), na sua «Carta Orográfica e Regional», publicada na obra Cartas Elementares de Portugal (1878), apresenta o País dividido em doze regiões: Além-Douro Litoral, Além-Douro Transmontano, Beira Litoral, Beira Central, Beira Meridional, Centro Litoral, Baixas do Sorraia, Baixo Alentejo Litoral, Alto Alentejo, Baixas do Guadiana e Algarve. A latitude e a topografia (altitude e orientação das vertentes) constituíram as «bases naturais» desta divisão regional, tendo o autor associado a cada região, diferentes características quanto ao clima, à vegetação, ao solo, à distribuição da população e à organização administrativa, correlacionando os vários fenómenos considerados244.
Nesta divisão regional, o Noroeste de Portugal corresponde à região de Além- Douro Litoral, descrita como uma região montanhosa com baixas costeiras, cismontana, adjacente às serras do Marão e do Gerês, as quais formam uma «grande barreira condensadora», dando origem a copiosas chuvas «em cujo litoral sobem a 1200 milímetros por ano (média retificada recentemente no Observatório de Lisboa) e na estiagem não descem de 80 milímetros». Com efeito, a humidade extrema do ar (entre 70 a 100%), a abundância de precipitação (entre 1200 a 2000 milímetros de chuvas anuais; 80 a 200 milímetros de chuvas de Verão) e a temperatura moderada (entre 12 e 15°C, com variações máximas de 38 a 42°C), compunham o quadro climático do Além- Douro Litoral e contribuíam para que esta região fosse rica «em povoação como nenhuma outra parte do País, e como poucas regiões europeias» e «uma das regiões extraordinariamente chuvosas da Europa»245.
244 Gomes, 1878.
Entretanto, em França, o geógrafo anarquista Elisée Reclus (1830-1905) dedica a Portugal o capítulo onze do primeiro tomo da sua Nouvelle Géographie Universelle, publicada em 1876246. Logo a abrir o texto, o autor aponta um conjunto de condições ambientais que no seu entender justificam a individualidade de Portugal em relação a Espanha, dando especial relevância, entre outros, ao clima. Segundo Reclus, o limite natural das chuvas trazidas pelos ventos de oeste coincide com a fronteira: «[…] d’un côté, l’atmosphère humide, les averses fréquentes, la riche végétation forestière; de l’autre, un ciel aride sur une terre desséchée, des roches nues, des plaines sans arbres»247. A abundância de chuvas na fachada ocidental da Península também aumenta acentuadamente a importância dos rios que descem do planalto do interior: «en Espagne, c’étaient de faibles rivières au cours obstrué de pierres; en Portugal, ce sont des fleuves abondants ou même navigables»248. O texto é acompanhado por um mapa com a distribuição das chuvas na Península Ibérica, o qual encerra, como notou Orlando Ribeiro, várias imperfeições, dando azo à construção de «sistemas interpretativos exagerados e nem sempre conformes com a realidade»249.
Mais à frente, Reclus foca-se na metade setentrional do País. Aqui as montanhas da Beira e Entre Douro e Minho recebem anualmente uma quantidade elevada de precipitação, pois estão expostas à influência dos ventos oceânicos, carregados de humidade. As chuvas caem abundantemente nas suas encostas, mas de forma branda. Raramente ocorrem tempestades violentas e súbitas, «comme dans les pays tropicaux»250. É no Inverno e na Primavera que as chuvas são mais frequentes, embora também chova noutras estações do ano. Nenhum mês está isento da ocorrência de chuva. Esta grande humidade do ar, «ce bain de vapeur dans lequel se trouve immergé le Portugal du Nord», tem como consequência um clima com poucas oscilações de temperatura251. Com exceção de alguns «climats exceptionnels» onde influem fatores
246 Antes deste trabalho, Portugal já tinha sido incluído noutra grande tentativa de Geografia Universal.
No Précis de Géographie Universelle, obra em oito volumes, publicada entre 1810 e 1829, dirigida por Conrad Malte-Brun, a descrição de Portugal ocupa as páginas trinta e dois e sessenta e três do último volume. No que diz respeito ao clima de Portugal, o autor apresenta uma síntese do texto escrito alguns anos antes por Adrien Balbi: a mesma estrutura e os mesmos detalhes.
