4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.2 Capacidades Políticas
4.2.1 Gestão compartilhada
O Cadastro Único para Programas Sociais se dá, por meio de uma gestão compartilhada e descentralizada, entre Secretaria Nacional de Renda de Cidadania - Senarc, vinculada ao Ministério da Cidadania, Caixa Econômica Federal, estados e municípios. Verifica-se que os municípios exercem uma função muito importante dentro da gestão, que é identificar as famílias pobres, entrevistá-las, registrá-las e atualizar os dados em formulários específicos (sistema on-line), identificando sempre a integridade de tais dados. Esse compartilhamento de responsabilidades é pactuado, por meio de uma adesão, a qual o município assina e assume tais responsabilidades, devendo o governo federal, pelo do Ministério da Cidadania, disponibilizar recursos financeiros para que atinjam os objetivos do Cadastro Único (BRASIL, 2007).
Nesta perspectiva, o governo federal busca remunerar os municípios, para que possam fortalecer suas capacidades institucionais e administrativas e sejam capazes de operacionalizar o Cadastro Único. Após algumas tentativas de normatização dessa garantia de recursos, o governo federal criou, em 2006, o Índice de Gestão Descentralizada - IGD - cujo objetivo é promover transferência obrigatória de recursos financeiros aos municípios.
Na visão de dois entrevistados, o IGD é o único recurso exclusivo a ser aplicado na gestão do Cadastro Único, possui destinações específicas, não podendo ser utilizado para cobrir despesas maiores, como, por exemplo, pagamento de pessoal permanente e manutenção geral das unidades administrativas em que funciona a gestão. O entrevistado 6 relata que o governo federal, por meio do Fundo Nacional de Assistência Social, repassa outros tipos de recursos financeiros aos estados, que encaminham aos fundos municipais de assistência social. Esses recursos são destinados a cobrir esses gastos acima mencionados. Na percepção da entrevistada 1, os recursos são pequenos, mas, mesmo assim, o município tem conseguido arcar com os gastos. Nota-se, na fala dos entrevistados 1, 6 e 8, que os gastos com pagamento de pessoal são realizados por esse financiamento advindo dos governos federal e estadual.
[...] acredito que não são suficientes. [...] nossa despesa com pessoal é muito grande. E os valores dos recursos são bem pequenos. A gente faz mágica
para dar conta. [...] hoje o recurso específico para o Cadastro Único é somente o IGD (Entrevistada 1).
[...] os recursos para pagamento do pessoal que trabalha na gestão do Cadastro e dos outros serviços da assistência social, e também o custeio das unidades administrativas advém do governo federal para o estado e depois para o Fundo Municipal de Assistência Social [...] O IGD é o único recurso que pode ser aplicado de forma específica na gestão do Cadastro Único e do Programa Bolsa Família, mas tem suas restrições, por exemplo, não pode ser utilizado para pagamento de pessoal, somente para pessoal terceirizado, quando há uma demanda específica (Entrevistado 6).
[...] a maioria dos recursos da assistência social, tem sido gasto com pagamento de recursos humanos (Entrevistado 8).
Os relatos indicam uma importante dimensão das capacidades políticas, a qual Gomide e Pires (2014) denominam como político-representativas. Segundo os autores, essa dimensão consiste em dotar os municípios de recursos financeiros, para implementar os objetivos do Estado (GOMIDE; PIRES, 2014), neste caso, implementar o Cadastro Único. Como observado, a forma de implementação se dá por meio de financiamentos públicos. O Cadastro Único está inserido no âmbito do SUAS - Sistema Único de Assistência Social - que promove repasses continuados e transferências regulares gerenciadas pelo Fundo Nacional de Assistência Social - FNAS para os Fundos de Assistência Social dos estados, Distrito Federal e dos municípios (COLIN; PEREIRA; GONELI, 2013).
Conclui-se que pelo SUAS o governo federal viabiliza a gestão do Cadastro Único no âmbito municipal. A partir dos relatos dos entrevistados, percebe-se que a despesa que mais absorve esses recursos financeiros, no âmbito do Cadastro Único, consiste nos gastos com pessoal. Observa-se então a presença da dimensão político-representativa, definida por Gomide e Pires (2014), os quais afirmam que é essencial que os municípios invistam em mão de obra para que o Estado chegue de forma efetiva aos cidadãos.
Vale ressaltar que o recurso advindo do IGD pode também ser considerado como uma vertente dessa dimensão político-representativa das capacidades políticas, pois é a forma que o governo federal buscou, para normatizar a remuneração dos municípios, a fim de que possam fortalecer os outros aspectos da gestão, como as capacidades técnicas administrativas.
