CAPÍTULO 5 – ANÁLISE E APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
5.1 MECANISMOS DE DISCIPLINA
5.1.3 Gerenciamento Formal e Informal
O acompanhamento dos trabalhos dos consultores é feito periodicamente pelo gestor através de controles formais (relatórios, avaliação de desempenho). Nota-se que os relatórios e formulários destacam a necessidade de registros permanentes, conforme normas pré- estabelecidas pelo poder disciplinar (FOUCAULT, 1987).
Estes registros foram identificados nos diversos documentos apresentados pela empresa. No documento “Treinamento de Colaboradores”, fica evidente que o “O funcionário será considerado apto se atender os requisitos de qualificação do cargo [...]
sendo avaliado parcialmente [...]. Serão avaliados os treinamentos que terão impacto no desempenho de atividades [...] através da Avaliação de Desempenho.”
No “Levantamento de Necessidades de Treinamento”, “Os gestores dos departamentos são responsáveis por monitorar o atendimento das competências requeridas para o cargo [...]”.
Ao término do treinamento, existe o formulário padronizado “Avaliação do Treinamento”, onde o funcionário é orientado a preencher e dar a sua opinião “Agradecemos a sua presença neste evento e solicitamos a gentileza de preencher este formulário, pois sua opinião é essencial para o aperfeiçoamento do nosso trabalho”. Entretanto, nota-se que no rodapé do formulário existe uma observação: “A opção ‘não desejo avaliar’ não será considerada nos resultados dos indicadores.”.
Apesar de iniciar o discurso envolvendo o funcionário com o apelo de que sua participação é fundamental para que o processo concretize-se, se choca com uma mensagem subliminar de poder, onde a não participação pode prejudicar os resultados dos indicadores.
Ficou evidenciado no relato de um consultor que o não preenchimento do formulário pode causar problemas para ele:
“Somos convocados e depois do treinamento, nós preenchemos uma avaliação [pausa], daí nós seguimos direitinho a norma para não termos complicações futuras.”
A submissão do indivíduo às normas preestabelecidas, segundo Foucault (1987), são um mecanismo disciplinar, pois, além de submeter, torna o indivíduo disciplinado e obediente. A avaliação do treinamento produz um discurso de participação e envolvimento, porém, determina uma normalidade que impõe determinados comportamentos.
O formulário “Avaliação da Eficácia do Treinamento” destaca a quantidade de aprendizagem e aplicabilidade do treinamento na prática das atividades, avaliação de procedimento e conduta por parte do gestor. Nota-se que o formulário tem a finalidade de medir quantitativamente a eficácia desta prática. Entretanto, associa-se aos mecanismos de regulação da relação da organização com seus funcionários, pois não exclui o indivíduo, mas
procura conduzir a equipe de consultores por um tipo de procedimento, que regula diferentes tipos de condutas e depois age sobre as avaliações de desempenho que não atingem o esperado pelo gestor (ALCADIPANI, 2005; TONELLI e ALCADIPANI, 2004).
“[...] preenchemos um formulário depois do treinamento para eles saberem qual a nossa opinião de todo o processo [...]”
“Então, [pausa] logo que termina o treinamento, nós preenchemos o formulário de avaliação do treinamento, e lá anotamos diversas opiniões a respeito do andamento das informações recebidas pelo instrutor.”
“[...] e no final de cada período, o gestor preenche um relatório para mostrar a nossa eficiência no atendimento ao cliente.”
“Sei que existe a avaliação de desempenho que avalia o nosso trabalho, e depois o gestor comenta sobre o resultado individualmente.”
Por fim, a “Avaliação de Desempenho” apresenta o discurso do desenvolvimento profissional, mas sugere que o indivíduo se auto-desenvolva. Além disso, propõe que ele reflita sobre si próprio:
“Desenvolvimento: É sobretudo auto-desenvolvimento - querer e buscar as melhores alternativas e [...]”.
O texto destaca que a decisão sobre a direção certa é dele, porém, o contexto mostra o contrário, que é a empresa quem traça as condutas e aponta para a direção que ele deve seguir “[...] disciplinar esforços na direção certa.”. Além desses controles formais, o gestor observa o trabalho dos consultores da “sua” sala de trabalho, um local estratégico e de visão abrangente.
Outro fator que contribui para a obtenção de informações sobre o desempenho dos consultores é o sistema informatizado “on line”. Na opinião do gestor da consultoria, o processo de informação apresenta-se como um dos melhores instrumentos utilizados no
processo de gerenciamento, caracterizando-se como um procedimento que consegue mostrar o status das chamadas abertas pelos clientes, e respectivos atendimentos, diariamente.
Esse controle gerencial causa a centralização do poder e acarreta a fragilização das relações profissionais no departamento. Isso se caracteriza como um instrumento de vigilância constante sobre o desempenho dos consultores internos (FOUCAULT, 1987; ALCADIPANI, 2005; FONSECA, 1995), pois o gestor além de observar in loco o movimento das pessoas, pode também contar com mais um aliado, a tecnologia, para este fim. Cabe ressaltar que os consultores atestam e contestam este controle, sendo que em alguns relatos, a pressão desta vigilância fica evidente, já outros dizem estar “acostumados” com esta presença diária.
“Embora nós tenhamos todos os indicadores de controle interno do trabalho, eu me sinto tranquila de estar fazendo o meu trabalho, e com certeza temos de seguir os procedimentos e processos, mas assim né, não me sinto assim [pausa] controlada ou [pausa] pressionada não [risos]”.
“Olha [pausa] na minha percepção eu acho até bom sabe! Poderia ter mais controles, isso não me afeta, porque eu faço aquilo que fui contratado para fazer, mostrar o meu conhecimento do sistema para o cliente.”
“A nossa meta é ficar atentos [...] existe o sistema onde o gestor acompanha os atendimentos. [...] Temos que ficar alertas com o farol de espera dos clientes, e o chamado que o cliente abre é o termômetro da nossa eficiência. Se o farol fica vermelho, aí é que a gente tem que correr para atender o mais rápido possível.”
“Não existe uma pressão, já estou acostumado com isso, [pausa], mas nós temos que ficar atentos ao farol. A exigência está no cumprimento das nossas atividades, e creio que está bom [risos]”.
“O gestor observa a gente da sala e pelo sistema também. Sei lá, é meio estranho esta vigilância constante, mas temos que conviver com isto assim mesmo.”
O gestor confirma a necessidade de haver controles diários do atendimento ao cliente, pois, da mesma forma, a ouvidoria da empresa também controla ambos. Ele relata que também é avaliado pela alta administração quanto à eficácia do departamento:
“Fazemos o controle diário dos atendimentos. Não somente de cada ligação, mas também da performance do departamento no dia-a-dia. É importante acompanhar este trabalho porque nós somos também monitorados pelas ligações de clientes para a ouvidoria”
“Aqui temos que relatar diariamente e por escrito, o desempenho do departamento.”