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GERSON DA CUNHA A 16 de setembro de 1878, no segundo dia dedicado aos Estudos

Indianos no Congresso Internacional de Orientalistas, em Florença, Gerson da Cunha (Goa, 1844 – Bombaim, 1900) proferiu a palestra intitulada “Subsídios para a história dos Estudos Orientais entre os Portugueses”. Gerson da Cunha foi o único “orientalista” asiático em Florença e, nessa qualidade, veio legitimar um evento científico que procurou envolver especialistas indianos ou residentes na Índia. As atas do congresso incluem uma versão aumentada e revista do texto lido no congresso, mas não tão extensa como o original submetido. Este ensaio, que a seguir se publica em tradução inédita de inglês para português, fazia parte de um projeto maior, o de escrever a história dos Portugueses na Índia, inscrevendo-a numa narrativa, mais alar- gada, a da própria história da Índia. Esse projeto, porém, nunca se concretizou. Talvez devido à sua morte prematura, com 56 anos, em 1900, a sua vasta obra permaneceu materializada em inúmeros artigos e alguns livros sobre regiões específicas da Índia, sobretudo aquelas onde a presença portuguesa fora mais intensa, sem nunca se consubs- tanciar nessa obra total que Gerson da Cunha ambicionava realizar, tal como deixou escrito em notas de rodapé ou em correspondência manuscrita. A sua história acabou por ser uma história fragmentada da presença portuguesa na Ásia.

Por um lado, goês, ou seja, de nacionalidade portuguesa, brâmane católico, Gerson da Cunha era parte integrante da elite goesa; por outro, há que considerar a sua formação médica, tanto em Bombaim (1862) como na Grã-Bretanha (Edimburgo e Londres, 1867). Ao regressar da Europa, estabeleceu-se como médico em Bombaim e foi nesta cidade central da Índia britânica que desenvolveu os seus estudos históricos e a sua prática colecionista, especialmente de numismática. Portugal esteve sempre de fora do seu circuito europeu, ainda que fosse sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa e do Grémio Lusitano em Bombaim e tivesse publicado a sua primeira obra em português, Introdução ao Estudo da Ciência da Vida (Bombaim, 1868). A partir daí a sua obra foi toda publicada em inglês, com algumas exceções, pontuais, em francês.

José Gerson da Cunha (1844-1900)

Retrato fotográfico, em formato de carte-

-de-visite, realizado em 1878 no estúdio de

Lorenzo Suscipj (1802-1885), em Roma. O retrato foi enviado por Gerson da Cunha a Emilia Peruzzi, mulher do presidente da Câmara de Florença, a 19 de novembro de 1878. Fonte: BNCF, Manoscritti, Carteggio Emilia Peruzzi, correspondência de Gerson da Cunha para Emilia Peruzzi, Roma, Hotel Minerva, cx. 90, n.º 9. Imagem reproduzida a partir de: Filipa Lowndes Vicente. 2009. Outros Orientalismos: a Índia entre

Florença e Bombaim, 1860-1900. Lisboa:

127 A HISTÓRIA DA PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NOS CONGRESSOS INTERNACIONAIS DE ORIENTALISTAS: TRAJETOS E REFLEXÕES Marta Pacheco Pinto Goa e outras regiões colonizadas por Portugal – Bombaim, Chaul, Baçaim,

Ceilão (Sri Lanka) – foram um objeto privilegiado da sua erudição, mas a língua em que escrevia e as publicações onde expunha o seu trabalho – em particular os periódicos Indian Antiquary e The Journal of the Bombay Branch of the Royal Asiatic Society – revelam de que modo construía o seu conhecimento. Assumiu o papel de intermediário entre as historiografias portuguesa e britânica, sobre- tudo nas suas relações com a Índia, confrontando-as e cruzando-as. Se isto é óbvio nos seus escritos, cujas referências bibliográficas são prova desta erudição cosmopolita, também o é no papel que assumiu enquanto membro do Bombay Branch of the Royal Asiatic Society. Veio a ser não apenas seu vice-presidente, mas também da Anthropological Society de Bombaim, e, sobretudo, foi o representante informal de todos os assuntos relacionados com o passado e o presente português na Índia, da história à literatura, à língua, à numismática, medicina ou arqueologia.

