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CAPÍTULO I - A GESTÃO ESCOLAR: MATERIALIZAÇÃO DE UMA POLÍTICA DE

1.4 GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA E QUALIDADE DA EDUCAÇÃO

A educação é um direito fundamental, de natureza social. Para ser

concretizada nas relações sociais, é concebida numa perspectiva democrática e de

qualidade, afirmando-se a sua universalidade e imprescindibilidade para o

desenvolvimento pleno da pessoa.

O Estado e seus agentes têm o dever de garantir um padrão de qualidade

para a educação (Art. 206, inciso VII da Constituição Federal e art. 3°, inciso IX da

LDBEN), o que não se traduz apenas no acesso à escola.

O desafio de assegurar permanência e a aprendizagem dos alunos, a

formação continuada dos professores e demais trabalhadores em educação, o

envolvimento efetivo da família e a autonomia da escola para propor projetos e

desenvolver ações levanta o debate sobre a capacidade dos sistemas de propiciar

mudanças substancias em todo processo educacional, para oportunizar

aprendizagem significativa.

política encontra um conjunto de determinantes que interferem no processo. Apesar

da universalização do ensino fundamental, ela não é acompanhada da sonhada

qualidade na educação e do sucesso escolar.

A qualidade da educação é um objetivo alcançável apenas a médio e longo

prazo. Portanto, a permanência e sucesso na escola, com nível de qualidade

equivalente para todos, é um dos maiores desafios da educação (VIDAL e VIEIRA,

2013).

Nas últimas décadas, a qualidade da educação tem vários significados que

ampliam a denotação do tema. Oliveira e Araujo (2005) apresentam três formas

distintas para essa percepção, no contexto das políticas brasileiras.

No primeiro momento, o significado da qualidade está diretamente ligado ao

acesso. Afinal, estar na escola é o grande mote em um país de analfabetos. A ação

política dos governantes resume-se à construção de prédios escolares, à expansão

da rede de ensino, mas sem um olhar para uma educação efetiva, para a

aprendizagem significativa ou mesmo para a reorganização do ambiente escolar, de

modo a favorecer o ensino e, por consequência, a aprendizagem.

A não permanência dos alunos nas escolas, e os índices que não refletem

sucesso escolar levam o Brasil a ostentar, segundo o Banco Mundial (1993)

27

, um

dos maiores índices de repetência e evasão escolar da América Latina, o que eleva

o custo-aluno para o Estado, pelo aumento do tempo de permanência do aluno na

escola. Na mesma medida em que crescem as oportunidades educacionais,

aumentam os obstáculos relativos ao prosseguimento dos estudos.

Em um segundo momento, a percepção sobre a qualidade é relacionada à

permanência e sucesso na escola, visando reduzir os índices de evasão e

repetência. É a saída encontrada para combater a reprovação e dá-se por meio de

políticas de aprovação automática, ciclos e progressão continuada.

Esses mecanismos visam minimizar as mazelas no contexto educacional

brasileiro. No entanto, não há a elaboração de um projeto de educação com

qualidade, haja vista que as ações têm cunho quantitativo, esquecendo-se das

diferentes realidades nas salas de aula e, principalmente, da necessidade de ofertar

uma aprendizagem significativa e contextualizada.

27Segundo o Banco Mundial (1993, p. 14) o Brasil, no período, apresenta o maior índice de repetência escolar e evasão da América Latina, significando que 50% dos alunos matriculados na primeira série do ensino fundamental repetem a série. Para o BM os dados refletem a baixa qualidade e a pouca eficiência do ensino público.

Outra concepção passa a ser utilizada, a da igualdade de conhecimento

adquirido ou de desempenho, aferida mediante testes padronizados em larga

escala

28

. Segundo Oliveira e Araujo (2005), os resultados desses testes permitem a

constatação de que a ampliação do acesso não elimina as fortes desigualdades

regionais e internas dos sistemas, o que inviabiliza a efetivação dos dois outros

princípios basilares da educação como direito: a garantia de permanência na escola

e com nível de qualidade equivalente para todos.

Nesse cenário, os indicadores, em larga escala, são os principais

instrumentos de monitoramento dos resultados. No entanto, “[...] a sua simples

existência não assegura nenhum tipo de utilização, muito menos compromisso de

melhorias.” (VIDAL e VIEIRA, 2013, p. 426).

Concorda-se com Souza que os resultados apontados pela avaliação do

sistema de ensino “[...] não conseguem avaliar de forma adequada a realidade

concreta da prática pedagógica que se passa em cada sala de aula e, ainda em

menor condição, não consegue identificar o real nível de aprendizagem de cada

aluno avaliado.” (SOUZA, 2007, p.195), mas que “[...] as informações usadas de

maneira adequada contribuem para a compreensão mais geral da educação, o que

para a formulação de políticas é essencial” (SCHNEIDER, 2013, p.58).

Oliveira (2009) alerta para o problema de tratar somente os índices como

indicadores de qualidade. Eles representam, apenas, uma das dimensões da

qualidade da educação, desconsiderando outras, como o processo educacional que,

na definição do autor, refere-se [...] à busca de procedimentos analíticos que sejam

capazes de valorar os processos no interior da escola. (2009, p.34) e o conjunto dos

insumos exigidos para a adequada relação ensino-aprendizagem, nas escolas

públicas.

