Quanto à gestão do colonato do Limpopo, relembrar que pela força do decreto que criou o CSFU, Trigo de Morais foi nomeado superintendente das obras, portanto os poderes jurídico- legislativos do colonato recaíram sobre Trigo de Morais. Afirmando de forma menos técnica, esse decreto fez com que as decisões de Trigo de Morais se transformassem em leis no colonato. Mas, sabe-se que o organismo que lhe conferiu mais poderes legislativos foi a Junta Autônoma de Povoamento Agrário do Baixo Limpopo.186
Há registros que avançam que, passado algum tempo “Trigo de Morais transformou-se
em arbitro supremo de tudo o que se decidia e realizava na área do colonato do Limpopo.”187 Devido a forte concentração de poderes em Trigo de Morais, o colonato não teve uma legislação criativa que disciplinasse as relações dos homens e destes com as diversas instituições.
Trigo de Morais orientou a construção do colonato baseando-se em despachos exarados desde a década de 1920 – momento dos primeiros estudos de irrigação do Limpopo – e a partir de 1952, passaria a contar com a criação da Brigada sob a sua tutela. Nova legislação resultou de suas decisões em colaboração com os engenheiro-chefes da Brigada.
Os poderes legislativos de Trigo de Morais sobre o colonato do Limpopo contribuíram para a sua centralização jurídica, o que repercutiu no isolamento do colonato do resto da colônia e/ou da metrópole. “A expressão adequada para denominar a situação política do colonato foi
de Estado Livre do Limpopo.”188
184 CASTELO, Cláudia. 2007. 185 Ibid. p. 181.
186 Decreto nº 41482, de 28 de dezembro de 1957. 187 MESQUITELA, Gonçalo. 1966, p. 267. 188 LOPES, Manuel dos Santos. 1968, p. 98.
O problema da centralização jurídica do colonato preocupou o governo da colônia e de Lisboa. Diversas medidas foram tomadas e a criação do Concelho do Baixo Limpopo em 1959, nos parece mais uma tentativa do governo de pressionar a descentralização do colonato, todavia da reflexão feita percebemos que a medida agravou a situação, visto que o espaço físico da nova unidade administrativa foi a área de jurisdição do colonato que indiscutivelmente, continuava sendo obra de Trigo de Morais.
Ao nível da colônia era difícil interferir no colonato devido a influência técnico-política de Trigo de Morais e a opção em denunciar a insubordinação do colonato ao governo de Lisboa foi encarrada como insustentável. Por isso, decidiu-se persuadir Trigo de Morais na tomada de algumas decisões sobre o colonato.189
Preocupado com a situação de centralização jurídica do colonato e “(...) com o objetivo
de promover a tão falada integração multi-racial,”190 o governo de Lisboa interviu diretamente
na gestão do colonato do Limpopo e de todos os núcleos de povoamento dirigidos pelo Estado. Percebeu que os problemas do colonato não era tratado com as exigências que se pretendia, por isso decidiu que as medidas fossem planejadas e orientadas a partir de Lisboa. Foi assim que criou as Juntas Provinciais de Povoamento,191 constituídas como um organismo de mais alto nível dos serviços públicos encarregado de coordenar e decidir sobre todos os colonatos.192
As JPP foram um órgão superior da administração pública responsável pela condução e orientação de todos os assuntos referentes ao povoamento de territórios e pela coordenação de quaisquer atividades públicas e privadas que interessavam ao povoamento, independentemente da sua modalidade – seja com famílias negras locais, brancas portuguesas ou estrangeiras.193
Como pode-se perceber pela tardia criação das JPP, o colonato do Limpopo apresentava- se fortemente centralizado e foi devido a essa acumulação de experiência e sua perspicácia que Trigo de Morais interpretou as JPP como organismo criado para tutelar povoamentos futuros por não apresentar uma estrutura técnico-política capaz de interferir na gestão do Limpopo.
