POPULAÇÃO-ALVO
4 A GESTÃO DO PROGRAMA EMERGENCIAL DA SECA EM MONTEIRO/PB
Neste capítulo será apresentado desde a criação, composição, organização e funcionamento da Comissão Municipal para Ações Emergenciais (CMAE) do município de Monteiro, responsável pela gestão das ações do Programa Federal de Combate aos Efeitos da Seca (PFCES), até a análise do caso com base nas informações levantadas.
4.1 O contexto da criação da Comissão Municipal para Ações Emergenciais
Monteiro foi um dos 193 municípios do Estado da Paraíba e um dos 1.383 da área de abrangência – Nordeste, Norte de Minas Gerais e do Espírito Santo, que participaram do PFCES, cuja vigência compreendeu o período de junho de 1998 a maio de 2000.
Aquela seca, que teve o seu reconhecimento e a conseqüente resposta governamental só em junho de 1998, na verdade já apresentava sinais no segundo semestre de 1997. Focalizando-se o Estado da Paraíba, e especificamente Monteiro, não foi diferente:
“A situação do abastecimento d’água no Cariri é de vaca desconhecer bezerro. Ontem (11 de novembro de 1997), a Cagepa suspendeu o fornecimento do produto em Monteiro. A água está podre na cidade.”
“Também ontem o prefeito Carlos Batinga decretou “estado de calamidade pública”em Monteiro. Ele quer ajuda do governo do Estado para abastecer a população.” 142
Tendo em vista o colapso total do abastecimento d´água da cidade, a paralisação dos serviços agrícolas no município, a estimativa de tempo para conclusão da adutora do açude Poções (de 60 a 120 dias), a precariedade do abastecimento alternativo, os níveis de pobreza da população e as condições financeiras da Prefeitura para custear as despesas com a efetivação de um plano emergencial de atendimento à população, o Prefeito de Monteiro declarou o município em Estado de Calamidade Pública – Decreto Municipal nº 28, de 11 de novembro de 1997 143.
A declaração de Estado de Calamidade Pública, ou o reconhecimento legal pelo poder público de situação anormal no município, foi encaminhada pelo Prefeito ao órgão estadual de defesa civil – a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, com vistas a homologação pelo Governo do Estado da Paraíba e posterior reconhecimento pelo Governo Federal, concretizado com a publicação de Portaria Ministerial.
De acordo com o Decreto nº 97.274, de 16 de dezembro de 1988, que organizou o Sistema Nacional de Defesa Civil – SINDEC, objetivando planejar e promover a defesa permanente contra calamidades públicas – art. 21 inciso XVIII da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, o Estado de Calamidade Pública corresponde a uma: “situação
anormal provocada por fatores adversos que privem a população do atendimento de suas necessidades básicas e afetem as atividades comunitárias, a preservação de vidas humanas e a segurança de bens materiais”.144
Para a CDC o Estado de Calamidade Pública, em síntese, estará configurado:
“quando a sobrevivência ou integridade das populações estiver ameaçada, quer seja pela escassez ou ausência de alimentos, pela má qualidade ou quantidade insuficiente de água disponível para consumo humano e animal, quando existirem ten sões sociais, com tendência de agravamento, em razão da incapacidade de resposta aos problemas causados pela seca”.145
A atual Constituição – art. 167, parágrafo 3º, admite abertura de crédito extraordinário “para atender a despesas imprevisíveis e urgentes, como as decorrentes de guerra, comoção
interna ou calamidade pública”, por se tratar de situação fora da normalidade e grave. Assim, um
143 Publicado no Mensário Oficial do Município de Monteiro/PB [Instituído pela Lei nº 1.1442, de 10.12.96], de 1 a
30 de novembro de 1997. p. 4. Obs. O Decreto nº 28, de 11 de novembro de 1997 chegou a ser revogado pelo Decreto nº 34, de 28 de janeiro de 1998, que por sua vez foi revogado pelo Decreto nº 36, de 2 de março de 1998, que restaurou a vigência e eficácia do Decreto nº 28.
144 Cf. SUDENE. Coordenadoria Regional de Defesa Civil. Orientações para preenchimento, pela SUDENE, do
Estado de Calamidade Pública decretado pelas prefeituras. Recife: CDC, 1993. p.1
dos procedimentos iniciais para o Governo Federal instituir um programa emergencial é a edição de Medida Provisória autorizando abertura de crédito extraordinário para fazer frente às despesas com a assistência às vítimas da seca. No caso específico do programa emergencial da seca de 1998/2000, a Medida Provisória que autorizou essa abertura de crédito foi a de nº 1.666 de 05 de junho de 1998, revalidada pelas Medidas Provisórias nº 1.686-1 e nº 1686-5, de 29 de junho de 1998 e 26 de outubro de 1998, respectivamente.
Após a decretação do Estado de Calamidade Pública em Monteiro, pelo Prefeito, homologado pelo Governo do Estado da Paraíba, foi finalmente reconhecido pelo Governo Federal por meio da Portaria nº 48, de 24 de junho de 1998, da Secretaria Especial de Políticas Regionais, do Ministério do Planejamento e Orçamento. 146
Cumpridas as exigências por parte do município e também dos estados, foi dada a resposta governamental através do conjunto de ações destinadas a prestar assistência às populações atingidas, que contou com os seguintes programas:
- Programa Emergencial de Alimentos;
- Programa Emergencial de Frentes Produt ivas (Medida Provisória nº 1.687, de 05 de junho de 1998);
- Programa Especial de Financiamento (Medida Provisória nº 1.659, de 12 de maio de 1998);
- Programa Alfabetização Solidária;
- Programa de Alfabetização e Capacitação para Jovens e Adultos;
- Programa de Fortalecimento de Infra-estrutura Hídrica do Nordeste: PROHIDRO/Emergência.
