Natureza das BUs
2 GESTÃO DO CONHECIMENTO: ASPECTOS CONCEITUAIS
Keywords: University libraries. Knowledge management. Knowledge Management - Institutional Context.
1 INTRODUÇÃO
Hjorland e Albrechtsen (1995) discutem sobre análise de domínio enquanto uma comunidade discursiva nas quais o conhecimento produzido na mente do indivíduo é socializado. Na concepção destes o conhecimento não é somente cognitivo este é de caráter sociocognitivo o que evidencia a importância da efetiva transmissão do conhecimento. A Ciência da Informação (CI) é um campo dedicado à investigação científica e prática profissional que busca estudar a efetiva comunicação do conhecimento entre os indivíduos no contexto social, institucional e individual (SARACEVIC, 2009). Dentre os diversos campos estudados pela CI encontra-se a Gestão do Conhecimento (GC) a qual por meio de metodologias garante que os bens intelectuais produzidos pela instituição tragam maior produtividade, agregação de valor e maior competitividade, democratizando o acesso aos conhecimentos produzidos pelos indivíduos. Para isso, o conhecimento é organizado e classificado. Criam-se assim, dispositivos para sua disseminação no contexto organizacional e para a sociedade (BETTENCOURT; CIANCONI, 2012). Neste sentido, esta pesquisa surge a partir da percepção da importância do compartilhamento do conhecimento tácito, isto é, conhecimento intangível no contexto das Bibliotecas Universitárias (BUs). Diante do exposto, este artigo se propõe a discutir A GC em BUs mostrando o panorama atual no que se refere a GC neste contexto. O objetivo é mostrar as discussões já existentes sobre a GC em BUs por meio de levantamento bibliográfico, mais especificamente, as dissertações e teses defendidas nos programas de pós-graduação brasileiros no período de 2003 a 2016.
2 GESTÃO DO CONHECIMENTO: ASPECTOS CONCEITUAIS
Nonaka e Takeuchi (1997) acreditam que é necessário haver processos de socialização do conhecimento acumulado na mente das pessoas (disseminação do conhecimento tácito). Conforme estes autores as organizações, independente de seu campo de atuação, devem estimular todos aqueles que trabalham, no contexto institucional, a compartilhar o conhecimento.
O conhecimento tácito é o conhecimento que se constrói por meio das experiências vividas, englobando a cognição dos indivíduos, isto é, elementos intangíveis como, por
153 exemplo, o conhecimento adquirido ao longo de anos de exercício profissional. Este tipo de conhecimento é mais difícil de ser produzido, compartilhado de maneira formal. Pois, é um conhecimento que está contido na mente das pessoas.
O conhecimento explícito é aquele que é facilmente transmissível, sistematizado e comunicável em linguagem formal o que permite sua disseminação de forma ágil, por meio de livros, gravações, sites, dentre outros meios.
Choo (2003) afirma que a organização que trabalha de forma integrada seus processos de criação de significados, construção do conhecimento e tomada de decisões poderá ser reconhecida como organização do conhecimento.
Os processos de conversão do conhecimento ocorrem entre o conhecimento explícito e tácito e são divididos em quatro tipos: a socialização do conhecimento (do tácito para o tácito), a internalização do conhecimento (do explícito para o tácito), a externalização do conhecimento (do tácito para o explícito) e a combinação do conhecimento (do explícito para o explícito). Em cada uma delas, ocorre respectivamente, a empatização, personificação, articulação e conexão.
A GC é objeto de conceituação de diversos autores como Murray (1996), Malhotra (1998), Hackett (2002), Loureiro (2003), Valentim (2003), Pérez-Montoro (2008), Alencar e Fonseca (2015), Xavier Silva e Sá de Pinho Neto (2016).
Para Murray (1996) a GC pode ser utilizada como uma estratégia para o aumento da produtividade, competitividade e agregação de valor ao trabalho das organizações. Já Malhotra (1998) acredita que a GC tem uma visão fundamentada no conhecimento dos processos de negócio da instituição, para impulsionar a capacidade de processamento de informações avançadas e tecnologias de comunicação, por meio da translação da informação em ação, através da criatividade e inovação dos seres humanos. Isso afeta a competência da organização e sua sobrevivência em uma realidade repleta de imprevistos.
Hackett (2002) acredita que a GC apresenta uma abordagem sistematizada e integrada objetivando realizar a identificação, gestão e compartilhamento de todos os ativos de informação de uma organização, contemplando bases de dados, documentos, políticas e procedimentos, bem como conhecimento prévio não articulado e experiência dos indivíduos que nela trabalham. Refere-se à disponibilização da informação existente a nível coletivo e a experiência institucional compartilhada com cada trabalhador, que por sua vez é também responsabilizado pela utilização criteriosa das mesmas e pela realimentação do estoque informacional.
154 Para Loureiro (2003) a GC pode ser entendida como a abordagem sistemática para maximização do valor e promoção da acessibilidade do capital do conhecimento da organização para alcançar a máxima eficácia nos negócios e para promover a inovação. Envolve ações de gestão no que se refere à criação, captura, síntese, compartilhamento e aplicação da inteligência.
Segundo Valentim (2003) GC é o conjunto de estratégias para criação, aquisição, compartilhamento e utilização de ativos de conhecimento, bem como o estabelecimento de fluxos que garantam a disponibilidade da informação necessária no tempo e formato adequados, com a finalidade de auxiliar na geração de ideias, propiciar a solução de problemas e na tomada de decisões.