Portanto, a qualidade não é pensada de maneira isolada, “[...] se passamos

a considerar como um indicador de qualidade da educação apenas resultados de

produtos, difundimos uma ideia de que os processos educativos não são

importantes” (OLIVEIRA, CAMARGO, GOUVEIA e CRUZ, 2009, p. 33)

29

.

Neste sentido, compreende-se que:

28 No Brasil, a criação de uma política nacional de avaliação, acontece a partir dos anos 90, com a implantação do Sistema de Avaliação do Ensino Primário (SAEP) que posteriormente sofre algumas modificações e passa a denominar-se Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e Exame Nacional de Curso (ENC) – Ensino Superior.

29Para o desenvolvimento desse assunto, ver GRACIANO, Mariângela (coord.). O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). São Paulo: Ação Educativa, 2007. – (Em Questão, v. 4)

[…] a qualidade da educação envolve dimensões extra e

intraescolares e, nessa ótica, devem se considerar os diferentes

atores, a dinâmica pedagógica, ou seja, os processos de

ensino-aprendizagem, os currículos, as expectativas de ensino-aprendizagem, bem

como os diferentes fatores extraescolares que interferem direta ou

indiretamente nos resultados educativos (DOURADO e OLIVEIRA,

2009, p. 205).

Dourado, Oliveira e Santos (2007) compreendem, por dimensões extra e

intraescolares, tendo em vista os pontos positivos, que a abrangência dos dois

fatores resultam na qualidade da educação.

Para os autores, a dimensão extraescolar diz respeito a temas que estão

ligados e têm significativa influência no processo de ensino/aprendizagem, mas que

não se encontram no interior da escola. São dimensões que ultrapassam os muros

escolares e envolvem espaço social, com destaque para os aspectos econômicos e

culturais dos indivíduos envolvidos no processo e para a participação do Estado.

Já a dimensão intraescolar compreende aspectos escolares e ações

educacionais desenvolvidas na escola. São consideradas as práticas

organizacionais internas do ambiente escolar, no que respeita às decisões que

permeiam o projeto educativo e atenta-se na formação profissional dos professores

e na relação estabelecida entre eles e os alunos.

O planejamento pedagógico e as dinâmicas de ensino e de avaliação do

desenvolvimento educacional influenciam diretamente o aprendizado e o sucesso

escolar dos alunos atendidos pela escola.

A efetividade do direito à educação, engloba dimensões necessárias para

afirmar que seja assegurado o direito dos cidadãos a uma escola com qualidade.

A qualidade educacional perpassa a questão da infraestrutura, da formação

e das condições de trabalho docente e o cotidiano da sala de aula, para sustentar as

práticas educacionais em favor da aprendizagem.

A gestão democrática é um caminho de ação, de um trabalho conjunto que

contribui substantivamente para a promoção da qualidade na educação na qual o

desempenho do aluno e a formação do sujeito são finalidades. As condições de

qualidade relacionam-se aos insumos e à gestão para a educação atingir a sua

finalidade. De acordo com Paro (2007, p.16), educação de qualidade forma o

educando individualmente e socialmente, na dimensão individual quando define o

“[...] provimento do saber necessário para o autodesenvolvimento [...] educar para o

viver bem; e a dimensão social refere-se à [...] formação do cidadão, tendo em vista

sua contribuição para a sociedade.”

Já Cury (2007, p.492) ressalta que “[…] a escola lida com um horizonte que

é a prioridade do aprendizado do aluno, estabelecido como direito social, direito de

cidadania e direito do indivíduo e o aluno, sujeito de um aprendizado, é o polo e a

finalidade da escola.”

A qualidade do ensino ultrapassa a visão da eficiência da educação como

um produto que oferece retorno, dimensionando mais os insumos do que as

condições nas quais ocorrem os processos de ensino-aprendizagem.

A gestão escolar, nesse trabalho, afasta-se da definição de gestão próxima

da concepção neoliberal, da mercantilização da educação. Defende a gestão da

escola sustentada pelo diálogo, pela diversidade de propostas e opiniões com base

na participação efetiva de todos os segmentos que constituem a comunidade

escolar.

No processo, a participação da comunidade é fator decisivo na qualidade da

educação. A escola, espaço plural, garante o compromisso de todos os envolvidos

cotidianamente nela para melhorar a sua qualidade (OLIVEIRA, CAMARGO,

GOUVEIA e CRUZ, 2009).

Entre o real e o ideal, nas relações existentes na escola, há um extenso

caminho, principalmente, o desafio de incorporar, nas discussões, a dimensão dos

processos que ocorrem, nos quais se definem os valores intrínsecos à educação,

pelo viés da cultura democrática.

Quanto mais democrática a gestão da escola, mais favorece a qualidade

educacional. Esta prática se efetiva com o fortalecimento dos mecanismos que

consolidam o princípio de igualdade. Ocorre um processo igualitário, com simultânea

manutenção da qualidade.

Evidencia-se a importância do objeto de estudo da dissertação, ao mesmo

tempo em que traz, subjacente, percepções e concepções em relação à temática.

Posteriormente, alicerça as análises dos capítulos subsequentes que objetivam o

estudo da materialização dos conceitos no âmbito da política local. Mais

especificamente, como a gestão escolar se estrutura nos casos selecionados,

evidenciando os mecanismos democráticos de gestão escolar que contribuem para

melhores condições de qualidade nos sistemas escolares.