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4. O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA (PBF) A PARTIR DA PRIMEIRA DÉCADA

4.6 A GESTÃO DO PBF, O CADASTRO ÚNICO PARA PROGRAMAS SOCIAIS

Compreende-se que a gestão pública pressupõe parte do governo que se consolida por meio da coordenação administrativa e política de “medidas sistematizadas para responder demandas relacionadas aos problemas populacionais. Trata-se de um processo que coloca face a face sujeitos com interesses diversificados” (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016, p. 117), quais sejam: os políticos, os técnicos, as lideranças comunitárias, as organizações empresariais e ainda todos os demais segmentos da sociedade, enquanto demandadores de serviços públicos.

Contudo, em relação à Política de Assistência Social, em que se encontra inscrita o PBF, faz-se necessária a observância de cinco princípios básicos, classificados por Pereira, Sousa e Vieira (2016), como sendo a prioridade no atendimento a necessidades sociais, acima das exigências de rendimentos econômicos. Dessa forma, pode-se elencar: a garantia da universalização dos direitos sociais; a honra da dignidade humana, zelo pela construção da autonomia dos direitos de convivência em família e na comunidade; igualdade de acesso aos atendimentos, não permitindo discriminação de qualquer natureza e publicização dos serviços e benefícios disponibilizados e suas formas de concessão. Além disso, acrescentam Pereira, Sousa e Vieira (2016):

Em coerência com esses marcos legais vigentes, o processo de gestão do BF se efetiva mediante a estratégia de descentralização, via municipalização. Do ponto de vista teórico, constituir-se-á como suporte para a construção de uma esfera pública [...], é sempre a suspensão do Estado hobbesiano, dos conflitos primitivos. Na prática, porém, apresenta dois desafios básicos para o alcance dos seus objetivos[...]: o da coordenação e o intersetorialidade (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016, p. 118).

Assim, o desafio da coordenação ocorre por causa do modelo de gestão compartilhada que existe entre as três esferas governamentais com uma efetiva participação da sociedade, da intersetorialidade, que se configura pelo entendimento preconizado no texto das condicionalidades do PBF, somadas as outras ações que estão definidas para promover oportunidades às famílias beneficiárias do referido programa social (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016).

Como dito, a gestão do PBF se consolida de forma efetiva enquanto política pública coordenada de forma compartilhada entre as três esferas do poder público. Entretanto, essa gestão tem como fundamento os marcos regulatórios normativos, institucionais e ainda os funcionais, como o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza (MDS), os Conselhos Municipais, as Secretarias de Assistência Social e o Ministério Público (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016).

A partir desses marcos, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios decidem as “bases de cooperação para o combate à pobreza e a exclusão social dos beneficiários do BF, selecionados a partir de informações registradas no Cadastro Único (CadÚnico) para programas sociais”, (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016, p. 122) federais, tomados como referência a composição e as condições socioeconômicas das famílias e as possibilidades de fruição dos serviços ofertados no setor público.

A estas instâncias cabe ainda a pactuação de ações/medidas de acompanhamento e controle das condicionalidades, que foram celebradas por meio de critérios de elegibilidade confirmadas através do perfil de pobreza e de extrema pobreza, “considerando a presença de crianças e adolescentes até 15 anos de idade, jovens adolescentes entre 16 e 17 anos, gestantes e nutrizes” (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016, p. 122). E esta ainda acrescenta:

Na gestão da implementação do BF, as três instâncias governamentivas têm competências particulares: no nível federal, a Secretaria de Renda de Cidadania (SENARC) do MDS é a instância responsável pelo financiamento, definição e emprego das normativas legais e das instruções técnicas, cobertura e ampliação do programa nos municípios, transferência de recursos para amparar a gestão local do programa e contratação e monitoramento do agente executor – a Caixa Econômica Federal (CAIXA) (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016, p. 122).

A autora relata que esse nível de gestão federal tem alimentado certa tensão nos debates sobre o PBF, em virtude desse programa está vinculado a SENARC e não à Secretaria de Assistência Social. Essa tensão acontece pelo entendimento de que o PBF, na condição de um programa de transferência de renda, encontra-se na área da Proteção Social Básica (PSB) como uma das dimensões que se colocam no âmbito da Política de Assistência Social, unificando - se e se materializando principalmente nos municípios, através dos CRAS.