Antes, porém, do anúncio do conjunto de medidas, e de ser instituído o programa emergencial, em junho de 1998, alguns passos foram dados “no sentido de colocar
imediatamente cestas básicas à disposição da população rural atingida pela seca” 147 – primeira ação emergencial do governo federal (maio de 1998).
146 Função, atualmente, a cargo do Minis tério da Integração Nacional. 147 Trecho do Ofício nº 1508/98/SUDENE/GAB, de 30 de abril de 1998.
De acordo com informações da SUDENE/CDC148, a situação era de tensão e intranqüilidade. Em 15 de março, 600 pessoas retiraram alime ntos do depósito da merenda escolar, no município de Conceição/PB, dando início a uma onda de saques.
Para dar início ao fornecimento de alimentos, a cargo da CONAB, aos municípios atingidos, com Estado de Calamidade Pública decretados, a SUDENE, utilizando-se de telegrama fonado, transmitiu as exigências para sua consecução. Esse telegrama transcreve o conteúdo do Ofício nº 1.508/98/SUDENE/GAB, datado de 30 de abril de 1998, dirigido aos diversos Prefeitos dos municípios em situação crítica, informando as providências adotadas pela SUDENE em cumprimento às determinações do Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que versa sobre a criação da Comissão Municipal para Ações Emergenciais.
Os principais destaques do telegrama ou do Ofício nº 1.508/98/SUDENE/GAB, foram os seguintes:
1- A SUDENE autorizaria à CONAB o fornecimento das cestas, tão logo fosse informada pelo respectivo Prefeito, via fax, a criação por decreto da Comissão Municipal, responsável pela distribuição das cestas;
2- A Comissão deveria ter no mínimo 10 e no máximo 15 membros, sendo pelo menos a metade deles representantes de organizações não-governamentais, escolhidos pela comunidade;
3- A Comissão deveria ser obrigatoriamente composta por: - Prefeitura Municipal;
- Câmara Municipal, Vereador da situação e Vereador da oposição; - Sindicato de Trabalhadores Rurais;
- Ministério Público, onde houvesse; - Governo do estado (EMATER); - Agente de saúde;
- Outros (professores, associações comunitárias, etc.) 4- A Comissão teria as seguintes atribuições:
- Selecio nar e cadastrar as famílias rurais vitimadas pela seca;
- Indicar dois membros para acompanhar a retirada dos alimentos dos armazéns da CONAB, sendo um representante de organização não-governamental;
- Controlar, acompanhar e avaliar a distribuição das cestas; - Elaborar relatório e encaminhar à SUDENE, a cada distribuição.
5- Informava que a ação seria voltada exclusivamente para as populações rurais e que o município teria direito a selecionar, a princípio, 50% da população afetada e que dividindo esse número de pessoas por cinco (média de membros por família) encontrariam o número de cestas que caberia ao município.
6- Lembrava, ainda, que as despesas com transporte dos alimentos do armazém ao município seriam de responsabilidade deste.
Como se pode perceber, criar a Comissão Municipal, no contexto de uma situação de crise e calamidade, foi posto como condição necessária para que os municípios se habilitassem ao Programa, cabendo a dois de seus membros acompanhar a distribuição dos alimentos. Assim, e de acordo com as palavras do Presidente da República, conforme noticiado pelo Jornal do Commercio (PE) de 6 de maio de 1998, tudo iria depender da agilidade dos Prefeitos:
“Vamos resolver, emergencialmente, o problema da fome, nos cercando de todas as medidas para que a comida chegue à mesa de quem realmente está precisando.” “Se ele (o Prefeito) agir rápido e criar a comissão, o processo todo pode durar 24 horas”.
A Comissão Municipal para Ações Emergenciais de Monteiro foi criada por meio do Decreto nº 039, de 4 de maio de 1998 e, em seguida, com a Portaria nº 154/98 – GAPRE, de 5 de maio de 1998, foram nomeados seus membros.
Por meio do Ofício nº 138/98-GAPRE (do Gabinete do Prefeito), de 05 de maio de 1998, endereçado ao Professor Leonides Alves da Silva Filho, à época, Superintendente da SUDENE em exercício, o Prefeito do município de Monteiro, Engenheiro Carlos Alberto Batinga Chaves, encaminhava cópia do decreto de criação da Comissão Municipal, bem como da portaria de nomeação dos seus membros àquela instituição.
Posteriormente, através do Ofício nº 141/98 – GAPRE, datado de 12 de maio de 1998, o Prefeito de Monteiro fez a indicação dos membros responsáveis pelo recebimento das cestas de alimentos fornecidas pela CONAB ou pela retirada dos alimentos do armazém da CONAB.
O Decreto municipal nº 39, de 4 de maio de 1998 149, que dispõe sobre a Comissão Municipal para Ações Emergenciais e dá outras providências, assim estabelece:
Art.1º) - É criada a Comissão Municipal para Ações Emergenciais, cujas funções serão desenvolvidas em concordância com o Conselho de Desenvolvimento Municipal 150.
Art.2º) - A Comissão Municipal para Ações Emergenciais é constituída de dez membros, representando, cada um, os seguintes segmentos:
I)-REPRESENTAÇÃO GOVERNAMENTAL: