5. DISCUSSÃO
5.4. Germinabilidade das sementes de C hololeuca
A embaúba-prateada é uma planta pioneira perenifólia de rápido crescimento e heliófita, comumente encontrada tanto em florestas primárias quanto em formações secundárias (Lorenzi, 2002). Suas sementes apresentam fotoblastismo positivo e a alternância de temperatura também é um processo chave para desencadear a germinação (Godoi & Takaki, 2004).
A germinação in vitro das sementes desta embaúba recuperadas na chuva de sementes (3 das 35 sementes) representa uma proporção de germinação menor do que o observado para as sementes do estoque (sementes que não foram ofertadas), com 8,5% contra 32% de germinação do estoque. Todavia, além de ser um n amostral muito pequeno (os testes de germinação com as sementes do estoque eram feitos com 100 sementes), após as sementes de C. hololeuca recuperadas passarem pelo trato digestório dos frugívoros, estas permaneceram ainda por um tempo dentro dos coletores, uma vez que a coleta só era realizada no final de cada mês. Deste modo, as sementes ficaram sujeitas a vários outros fatores como variações nas condições climáticas e ataque de patógenos, as quais as sementes do estoque não foram submetidas, portanto não seria correto utilizar a proporção de germinação das sementes recuperadas nos coletores como comparativo às sementes do estoque. No entanto, embora as sementes recuperadas e esses testes de germinação não sirvam para aferir o efeito do trato digestório dos animais sobre a germinabilidade, vale ressaltar que não foram encontradas sementes C. hololeuca danificadas nos coletores e algumas delas germinaram, o que pelo menos dá indícios de que esses frugívoros atuaram como dispersores legítimos.
Quanto ao experimento de germinação in situ, apesar de a única germinação das 500 sementes plantadas ter ocorrido na área mais aberta e de estágio sucessional menos avançado, com esses dados não é possível assegurar que essa seria a única área mais propícia para a germinação. Contudo, os requisitos ecológicos para a germinação das sementes dessa espécie são bem estudados, as quais demandam variação na incidência luminosa, na temperatura ao longo do dia e pouco toleram deposição de serapilheira sobre elas (Godoi & Takaki, 2004; Scarpa & Valio, 2008), portanto seria esperado que a maioria das germinações ocorresse na área de vegetação mais aberta.
A ausência de germinação de praticamente todas as sementes em um ano de acompanhamento do experimento pode ter ocorrido em função de diversos fatores, tais como ataques por patógenos, predação por roedores, rápido recobrimento das sementes pela serapilheira (o que acabaria inibindo a germinação), a própria dormência das sementes desta espécie, que segundo o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF) pode demorar até 12 meses em condições naturais, ou ainda um tipo de micro-habitat inóspito ao estabelecimento desta espécie. Por outro lado, mesmo que esses fatores imponham limitações à germinação das sementes de C. hololeuca na área de estudo, a principal barreira que a técnica da dispersão induzida se propõe a superar não é a de germinação e nem de estabelecimento, mas sim de compensar ao longo do tempo a limitação de dispersão de sementes, um fenômeno de ocorrência comum em áreas degradadas ou em restauração (Duncan & Chapman, 2002;Holl, 2012). Entretanto, como demonstrado por Reid e Holl (2013), o aporte de sementes em um determinado local não necessariamente garante o estabelecimento destas, pois muitas vezes as condições ambientais não são favoráveis à germinação das sementes ou ao recrutamento das plântulas. Sendo assim, para que a técnica DIS tenha alguma eficácia em enriquecer a flora, ou seja, que as sementes dispersas germinem e as plântulas recrutem, é preciso que a aplicação da técnica seja precedida de um conhecimento prévio das condições ambientais da área-alvo de modo que seja possível escolher uma gama de espécies vegetais a serem dispersas cujas sementes e plântulas se adequem bem às tais condições.
Quanto ao efeito da passagem pelo trato digestório dos saguis sobre a germinabilidade das sementes de embaúba, embora a porcentagem média final de germinação não tenha diferido significativamente entre os tratamentos (teste e controle), as sementes que passaram pelo trato digestório dos saguis apresentaram valores de IVG significativamente maiores do que as sementes controle, ou seja, a taxa de germinação do grupo teste foi maior do que as sementes controle e, portanto, os saguis demonstraram ter um efeito positivo sobre a germinação de sementes de C. hololeuca. O aumento da germinabilidade de sementes após a passagem pelo trato digestório dos animais é um fenômeno que já foi verificado em várias espécies de plantas e através de diferentes animais (e.g., primatas –Valenta & Fedigan, 2009;Fuzessy et al., 2016/ aves –Traveset, Riera & Mas, 2001;Reid & Armesto, 2011/ morcegos – Bocchesi, de Oliveira & Vicente, 2007;Heer, Albrecth & Kalko, 2010).
O aumento da porcentagem final e/ou da taxa de germinação ocorre devido a dois processos: o primeiro é a remoção de tecidos carnosos que envolvem as sementes (polpa, arilo) após o consumo dos frutos, pois esses tecidos podem reduzir o sucesso da germinação, seja por comprometerem o microambiente da semente (pressão osmótica, sensibilidade à luminosidade, ataque por fungos e patógenos) ou por conterem compostos que inibem a germinação; o segundo é a escarificação mecânica ou química que a passagem pelo trato digestório dos animais promove sobre o tegumento das sementes (Traveset, 1998; Samuels & Levey, 2005). Este último foi possivelmente o processo pelo qual o trato digestório dos saguis proporcionou um efeito positivo na taxa de germinação das sementes de C. hololeuca, uma vez que a comparação foi feita com a germinação de sementes do estoque, que já estavam livres da polpa dos frutos da embaúba.