4 A CONSTRUÇÃO DO MODELO DE GESTÃO ESCOLAR
4.1 GESTÃO ESCOLAR E QUALIDADE DA EDUCAÇÃO
Lima (2014, p. 1068) coloca que considerando a linha histórica de alguns países que viveram longos regimes autoritários, como em nosso caso o Brasil é possível encontrar um ideal político – educativo, que traga um maior ―significado democrático e com maior potência transformadora‖. No entanto, o autor afirma que os ideais que aportam este significado democrático e a potência transformadora surgem do assumido enquanto uma utopia que se materializa através da ―gestão democrática das escolas‖. Ainda continuando, o autor aponta que:
Com particular intensidade em certos momentos históricos, a democratização das organizações educativas e dos poderes escolares revela-se bastante para além de um simples resultado, mais ou menos mecânico, da democratização política, afirmando-se ainda como uma importante contribuição para a própria democratização dos regimes e das instituições políticas, da
sociedade e da cultura. (LIMA, 2014, p. 1068)
Para Maia e Bogoni (2008, p.2) a gestão democrática compreende um processo político mediante o qual os sujeitos atores da escola, partindo como princípio básico, o diálogo e a autoridade, “discutem, deliberam e planejam, solucionam problemas e os encaminham, acompanham, controlam e avaliam o
conjunto das ações voltadas ao desenvolvimento da própria escola‖, pressupondo a
participação efetiva de todos os segmentos da comunidade.
Segundo Silva (2007, p. 3), a gestão democrática não se relaciona apenas ao caráter burocrático da administração escolar, perpassando pela natureza social da escola e de seu papel na construção de um sujeito cidadão. Sendo assim, a gestão escolar abarca duas dimensões sendo uma interna e outra externa. A primeira estará relacionada aos quesitos de organização administrativa no que concerne a participação da comunidade nos projetos políticos pedagógicos e administrativos,
enquanto que a segunda volta-se ao social, com vocação de divulgar o conhecimento produzido e sua socialização.
Se é possível neste panorama de normatização jurídica e reflexões acerca do processo gestor da escola, perceber que a formação do sujeito que desempenha a função de gestor incide sobre as práticas e organização da instituição, consolidando o exercício da democracia, logo encontramos um elemento que justifique a criação de programas/projetos para a formação continuada do mesmo.
Mas, que associação podemos fazer entre a gestão da escola e a qualidade do ensino? Se concebermos a escola enquanto um dos agentes responsáveis pela formação do sujeito, tendo como principal objetivo tornar essa formação capaz de levar o indivíduo a atuar socialmente, de imediato pensamos numa gestão comprometida e transparente.
Uma gestão que apresente propostas de trabalho coletivo, que demonstre à comunidade sua disponibilidade para lutar pelos interesses da educação e principalmente a promoção das oportunidades para que os alunos desenvolvam suas capacidades cognitivas e sociais, para sua inserção no mundo do trabalho, a constituição da cidadania, com vistas a uma sociedade igual para todos.
Analisar como a gestão escolar pode influenciar na construção de uma educação de qualidade requer uma compreensão sobre qual a função social da escola conforme apontamos acima. Neste sentido, retomando a discussão sobre a instituição de uma gestão escolar democrática após o período de redemocratização no Brasil, entendemos que existe uma relação forte entre a atuação do gestor escolar e a qualidade da educação.
Estudiosos consideram que o processo de construção da gestão escolar, com viés democrático, passa a ocorrer mediante o fortalecimento das práticas dos conselhos de educação, em diversos níveis e modalidades. Assim, percebermos que, como dispõe Marques (2007), apenas os dispositivos normativos não materializam a gestão democrática e nesse movimento é preciso que exista uma abertura por parte do gestor escolar.