Os relatos de dois entrevistados mostram que os governos federais e estaduais não têm cumprido suas obrigações dentro das perspectivas do SUAS, ou seja, não têm repassado ou têm enviado prestações menores dos recursos financeiros ao fundo municipal de assistência social. Na percepção desses três entrevistados, isso pode atrapalhar o funcionamento da
gestão do Cadastro Único e demais serviços da assistência social. Porém, segundo a entrevistada 1, o município em estudo tem focado em atender os serviços que já prestam, sem pensar, neste momento, em promover qualquer tipo de ampliação de serviços. A entrevistada destacou que as gestões municipais têm conseguido realizar seus atendimentos, sem nenhum tipo de diminuição dos serviços prestados aos usuários. Houve apenas uma necessidade de realizar uma redução na equipe, porém, segundo ela, sem impactos maiores na prestação de serviços.
Outro entrevistado relata que o governo estadual possui quatorze prestações atrasadas de repasses financeiros com o município em estudo, pois a União deixou de repassar ao estado. Segundo esse entrevistado, o município tem arcado com recursos próprios o pagamento de pessoal e a manutenção das unidades administrativas. Essa foi a estratégia encontrada pela gestão municipal para que os usuários dos serviços não sejam prejudicados com a falta /queda de repasses financeiros por parte das esferas federativas superiores.
Mesmo com a queda de recursos, não diminuímos serviço em razão disso. Funcionou tudo normal. Fizemos uma pequena redução na equipe, mas que não impactou na oferta de serviço direta ao usuário. [...] olha ultimamente não estamos recebendo quase nada. Estamos passando muitas necessidades quanto a isso. Devido a este fato, não estamos conseguindo ampliar nenhum tipo de serviço, somente atender o que já prestamos [...] (Entrevistada 1). A maioria dos recursos tem sido gastos com pagamento de recursos humanos. Pois o Estado tem com o município mais de quatorze prestações atrasadas. A união também deixa de repassar. Então nosso município já nos deparamos com situação de falta de recursos para pagar pessoal, por falta de repasse, então o município teve que fazer complementos com recursos próprios, sem falar em gastos com manutenção de prédios, serviços de convivência [...] (Entrevistado 8).
Essa quebra de compromissos dentro do pacto federativo (SUAS), como demonstrado pelos entrevistados, impacta de forma negativa na gestão do Cadastro Único, visto que, no município estudado, os pagamentos de pessoal e manutenção de unidades administrativas foram honrados por meio de recursos próprios. Caso o município não possuísse recursos próprios para cobrir tais despesas, isso acarretaria na interrupção da prestação de serviços aos usuários.
Essas perspectivas evidenciam que a dimensão político-representativa das capacidades políticas só se torna efetiva, quando os entes federados envolvidos cumprem seus papéis estabelecidos dentro do pacto federativo. Os relatos evidenciam os possíveis problemas que
poderiam ocorrer pelo descumprimento de obrigações do governo federal e estadual dentro do âmbito do SUAS na gestão do Cadastro Único.
A partir do relato da entrevistada 1, percebe-se que o gargalo na transferência de recursos do SUAS (união-estados-municípios) encontra-se no estado. De acordo com ela, o estado verifica os saldos financeiros que os municípios possuem de determinado recurso. O critério de repasse dos recursos utilizados parte do pressuposto de que receberão com prioridade os municípios que possuem menor valor em conta, ou seja, municípios que pouparam não estão recebendo. A entrevistada relata que o município conta um gestor do fundo municipal de assistência social, que atua há muitos anos neste cargo, o que possibilita uma boa administração desses recursos, observando os critérios de gastos estabelecidos pela legislação, evitando-se deixar recursos em caixa para que as parcelas em atraso sejam brevemente quitadas pelo estado.
O governo federal está fazendo da seguinte forma: está repondo o Estado. [...] os estados fazem uma pesquisa e verificam os saldos que os municípios possuem relativo a este recurso. Os municípios que tem o menor valor em conta, eles estão recebendo as parcelas em atraso. Municípios que acumularam valores em conta, não estão recebendo. Então aqui como nós temos o [...] gestor dos recursos do fundo municipal de assistência social, ele está sempre muito atento a isso. Pode gastar o recurso, pode! Então gastamos. Não pode, não gostamos. Como este gestor do fundo atua há anos neste cargo, é muito tranquilo, porque ele consegue sabe onde poder ser aplicado este recurso. O que temos em conta estamos gastando para não ficarmos sem receber depois. A estratégia dos municípios foi de economizar com receito de faltar depois, mas aí o Estado veio com está estratégia de dar a verba somente para quem não possui. Agora é assim, o Estado olha, se tem recurso ele entende que não está precisando, então não repassa mais [...] (Entrevistada 1).
Esse relato contribui para a compreensão da dimensão político-representativa, uma vez que os governos federais e estaduais estão dentro do pacto federativo estabelecido pelo SUAS no que tange ao financiamento, o qual cria novas formas de garantir que os municípios realizem seus trabalhos. Contudo, acredita-se que se o pacto estabelecido no SUAS fosse integralmente cumprido, as chances de alcance de bons resultados dentro da gestão poderiam ser bem maiores, pois os municípios teriam os seus recursos garantidos e os serviços prestados aos usuários não estariam ameaçados.
4.2.2 Participação social e mecanismos de fiscalização e controle na gestão local do