“Desde os primeiros anos de funcionamento, as JPP foram criticadas. Apontou-se que eram máquinas burocráticas pesadas, com orçamentos avultados em comparação com os resultados obtidos.”194
189 Entrevista com Alfredo Pírio Mukhavele, realizada em Chókwè, em 28/5/2014. 190 CASTELO, Cláudia. 2007, p. 135.
191 Decreto nº 43.895, de 6 de setembro de 1961. 192 LOPES, Manuel dos Santos. 1968.
193 ALMEIDA, Antônio Lopes de. 1970.
194 CASTELO, Cláudia. 2007, p. 141. Sobre a burocracia das JPP a autora acrescenta que em Angola, por exemplo,
As JPP quase não conseguiram satisfazer os seus objetivos orientadores, por isso, na Sessão de 31 de março de 1965, o governo solicitou ao Conselho Ultramarino uma análise das questões relacionadas com a reforma das JPP. O conselho propôs que deveriam ser dotadas de personalidade jurídica e autonomia administrativa e financeira, porém submetidas à presidência dos governadores de Angola e Moçambique. O conselho sugeriu ainda que as JPP deveriam ser órgãos de estudo, planejamento, execução ou orientação estatal.195 Baseado nessas propostas foi criada a Junta Provincial de Povoamento de Moçambique,196 em que o seu presidente foi o Governador de Moçambique, coadjuvado pelos secretários gerais.
Aprofundando a análise da legislação pontuada até aqui, não obstante o evidente esforço do governo de Lisboa em descentralizar o colonato, percebemos que Trigo de Morais manteve- se legislador absoluto do colonato do Limpopo. Com base na documentação que coletamos e relatos que reunimos, concluímos que as decisões tomadas em Lisboa não tiveram repercussão desejável no Limpopo, a prova disso é a longevidade da JAPABL que constituiu o suporte dos poderes jurídicos de Trigo de Morais. “O Decreto 25/71, de 3 de fevereiro de 1971, extingui a
Junta Autônoma de Povoamento Agrário do Baixo Limpopo.”197 Como pode-se verificar, essa decisão e mesmo a criação da JPPM foi tomada depois da morte de Trigo de Morais em 1966.
Dada essa apresentação dos organismos instituídos para a gestão do colonato, passamos a apresentar algumas leis, reafirmando que Trigo de Morais preocupou-se em disciplinar os colonos no relacionamento entre si e com as infraestruturas do colonato. Desdobrou-se em manter o bom funcionamento dos canais de rega, orientar o uso e aproveitamento da terra, além de combinar algumas penalidades, mas a transformação dessa disciplina em lei foi escassa, pois essa legislação limitou-se apenas em fixar determinadas situações criadas ao nível interno.198 Como pode ser verificado a partir dos seguintes instrumentos de lei:
(i) Regulamento para fiscalização, exploração e conservação das obras hidroagrícolas
do colonato do Limpopo199 que, não obstante a sua importância para qualquer núcleo agrário, apenas conheceu a forma de lei, sete anos depois da inauguração do colonato e provou-se que contrariou em muitos aspetos as expectativas dos camponeses. “No regulamento faltou, na
realidade, uma forma jurídica de aplicação das sanções nele previstas;”200
195 Idem.
196 Decreto nº 47803, de 20 de julho de 1967. 197 Diário do Governo, I Série, nº 25, p. 97. 198 LOPES, Manuel dos Santos. 1968. 199 Portaria nº 15.179, de 22 de julho de 1961.
(ii) Estatutos da cooperativa agrícola do Limpopo,201 que teve que lutar com a falta de matéria-prima e simultaneamente a inexistência de uma direção constituída pelos associados, pois desde a sua fundação foi gerida por uma comissão administrativa, cujas deliberações eram dependentes da aprovação ou rejeição da tutela exercida pela superintendência da Brigada;202
(iii) Regulamento de exploração das obras hidroagrícolas do colonato do Limpopo,203
substituiu o, já abordado, Regulamento para fiscalização, exploração e conservação das obras hidroagrícolas do colonato do Limpopo; e
(iv) Associação de rega do colonato do Limpopo, cuja constituição provou o fato de que
parte das leis do colonato começaram como práticas rotineiras e decisões unilaterais de Trigo de Morais e depois transformarem-se em letra de lei. Essa associação foi autorizada, após algum tempo de funcionamento, pelo Despacho de 19 de fevereiro de 1955, para depois ser enquadrada no Diploma-legislativo nº 2.362, de 11 de maio de 1963 e finalmente, juridicamente constituída pela Portaria nº 17.186, de 12 de outubro de 1963.204