Já se passaram 25 anos desde a promulgação da Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã que marcou um período longo de democracia política para os brasileiros, período este de criação e fortalecimento de instituições consideradas democráticas, partidos políticos e também das organizações sindicais que puderam fortalecer-se na luta pelos direitos dos cidadãos.
Anteriormente à Constituição Cidadã, tivemos no Brasil outras seis constituições, que foram extremamente importantes e marcaram historicamente o país. Entre estas, temos as constituições de 1822 e 1891 que tiveram como fatos importantes da história do país, a Independência do Brasil em 1822, e a Proclamação da República, em 1889. Já em 1934, com o Brasil sob comando de Getúlio Vargas, o país ganha outra Constituição, esta agora considerada mais democrática, onde temos alguns avanços, o voto secreto e também o direito ao voto por parte das mulheres.
Em 1937, a Constituição Brasileira, outorgada pelo presidente Getúlio Vargas, foi considerada a mais autoritária de todos os tempos, pois colocou todo o poder de decisão e também repressão nas mãos do Presidente da República, surgindo, assim a temida “Ditadura”. No período de repressão, medo e também insegurança, institui- se a eleição indireta para a escolha do Presidente e foi tirado o direito de greve dos
trabalhadores, porém, de forma contraditória, é neste período que ocorre a consolidação das Leis Trabalhistas.
Após o período de repressão, surge a Constituição de 1946, que buscou resgatar a liberdade expressa na carta de 1934. No período, o Brasil já possuía cidades desenvolvidas e novas forças sociais. A Constituição Brasileira de 1946 foi um avanço no que tange à cidadania e à liberdade individual, porém a nova e sexta Constituição que surge e entra em vigor em 1967, em pleno Golpe Militar, restringe as conquistas democráticas do povo e resgata todas as formas de autoritarismo.
No período entre os anos 87 e 88, toda a sociedade brasileira, sonhava com a volta da liberdade individual e também com a criação de um projeto de estado democrático, mesmo que a efetivação deste projeto ainda não parecesse possível imediatamente. A luta e organização política contra a ditadura estavam fundadas principalmente em duas prioridades: a conquista da democracia e a diminuição da desigualdade social, o que acabou resultando na Constituição de 1988.
Hoje, podemos dizer que a Constituição de 1988 é de longe a mais democrática que o Brasil já teve e isso é confirmado pela participação do povo na elaboração desta e também pelo próprio conteúdo que a mesma possui. Esta é extremamente detalhada e cheia de especificações que expressam a força e vontade de um povo que lutou por um país mais democrático.
Desde a promulgação da Constituição, nosso país mudou muito, passou por inúmeras transformações. Consequentemente, esta constituição também passou por inúmeras reformas que foram necessárias ao processo de adaptação desta com as mudanças ocorridas no Brasil. Sabemos que existe um distanciamento entre o ideal e o real, mas analisando o processo de construção da Constituição no Brasil podemos ver positivamente as conquistas que foram obtidas com a Constituição Cidadã, pois com as marcas de séculos assinalados por autoritarismos e sistemas econômicos que marginalizavam a população, nesses últimos 25 anos, podemos perceber que estamos mais próximos do que a Constituição prevê: a Democracia.
É com base na luta pela democracia efetiva no país, que a Constituição dá as diretrizes para a lei que rege o ensino no Brasil, sendo que a lei 9394/96, a LDBEN traz a participação como ponto importante para a qualidade do ensino e garante o direito a uma educação democrática a todos os cidadãos. No artigo 206 da Constituição Federal, encontramos os princípios sobre os quais o ensino deve ser ministrado. Entre esses princípios, é possível perceber o destaque para a gestão
democrática do ensino público. Neste artigo, a lei determina no inciso “VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei” (Const. Federal/1988), confirmando e legitimando os processos democráticos nas instituições de Ensino, tendo como base os processos de gestão.
A nova LDB, Lei 9394/96, contempla o que determina a constituição, de forma que em seu texto repassa aos sistemas de ensino a liberdade de organização desta gestão baseada nos princípios democráticos e na definição das normas da Gestão Democrática do Ensino. Isso se configura em seu art. 3º, inciso “VIII – gestão democrática do ensino público, na forma desta lei e da legislação dos sistemas de ensino”. O inciso, apesar de abrangente e de manter a proposta democrática na gestão escolar, ainda por si só parece extremamente abrangente, pois deixa em aberto as formas como o processo acontecerá. No Artigo 14 da mesma lei, podemos encontrar, mais explicitamente, como este processo deverá acontecer: “Art. 14: os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios”:
I – participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola;
II – participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. (LDB 9394/96)
No texto da Lei, existe um esclarecimento mais firme sobre as formas de participação que precisam ser oportunizadas para toda comunidade escolar, para que, de fato, aconteça um processo democrático da gestão. Porém, ainda no próximo artigo da LDB, encontramos o que também é fator importante neste processo, a autonomia. Observa-se então o que determina o Artigo 15 da LDB: “Art. 15: Os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro público”, artigo este que evidencia o que é de extrema importância para que se estabeleça a gestão democrática.
Em concordância com a Constituição e com a LDB, que regem o ensino brasileiro, evidencia-se que a gestão democrática como princípio da educação no país e presente nas escolas públicas do país, garante a capacitação da comunidade escolar para que tenhamos cidadãos ativos que participam da sociedade e que
organizadamente e com base nos seus próprios direitos podem lutar contar toda e qualquer forma de abuso de poder.
Segundo a LDB, o processo de gestão democrática tem seu início na elaboração do Projeto Político Pedagógico das escolas, pois é na escola que ele deve ser elaborado, a partir das suas necessidades. O PPP (conforme o denominamos) não pode ser pensado e elaborado longe da comunidade e sem a participação dos profissionais da educação13. Na escola organizada coletivamente, a gestão deve fazer-se valer do diálogo como forma de solução de conflitos. Pensar esta gestão nos parâmetros da lei é apostar em uma nova forma de administrar, uma forma democrática, já que esta deve ser caracterizada pelo diálogo coletivo.