Na visão de Pérez-Montoro (2008) a GC é compreendida como a disciplina que se encarrega do estudo do projeto e da implantação de sistemas cujo principal intuito é que todo o conhecimento tácito, explícito, individual, interno e externo que se relaciona com a organização transforme-se em conhecimento organizacional ou corporativo de forma que este ao tornar-se acessível e compartilhável, permita que haja o aumento no conhecimento individual e coletivo das pessoas que trabalham na organização e que isso resulte em uma aumento na contribuição destes sujeitos para o alcance dos objetivos que busca a própria organização.
Alencar e Fonseca (2015, p. 24) definem GC como um ―processo que envolve a coleta, o processamento e a partilha de todo ativo de informação possuído pela empresa, com a finalidade de transformar-se em organização mais inteligente e competitiva‖. Compreende-se assim, que a GC é um conjunto de atividades que promovem a sistematização da informação e do conhecimento organizacional permitindo às organizações e seus colaboradores se utilizarem desta para o alcance dos objetivos da instituição e promover o aumento a competitividade. Esta é capaz de estabelecer uma visão estratégica para a utilização da informação e do conhecimento, promovendo a criação, codificação e transferência do conhecimento tácito estimulando deste modo à criatividade, inovação, aprendizagem e a educação continuada.
De acordo com os autores supracitados os modelos de GC são quatro: capital ambiental, capital estrutural, capital intelectual (capital humano) e o capital de relacionamento. O capital ambiental é o ambiente no qual a instituição está inserida. Trata-se do contexto social, econômico, político, cultural e das ferramentas tecnológicas. O desempenho de uma organização sofre influência, podendo estar em estabilidade ou instabilidade, são os chamados fatores ambientais. Para os autores o valor de uma organização
155 é dependente do ambiente com o qual esta se relaciona. Existem quatro variáveis para o monitoramento do capital ambiental: variáveis sociais, variáveis tecnológicas, variáveis econômicas e variáveis políticas.
O capital estrutural se refere às condições necessárias para a realização do trabalho dentro de uma organização como, por exemplo, os sistemas administrativos, conceitos, modelos, rotinas, marcas, patentes e sistemas de informática, que possibilitam à organização desenvolver seu trabalho. A cultura organizacional, isto é, a forma com a instituição coloca em funcionamento seu trabalho faz parte também deste tipo de capital. Assim, as propriedades do capital estrutural são: cultura organizacional, sistemas administrativos, sistemas de gestão, produtos, serviços, patentes, marcas, propriedade intelectual, procedimentos, processos, rotinas, instalações, infraestrutura, tecnologias e equipamentos.
O capital intelectual ou humano se refere aos conhecimentos, experiências, habilidades e aptidões das pessoas que trabalham na organização. Este tipo de capital é propriedade dos indivíduos, porém o uso pela organização deste tipo de conhecimento produz benefícios. Entretanto, a dificuldade existente reside na transformação do conhecimento tácito em conhecimento explícito para que haja agregação de valor aos produtos e serviços oferecidos.
O capital individual humano usado pela empresa para promoção de seu crescimento é um tipo de conhecimento que se dissipa rapidamente. Para evitar que isso ocorra devem ser adotadas estratégias para o gerenciamento do conhecimento contido na mente das pessoas. As propriedades do capital intelectual são: valores (cultura), talentos, conhecimento tácito, conhecimento explícito, competências, comprometimento, habilidades e expertises (experiências).
O capital do relacionamento engloba a rede de relacionamento da organização com seus clientes, fornecedores e instituições parceiras. O capital do relacionamento funciona com facilitador para os outros capitais, pois proporciona o conhecimento dos colaboradores diretos e indiretos. As propriedades do capital do relacionamento são: colaboradores, clientes internos, stakeholders16, fornecedores, clientes externos, parceiros, instituições de pesquisa e concorrentes.
Depois da análise de cada tipo de capital explicitado no trabalho destes autores optou- se por estudar, especificamente, o capital intelectual, contido na mente das pessoas
16
São as pessoas, instituições ou organizações que, de alguma forma, são influenciadas ou impactadas pelas ações de uma organização, por exemplo, os sócios, que definem metas e requisitos a serem alcançados (BRASIL, 2013, p. 14).
156 constituindo-se em objeto de investigação desta pesquisa. Para garantir que este bem intangível seja compartilhado com todos aqueles que trabalham na organização é fundamental que sejam realizados estudos para encontrar formas de compartilhamento do conhecimento tácito dentro das BUs. Os processos de uma organização devem estar explicitados para uma compreensão sistêmica de todas as atividades desenvolvidas por esta.
Se as empresas dos mais variados segmentos sentem a necessidade de tornar explícito o capital intelectual produzido no decurso de suas atividades, a Biblioteca Universitária (BU) também deve ter esta preocupação. Esta deve também tornar acessível o conhecimento produzido no desenvolvimento das atividades, pois, trata-se de um espaço no qual ocorre à disseminação da informação e do conhecimento devendo ter como tarefa também a disseminação deste tipo de capital.
Xavier Silva e Sá de pinho Neto (2016) enfatizam que a GC se caracteriza como um campo centrado no conhecimento tácito dos indivíduos. Preza pelo conhecimento e experiências das pessoas pertencentes a uma organização incentivando a criação de comunidades e o estabelecimento de relacionamentos a fim de promover a aprendizagem e inovação.