No ensaio, que a seguir se apresenta, Gerson da Cunha questiona a cronologia vigente de um orientalismo que estava, na altura, a ser inaugurado a partir das iniciativas britânicas em Calcutá de finais do século XVIII. Contesta-a através do exemplo do padre Lucena que, na sua Vida de S. Francisco Xavier (1600), já tinha enumerado as obras clássicas hindus, muito antes de William Jones (1746- -1794) ou Henry Thomas Colebrooke (1765-1837) as terem divulgado na Europa. Também os Comentários do Grande Afonso de Albuquerque (1557) mencionavam já uma língua na Índia equivalente ao latim – o sânscrito –, e muitos aspetos relativos a etnologia, antiguidades, história natural ou comércio indianos, que alguns autores britânicos de finais de Setecentos apresentavam como novidades, tinham já sido descritos pelos antigos cronistas portugueses, de João de Barros a Diogo do Couto. Não obstante a quantidade de obras que se escreveram nos séculos XVI e XVII, tinham caído em esquecimento, segundo Gerson da Cunha, devido a três razões principais. Por causa da língua em que foram escritas, um português pouco falado e lido pelos eruditos dos séculos seguintes; porque o interesse pelas línguas orientais tivera uma motivação religiosa, sendo por isso indissociável da missão de conversão ao catolicismo. E, finalmente, por culpa da própria atitude portuguesa em relação ao seu passado.

Só durante a segunda metade do século XIX é que se começaram a imprimir, ou reimprimir, muitos dos manuscritos sobre a presença portuguesa na Índia escritos três séculos antes: por exemplo, as Lendas da Índia de Gaspar Correia, o Roteiro da Viagem de Vasco da Gama ou os Roteiros de D. João de Castro. Com o

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A PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NOS CONGRESSOS INTERNACIONAIS DE ORIENTALISTAS (1873-1973). TEXTOS E CONTEXTOS 128

declínio da presença religiosa veio também a extinção do orientalismo português, com o panorama contemporâneo a contrastar com um passado rico em Estudos Orientais. Com efeito, Gerson da Cunha começa o seu ensaio com a constatação de uma escassa contribuição portuguesa para o orientalismo oitocentista, ao mesmo tempo que atribui aos Portugueses, pelos seus estudos das línguas orientais nos séculos XVI e XVII, um papel fundador na genealogia de Estudos Orientais. Genealogia esta da qual ele próprio se considerava um herdeiro.

A par do profundo conhecimento da bibliografia portuguesa sobre a Índia desde o século XVI, as suas referências bibliográficas demonstram como acompa- nhou a crescente consciência histórica feita a partir de Goa. Quer de trabalhos de goeses a escrever em Goa – como Felipe Nery Xavier, Miguel Vicente de Abreu e J.C. Barreto Miranda – quer de portugueses residentes em Goa – como Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara. Esta consciência histórica goesa materializou-se sobretudo na publicação de coletâneas documentais, na criação de periódicos, na constituição de bibliotecas, museus e arquivos, ou em projetos de escavações arqueológicas. Também as referências a manuscritos pertencentes à Biblioteca do Vaticano, em especial de missionários portugueses, ou à Biblioteca Vittorio Emanuele de Roma mostram como Gerson da Cunha aproveitara a estadia em Roma nos últimos meses de 1878, após o congresso orientalista de Florença e antes de regressar à Índia, para fazer investigação histórica.

Ao refletir sobre a política religiosa dos Portugueses na Índia, faz a apologia do respeito pela religião dos outros e inevitavelmente compara as diferentes atitudes religiosas de dois colonizadores da Índia – os portugueses do passado e os britânicos do presente. Neste confronto deixa transparecer a sua opinião crítica acerca da violência lusa praticada em nome da religião, em contraste com aquilo que identifica como sendo a tolerância religiosa das políticas britânicas de colonização.