247 Reclus, 1876: 918-919. Tradução livre do autor: «de um lado, a atmosfera húmida, os frequentes
chuveiros, a rica vegetação florestal; do outro, um céu árido sobre uma terra ressequida, pedras nuas, planícies sem árvores».
248 Reclus, 1876: 919. Tradução livre do autor: «em Espanha, os rios são fracos, entupidos de pedras; em
Portugal, os rios são abundantes ou mesmo navegáveis».
249 Ribeiro, 1977: 47.
250 Reclus, 1876: 929. Tradução livre do autor: «como nos países tropicais».
muito concretos relacionados com o relevo, todo o clima setentrional de Portugal é «essentiellement tempéré»252. A humidade extrema do ar, a frequência das chuvas, os rios abundantes e o verde exuberante que reveste as florestas, os prados e os campos conferem ao Norte de Portugal um regime natural mais semelhante «à la zone de l’Europe centrale qu’à celle du monde méditerranéen»253.
Pouco tempo depois, em 1879, o iberista Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1894), na sua História de Portugal, segunda parte do tríptico que inclui a História da Civilização Ibérica (1879) e o Portugal Contemporâneo (1881), contraria a ideia de individualidade geográfica de Portugal defendida por Elisée Reclus, conforme se infere do seguinte excerto: «Quando se observa o retalho da Península, de que a história fez Portugal, separado do corpo geográfico a que pertence, desde logo se vê como a vontade dos homens pôde sobrepujar as tendências da natureza. Os rios e as serranias descem perpendiculares sobre a costa ocidental, prosseguindo uma derrota e provindo de uma origem que se dilatam para muito além das fronteiras, até ao coração do corpo peninsular. As cumeadas das montanhas e os vales extensos mudam de nacionalidade naquele ponto convencional que aos homens aprouve fixar. Não falta porém quem pretenda encontrar, no nosso próprio território, motivos determinantes da constituição primordial da nação: tanto pode a obcecação doutrinária!». A orografia e a geologia (ignora em absoluto o clima) assumem o papel de fio condutor na argumentação do historiador português, visto que é sobretudo a partir deles que, do ponto de vista geográfico, legitima a unidade ibérica254.
Contudo, se nega a existência de limites naturais na definição das fronteiras nacionais, não o faz em relação às antigas e tradicionais províncias portuguesas, que prefere em detrimento dos distritos: «As províncias formaram-se historicamente em obediência às condições naturais; os atuais distritos foram criados administrativamente de um modo até certo ponto artificial. Umas provinham dos caracteres próprios da região, e a administração limitara-se a reconhecer factos naturais; outros, determinados por motivos abstratos, nascera de princípios administrativos e estatísticos (área, quantidade de população, etc.) fazendo-os discordar o menos possível dos limites naturais, geográficos e climatológicos»255.
252 Reclus, 1876: 929-930. Tradução livre do autor: «climas excecionais»; «essencialmente temperado». 253 Reclus, 1876: 926-947. Tradução livre do autor: «à Europa Central do que ao mundo mediterrâneo». 254 Martins, 1882: 23-32.