Por isso, ressalta Pereira, Sousa e Vieira (2016) que “o esperado seria que o BF tivesse seu vínculo institucional na SAS, o que não demandaria a criação de uma secretaria específica” (p. 123). Porém, a autora ainda assinala que os municípios, por meio da instância definida em seu âmbito local, têm a responsabilidade de gerenciar o programa no município. Assim, os municípios têm a incumbência de indicar seu coordenador local do Programa Bolsa Família, que por sua vez é responsável pelo cadastramento das famílias no CadÚnico, constituindo e apoiando a Instância de Controle Social (ICS).

Na concepção de Pereira, Sousa e Vieira (2016), os principais problemas apontados no âmbito municipal seriam o quadro de recursos humanos que, normalmente, são insuficientes em número, somados ao problema da desqualificação e a parca participação da sociedade, em geral, no processo de controle social.

A seleção das famílias para beneficiárias do PBF toma como referência para inclusão o critério de renda, em que seus limites são definidos pelo MDS. A partir de 30 de abril de 2014 (Decreto nº 8.232), foram fixados novos tetos para o repasse de recursos a famílias cadastradas, particularmente, R$ 154,00 para famílias com crianças e adolescentes e R$ 77,00 para as demais que se encontravam na linha de extrema pobreza (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016).

O processo de cadastramento das famílias é ação considerada fundamental pelo MDS, sendo de responsabilidade dos municípios. Cada família deve fazer revisão cadastral, a cada dois anos, para atualização dos dados e para emprestar qualidade às informações. Quando não se concretiza a atualização, num primeiro momento, é feito o bloqueio do benefício e, em permanecendo a situação, ocorre o cancelamento (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016, p. 124).

Segundo o Relatório do Bolsa Família e do Cadastro Único, até o mês de janeiro de 2019, o município de Acaraú estava com uma Taxa de Atualização Cadastral (TAC) de 78,48%, enquanto a média nacional era de 73,16%.

Ressalta esse Relatório que a TAC é calculada através da divisão do “número de famílias cadastradas com renda mensal per capita de até ½ salário mínimo com cadastro

atualizado pelo total de famílias cadastradas com renda mensal per capita de até ½ salário mínimo, multiplicado por cem” (MDS, 2019).

FIGURA 12: Quadro – Síntese: Gestão Programa Bolsa Família em Acaraú - dezembro de

2018

FONTE: www.mds.gov.br/bolsafamilia, 2019.

De acordo com esse Relatório, a Taxa Cadastral de Acaraú demonstra que o município “está bem focalizado e atualizado”, ou melhor, a maioria das famílias que estão cadastradas no CadÚnico são realmente pessoas que pertencem ao público alvo dos programas sociais.

O CadÚnico se constitui em uma das principais ferramentas informacionais do Governo Federal para definição de programas sociais, bem como representa uma das principais tarefas dos municípios a partir dos órgãos gestores da política pública de Assistência Social. Porém, não raramente, os estados e os municípios que ainda desenvolvem programas estaduais e municipais de transferência de renda mantêm em seus próprios cadastros, o que multiplica a quantidade de bancos de dados a serem acessados e monitorados (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016, p. 124). Outras situações que demandam atenção tratam-se dos casos em que precisam ser realizados cadastramento e recadastramento de uma pessoa ou de uma família. Elas têm recebido espaço, cada vez mais cuidadoso, na gestão dos municípios que passaram a incluir nos seus sistemas um setor para essas informações e manutenção do CadÚnico (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016).

Quanto ao controle social e a fiscalização, Pereira, Sousa e Vieira (2016) asseveram que seriam “meios edificados pelas sociedades reais destinados a induzir seus membros a se adequarem às regras vigentes, evitando ou desestimulando procedimentos desfavoráveis à ordem” (p. 125). Neste aspecto, o gestor municipal tem o dever de prestar contas da aplicação dos recursos do PBF através do Sistema SuasWeb, porém, necessita ter a aprovação do Conselho da Assistência Social.

Destacam as autoras, em estudo, que existem três maneiras de controle das ações do PBF: fiscalização pela Secretaria de Renda de Cidadania (SENARC); auditorias e fiscalização pela Rede Pública de Fiscalização (RPF); Ministérios Públicos Federal, Estadual e Distrito

Federal, Controladoria Geral da União, Tribunal de Contas da União. Tais instituições devem acompanhar o PBF e o CadÚnico, atuando não somente no acompanhamento das condicionalidades, mas proporcionando capacidades às famílias para se desenvolverem, melhorarem de vida, com a ajuda de programas suplementares municipais e de outras instâncias (PEREIRA, SOUSA e VIEIRA, 2016).