Para Cury (2014), a discussão em torno da qualidade da educação e dos sujeitos responsáveis pela mesma já acontece desde a Constituição de 1946, quando a educação aparece no texto enquanto direito, como também a qualidade. Essa discussão é retomada em vários momentos sendo pontuada também na
Constituição de 1988, no art. 212 garantindo o direito a uma educação de qualidade mediante os investimentos dos entes federados.
No documento da Constituição (1988) é possível apontar outros direcionamentos para a garantia da qualidade da educação na forma da lei, qualidade esta que de acordo com o autor vai ser tratada em diversos aspectos normativos brasileiros como:
Constituição Federal Art. 206 – I - que assevera a garantia do padrão de qualidade;
Art. 3º e 4º, IX da LDB que aponta os padrões mínimos de qualidade, sendo definidos quantidade e variedade mínimas por alunos, de insumos indispensáveis para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem.
Art. 74 da LDB, apresenta uma base capaz de assegurar o ensino de qualidade através do padrão mínimo de qualidade do ensino, através da ação dos Estados e Municípios.
Assim, entendemos que o fato de que as várias normativas brasileiras apontam ao longo do tempo a garantia da qualidade, mas não definem seu conteúdo. Nesse sentido, a compreensão de que vários aspectos são acionados nas normativas com relação à temática e que intrinsecamente falar deste assunto nos remete a pensar em isso se consolida dentro da escola, estabelecendo uma relação direta entre a gestão e a qualidade, busca-se as associações de gestão e qualidade em outros documentos.
O Documento de Referência da Conferência Nacional de Educação (BRASIL, 2009a) refere-se à qualidade da educação no Eixo II, estabelecendo uma relação entre qualidade, gestão e avaliação. No entanto não podemos perceber o documento aponta qualidade, sem relacionar com a participação da sociedade. Gadotti (2013, p. 3) coloca que a garantia dos espaços de participação tem relação direta com a melhoria da qualidade da educação e das políticas educacionais, pois “só participa e aprende quem participa ativamente no que está aprendendo”.
Assim como o autor, o documento do MEC aponta essa relação entre a gestão escolar e a qualidade entendendo que a “garantia do direito à educação, bem como a “organização e a gestão do trabalho educativo, que implica condição de
trabalho, são aspectos ligados à ação do gestor escolar (MEC, 2009a p. 30). Neste sentido não tem como negar a importância do papel do gestor na promoção da qualidade da educação.
Em consonante com as regulações do Governo Federal, o Governo do Estado de Pernambuco aponta essa preocupação com a gestão (esteja ela nas gerências e secretarias dos órgãos públicos ou na própria escola) no seu Programa de Modernização, trazendo no bojo do seu ideal o princípio de responsabilização sobre qual trataremos mais adiante. No entanto, é preciso colocar aqui a preocupação do Governo com a formação dos gestores públicos compreendendo que gestores bem capacitados estarão propícios a desenvolver o projeto de gestão por resultados.
Cabe aqui uma importante reflexão sobre os parâmetros que são trazidos atualmente para exprimir a ideia de qualidade. Contemporaneamente entende-se por qualidade educacional o reflexo dos bons índices educacionais, o que nos leva a pensar sobre a avaliação por trás dos números. O documento da CONAE indica a necessidade da criação destes parâmetros para além das dimensões relacionadas às questões intra e extraescolares em contraponto ao modelo que vem sendo utilizado nos últimos anos através das avaliações em larga escala que funcionam como um padrão.
Especificamente em Pernambuco criou-se um sistema de avaliação local, paralelo ao nacional, organizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, chamado de SAEPE – Sistema de Avaliação da Educação de Pernambuco, o qual dará origem ao IDEPE – Índice da Educação de Pernambuco. Os moldes da avaliação são baseados no padrão nacional, utilizando os mesmos referenciais da produção para obtenção de resultados.