Na sua divisão regional do País, Oliveira Martins divide o território de Além- Douro em duas regiões «separadas pelo Tâmega»: uma cismontana, outra trasmontana. Aquém do Tâmega, as serras do Gerês e do Marão constituem um obstáculo às brisas do mar, que condensam e produzem chuvas abundantes. Os valores numéricos citados são os mesmos de Bernardino de Barros Gomes, mas desta vez vêm acompanhados de várias ideias próprias e generalizações sem base científica, que o autor soube adornar:
«Habita essa região pingue uma população abundante, ativa, mas sem distinção de carácter, nem elevação de espírito: consequência necessária da humidade e da fertilidade. Falta essa espécie de tonificação própria do ar seco e dos largos horizontes recortados num céu luminoso e puro. O Minho é uma Flandres, não uma Ática. As chuvas precipitam-se abundantes (1200 a 2000 mil anuais, e no estio 80 a 200) sobre um chão lavrado de caudais; a humidade (70 a 100%) torna flácidos os temperamentos e entorpece a vivacidade intelectual, que nem um frio demasiado irrita, nem um calor excessivo faz fermentar, á maneira do que sucede nas zonas genesíacas dos trópicos. Temperado o clima (12 a 15°C), sem excessivos afastamentos hibernais, a população satisfeita, feliz, e bem nutrida de vegetais e de ar húmido, oferece a imagem de um exército de laboriosas formigas sem coisa alguma do alado e brilhante de um enxame dourado de abelhas» (Martins, 1882: 34-37)
No mesmo ano, João Carlos de Brito Capelo (1831-1901), então diretor do Observatório Meteorológico Infante D. Luís, publica um Résumé météorologique du Portugal (1879), onde reúne e analisa, ao longo de dezoito páginas, os valores médios dos principais elementos meteorológicos observados durante nove anos (1864-1872) em cinco estações, três no litoral (Porto, Lisboa e Lagos) e duas no interior do País (Guarda e Campo Maior)256. As três primeiras «peuvent donner une idée générale du climat du littoral»; «Guarda peut donner une idée générale du climat des points élevés, froids et humides, du nord du Portugal; Campo Maior peut donner l’idée des point situés dans les plateaux élevés de l’Alentejo, au centre et au Sud du Portugal»257. Com base nestes dados, Brito Capelo traça o perfil climático de Portugal, embora reconheça que o seu resumo meteorológico, devido ao reduzido volume de informação disponível naquele momento, devia ser visto apenas como um contributo inicial para o estudo da influência do mar e das montanhas sobre os principais elementos meteorológicos de Portugal258. O texto foi escrito em francês provavelmente para facilitar a sua divulgação internacional.
256 Também em 1879, Brito Capelo deu à estampa mais alguns trabalhos de dimensão reduzida sobre a
pressão atmosférica (Capelo, 1879b) e a precipitação (Capelo, 1879c) em Lisboa. Neste último caso recorreu aos dados coligidos por Marino Miguel Franzini.
257 Capelo, 1879a: 3. Tradução livre do autor: «podem dar uma ideia geral do clima costeiro»; «Guarda
pode dar uma ideia geral do clima dos pontos altos, frios e húmidos do Norte de Portugal; Campo Maior pode dar uma ideia dos pontos localizados nos altos planaltos do Alentejo, Centro e Sul de Portugal».