A história da imprensa em Goa, onde desde cedo se utilizaram caracteres tipográficos indianos, foi outro dos seus objetos de estudo. A duração da imprensa de Goa, de cerca de cem anos, teria correspondido à época mais próspera do governo português no Oriente. A raridade das obras ali publicadas nos séculos XVI e XVII justifica, no seu ensaio, uma análise aprofundada, enumerando e caracterizando cada uma delas e dando sentido a um discurso oitocentista de valorização do documento histórico, autêntico e visível (algumas das obras publicadas pela Imprensa de Goa estiveram expostas na secção portuguesa da Exposition Universelle de Paris de 1867, onde o próprio Gerson da Cunha as vira).

129 A HISTÓRIA DA PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NOS CONGRESSOS INTERNACIONAIS DE ORIENTALISTAS: TRAJETOS E REFLEXÕES Marta Pacheco Pinto Mostra-se, ainda, atento às traduções de línguas europeias para línguas locais

e aos modos como, por vezes, os textos religiosos cristãos eram adaptados às culturas religiosas locais, a fim de facilitar o reconhecimento da religião imposta e a almejada conversão.

À obra Colóquio dos Simples, e Drogas e Cousas Medicinais da Índia de Garcia da Orta – o primeiro estudo impresso sobre história natural indiana – Gerson da Cunha dedicou especial atenção em vários artigos. A propósito das descrições de produtos, drogas, gemas ou especiarias que tornaram conhecido o livro de Orta, Gerson da Cunha empreende uma análise histórica em que reflete sobre as motivações mais gerais dos denominados “descobrimentos portugueses”. Nesta reflexão afasta-se das premissas através das quais procurara provar o pio- neirismo dos estudos orientalistas portugueses. Opta, assim, pela tese segundo a qual aquilo que motivara os Portugueses fora o desejo de controlar o monopólio de comércio com o Oriente que estava nas mãos de Venezianos e Genoveses, e não o de conquistar ou o de converter. Depois de uma longa digressão sobre os primeiros tempos da presença portuguesa na região, sobretudo das suas relações comerciais com a Índia, mas também com a China e o Japão, Gerson da Cunha regressa à história natural indiana tratada por Garcia da Orta.

No ano em que saiu em Florença este seu trabalho (1881), Gerson da Cunha publicava, em Bombaim, The Konkani Language and Literature, em que revelava a sua vertente mais “orientalista” no sentido linguístico e filológico do termo. Ao afirmar que os eclesiásticos portugueses já conheciam o concani no século XVI, mais uma vez sublinhou o papel precursor do orientalismo português que ele considerava não ser reconhecido na historiografia recente dominada por uma perspetiva britânica.

Um ano depois da sua morte, em Bombaim, era publicado o seu ensaio “The «Ráma-Tankas» or the Coronation Medals of the Kings of Vijáyanágara”, que levou ao Congresso dos Orientalistas de 1899, em Roma. Nele reúne vários dos seus interesses e vocações, da história à numismática e à antropologia, tendo feito acompanhar a sua performance oral no congresso da exibição de quatro espécimes de moedas da sua coleção pessoal.

Apesar da sua extensa obra sobre o império português na Índia em vários momentos históricos, o seu nome está ausente tanto do cânone historiográfico português como da historiografia britânica. Por um lado, o facto de ser goês de nacionalidade portuguesa (nem britânico, nem indiano), mas, ao contrário da maior parte dos intelectuais goeses seus contemporâneos, escrever em inglês e

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não em português, e viver na Índia britânica e não na Índia portuguesa, acabou por contribuir para essa sua invisibilidade. O nacionalismo historiográfico por- tuguês dos séculos XIX e XX tendeu a privilegiar as relações entre metrópole e colónias numa perspetiva onde personagens como Gerson da Cunha, a viver e escrever noutro lugar e a dar voz a um olhar crítico do passado católico e portu- guês na Índia, se tornaram mais impercetíveis. Igualmente, o facto de publicar nos principais instrumentos de saber criados pelo Império britânico na Índia, ao mesmo tempo que questionava uma cronologia de um orientalismo “inventado” pelos Britânicos, também poderá ajudar a explicar a sua ausência da narrativa histórica sobre a Índia colonial britânica, de igual modo nacionalista, e centrada na presença britânica na Índia. Por outro lado, é esta mesma identidade múltipla, este seu papel de intermediário entre diferentes mundos, que lhe permite escrever a partir de um ponto de vista singular. A sua história da Índia é indo-cêntrica, mas feita a partir de várias Índias.

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