Particularmente, o modelo de avaliação vigente estabelece um ―padrão único de qualidade‖ o qual o documento do CONAE (2009a) apontará como falho levando- se em conta a diversidade regional, de forma que aos alunos matriculados seja garantida a oferta de um ensino que atenda, também, aos seus processos culturais, sociais e religiosos (GADOTTI, 2013). Neste caso, o modelo de gestão precisa basear-se na ideia da escola enquanto espaço público de direito, propiciando um ambiente favorável à aprendizagem e garantir estruturas necessárias para a oferta de um serviço que tenha como objetivo a superação de uma educação seletiva e excludente.
Pensando sobre esta concepção como promotora de uma educação que atenda a todos, a administração da educação ou escolar, assumem um caráter de mediadores ou como condições predeterminantes para a melhoria da qualidade do ensino. Essa visão sobre o papel da gestão escolar nos remete a questão da governança e de como esta se materializa na dinâmica da escola. Poderíamos definir a ―boa governança‖ como a criação de uma rede colaborativa entre as diferentes esferas administrativas em torno de compromissos na busca por uma educação voltada para a qualidade enquanto um aspecto social e não voltado apenas para um quadro quantitativo, atendendo as características mercantilistas.
Sobre este aspecto quantitativo do atual paradigma da qualidade da educação, Almeida (2006) aponta que apesar de a qualidade da educação ser determinante para a qualidade da economia e da política de um país, a economia não deve ditar o que ocorre na educação de maneira que
“a educação não tem como finalidade servir à economia, e sim ser a
indicadora dos caminhos da economia. Não deve ficar de costas para ela, mas não precisa ser sua escrava, nem ter pragmatismo tal que seus índices de eficácia sejam medidos pelas taxas de crescimento econômico‖ (ALMEIDA, 2006 p.15).
Elementos eficiência e eficácia surgem nesse panorama como aspectos necessários para mensurar o processo educacional, no entanto é preciso reconhecê-los enquanto subsídios para a materialização da educação como direito do cidadão tendo ela uma estreita relação com o desenvolvimento social e individual (GADOTTI, 2008).
Para tanto, não podemos dissociar todo este contexto de busca pela qualidade da educação, da gestão escolar. Neste caso, precisamos entender a função do gestor como imprescindível, mas não compreendê-la como única ação responsável pela qualidade, tendo em vista que como já colocamos anteriormente existem outros ―insumos‖ importantes para esse processo de qualificação.
Entender dessa forma que a qualidade da educação terá vieses diferentes sendo voltada ao social quando promover a equidade e voltada ao econômico quando o objetivo for a eficiência e eficácia sem discutir parâmetros que definirão o uso dos recursos, nos leva a outra questão quanto à formação dos sujeitos que fazem a escola.
Gadotti (2013, p. 10) coloca que a formação é estratégica quando falamos de qualidade. Contudo também não há um parâmetro voltado para a avaliação dessa formação. Remetendo essa análise ao trabalho do gestor, entende-se que muitos professores ao assumirem a função técnica na equipe gestora, nunca passaram anteriormente por uma formação a qual ocasionasse subsídios teóricos e práticos capazes de auxiliar na sua atuação frente à administração da escola. Sobre essa ausência de uma formação mais voltada ao aspecto prático, o gestor nas práticas do exercício da função, Lima (2001) aponta que uma das dificuldades dos gestores é o fato de muitos nunca antes ocuparem posições que necessitassem do conhecimento sobre financiamento escolar.
No mesmo texto o autor afirma que muitas das formações continuadas ou até mesmo os cursos de especialização em gestão escolar possuem um caráter instrucionista e assim torna-se apenas mais um mecanismo de transmissão de conteúdo de forma superficial, do que um momento de reflexão sobre a teoria e prática.
Com relação à gestão escolar, o caso do Estado de Pernambuco tem mostrado um investimento voltado para a função do gestor escolar, preocupando-se em formar adequadamente, mediante o entendimento da importância deste sujeito na dinâmica da escola que deverá atender as demandas do novo modelo de gestão pública.
4.2 A FORMAÇÃO DE GESTORES ESCOLARES: UMA AGENDA EMERGENCIAL