Com base nos referidos valores, João Carlos de Brito Capelo identifica alguns dos principais contrastes térmicos e pluviométricos de Portugal. Constata que a temperatura média anual diminui progressivamente de sul para norte nas três estações do litoral. Na Guarda, a temperatura média anual é mais baixa do que nas restantes estações, particularmente nos meses mais frios, denotando a sua localização «très-élevée et dans la latitude de 40º32’ nord»259. Em Campo Maior, a temperatura é significativamente mais elevada nos meses de Verão, «et vice-versa, dans les six mois restants, les températures sont inférieures à celles des mois correspondants du littoral»; «pendant l’été c’est en juin, juillet et août que la température s’élève considérablement», «la presque absence des nuages, le manque absolu de pluie, la distance à la mer ou á quelque fleuve sont des causes qui expliquent cette grande élévation de température»260. Em todas as localidades observadas, Janeiro é tipicamente o mês mais frio e Agosto o mês mais quente, «ou plus exactement, l’époque du maximum de température est généralement au commencement d’août et le plus grand froid au commencement de janvier»261. A diferença entre a temperatura média do mês mais quente e do mês mais frio é bastante elevada na Guarda (16ºC) e em Campo Maior (˃17ºC), enquanto nas três estações do litoral a variação não excede os 12ºC. Os valores extremos da temperatura são também mais elevados na Guarda e em Campo Maior em comparação com o litoral. Nas três estações costeiras, os excessos de calor no Verão são mais comuns em direção ao sul e no Outono as variações extremas da temperatura aumentam em direção ao norte. A precipitação total anual é muito mais elevada no Norte (Porto) do que no Sul, «la pluie annuelle à Porto est double de celle de Lisbonne et triple de celle de Lagos»262; porém, o número de dias com chuva no Porto é quase o mesmo que em Lisboa. A direção do vento é bastante variável nas cinco estações meteorológicas, embora sopre geralmente do norte ao noroeste e do sul ao sudoeste. Os nevoeiros e neblinas são comuns na metade setentrional do País e diminuem em direção a sul até se tornarem raros no Algarve. As trovoadas ocorrem sobretudo no final da Primavera (Maio e
259 Capelo, 1879a: 6. Tradução livre do autor: «a uma altitude elevada e na latitude de 40º32’N».
260 Capelo, 1879a: 6-7. Tradução livre do autor: «e vice-versa, nos restantes seis meses, as temperaturas
são inferiores às registadas no litoral»; «durante o Verão é em Junho, Julho e Agosto que a temperatura sobe consideravelmente»; «a quase ausência de nuvens, a absoluta falta de chuva, a distância para o mar ou para algum rio são as causas que explicam este grande aumento da temperatura».
261 Capelo, 1879a: 6. Tradução livre do autor: «ou mais exatamente, a época de maior calor é geralmente
no início de Agosto e o maior frio no início de Janeiro».
262 Capelo, 1879a: 9. Tradução livre do autor: «a precipitação anual no Porto é o dobro da de Lisboa e o
Junho) e no princípio do Outono (Setembro e Outubro), escasseando durante os meses de Inverno (sobretudo em Fevereiro) e no Verão (sobretudo em Julho e Agosto). A queda de granizo é mais frequente no mês de Março em todas as estações meteorológicas observadas263.
Quase a fechar o século XIX, o médico e higienista Ricardo de Almeida Jorge (1858-1939) aproveitou os resultados das observações feitas no posto meteorológico da Escola Médico-Cirúrgica do Porto para a excelente introdução climática ao seu estudo, Demografia e Higiene da Cidade do Porto, publicado em 1899. Neste trabalho, que correlaciona o clima, a população e a mortalidade da cidade, o autor apresenta um «resumo meteorológico» relativo ao ano de 1893, com os valores numéricos mensais respeitantes à pressão atmosférica, temperatura (máxima, mínima, média e amplitude térmica), humidade, precipitação (total e número de dias com chuva), vento (direção e velocidade) e nebulosidade. Reúne ainda as temperaturas médias anuais registadas no dito posto meteorológico entre 1874 e 1893 e as temperaturas médias mensais relativas ao decénio 1884-1893. O texto é acompanhado por vários quadros e gráficos que ajudam a sistematizar a informação abundante264.
Após uma análise exaustiva de todos estes parâmetros, Ricardo Jorge inclui o clima do Porto «entre os climas marítimos, do grupo dos temperados mornos». A influência do mar e da corrente quente do Golfo ajudavam a suavizar as temperaturas. Os meses de Inverno «são relativamente temperados». No estio «os calores não são insuportáveis». No entanto, a cidade não estava isenta de «saltos bruscos do termómetro», «é vulgar ver suceder, dentro de alguns dias, acréscimos e decréscimos de uns poucos de graus», principalmente na Primavera. Este «clima variável a curtos intervalos» tinha impacto na saúde das populações, assim como as frequentes neblinas e os nevoeiros, «que teimam em velar a cidade tantas vezes até alta manhã, repetindo