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Capítulo 5 Apresentação e análise dos resultados

5. Gibraltar: sociedade em constante transformação

A sociedade gibraltarina sempre esteve em constantes transformações sociais, desde o início da sua história até aos dias atuais. No entanto, nestas últimas décadas, as mudanças têm sido mais significativas no campo social e económico.

Neste tópico, procurou-se conhecer como era antes Gibraltar e identificar as transformações verificadas através das experiências de vida e dos percursos pessoais de cada um dos entrevistados. Interessou-nos saber se houve mudanças e se essas mudanças foram expressivas ou se trouxeram algo significativo para as suas vidas, e qual a avaliação que fazem dessas mudanças. Um dos entrevistados que é residente, e responsável pela Câmara do Comércio de Gibraltar acredita que Gibraltar mudou muito fisicamente com as novas construções, novos edifícios, e que os últimos 15 anos as mudanças foram consideráveis, sobretudo no que respeita a investimento financeiro.

Também acredita que, em termos de sociedade, Gibraltar está cada vez mais multicultural:

“- Mas em Gibraltar sempre houve uma história de diversidade de cultura?

- Sim, verdade, mas nunca como nestes últimos anos, parece muito mais concentrada agora. Talvez, há 15 anos existiam 2 ou 3 restaurantes internacionais. Agora há muito mais e bastante diversificado.” (Homem, 53 anos, funcionário da câmara do comercio, inglês, pai inglês, mãe inglesa).

As narrativas variam também de entrevistado/a para entrevistado/a, dependendo do percurso e da experiência de cada um, embora a maioria relate que as mudanças foram positivas, sobretudo os nativos que pertencem a uma faixa etária mais velha, por terem vivido mais tempo em Gibraltar, relatam de forma mais expressiva essas mudanças. Um nativo narra que a vida era muito dura anteriormente.

“Agora está muito melhor, não te esqueças que nasci aqui, como os meus pais e os meus

avós. A vida foi muito dura quando a população teve de ser evacuada na Segunda Guerra Mundial e Gibraltar se transformou em uma fortaleza militar. Quando os habitantes voltaram, começou a construção de Gibraltar em todos os sentidos. Agora temos a nossa própria constituição, e a Inglaterra só intervém em assuntos de segurança, como não podia ser de outra maneira. Somos praticamente autossuficientes e não recebemos praticamente nada do Reino Unido. Com certeza as coisas melhoraram sobretudo com o tempo moderno, as coisas estão muito melhores.”(Homem, 68 anos, reformado, gibraltarino, pai gibraltarino de origem portuguesa, mãe gibraltarina).

Outra nativa também comenta que as mudanças foram significativas para ela: “Acredito que sim, mudou e muito! Quando era pequena, aqui, vivíamos aqui em oito irmãos e tínhamos dois quartos, eram muitas camas, umas em cima das outras. Não tínhamos água corrente, tínhamos que pegar água de uma bomba de um poço de fora. A vida de trabalho era muito dura para as mulheres. Hoje a vida está muito mais fácil para nós. Então, muita coisa mudou de lá para cá? Bastante, melhorou muito!” (Mulher, 69, enfermeira, gibraltarina, pai gibraltarino de origem judaica, mãe espanhola).

Um entrevistado nativo acredita que os fundamentos e as boas intenções não mudaram, ao contrário, com o passar do tempo tem a impressão de que as pessoas estão mais unidas. Também mencionou que ocorreram certas mudanças económicas e sociais. Antes existia mais distinção entre as classes sociais: “Antes existiam famílias tradicionais, mas agora parece que tudo está muito misturado. Parece que hoje todo mundo ganha dinheiro, e claro as mulheres hoje em dia quase todas trabalham.” (Homem, 61 anos, advogado, gibraltarino, pai gibraltarino origem francesa, e mãe gibraltarina origem judaica).

Os entrevistados/as residentes também confirmam essa mudança, assim como o crescimento económico, tratando-se de comércio local e prestações de serviços.

“Sim, a mudança foi muito grande. Agora as coisas estão muito melhores, a comida, as ruas

mais limpas, as lojas são melhores, a nível de trabalho também mudou muito, tudo parece que está muito mais internacionalizado, cosmopolita.” (Mulher, 53 anos, professora, alemã, pai

alemão, mãe russa).

“Sim, mudou bastante, esta zona em que estamos agora antes não existia, houve uma mudança muito grande e em tudo, na construção e edifícios, na alimentação também, abriram muitos restaurantes, atividades para as crianças.” (Mulher, 37 anos, empresária, dominicana, pai dominicano origem libanesa, mãe dominicana).

Outra entrevistada não-residente que vivenciou vários períodos em épocas diferentes em Gibraltar narra que as mudanças foram importantes também na forma de pensar e na questão do trabalho: “Antes era muito mais fechado, uma mentalidade muito diferente, comparando agora, houve muita modernização, muito trabalho. Em Gibraltar não falta trabalho, as coisas funcionam muito melhor, claro isso é graças ao mundo digital. Agora é melhor para gerenciar tudo, não era como antes.” (Mulher, 52 anos, empresaria, inglesa, pai inglês, mãe inglesa).

Segundo um outro entrevistado melhorou a questão do controlo com as entradas e saídas em Gibraltar mas intensificou-se a quantidade de construções de habitação e aumentaram os preços.

“Algumas coisas estão melhor. Mas quando cheguei cá há 9 anos o problema da fronteira

era pior, havia muita confusão, lentamente está a melhorar o problema de controlo e da fila. Acho que o que está a piorar em Gibraltar é que se está a se construir demasiadas, habitações a preços que os trabalhadores normais não podem pagar, uma construção de luxo, o que está trazer problemas a nível ecológico. É um sítio onde não há limites de carros, entram demasiados carros em Gibraltar.” (Homem, 41 anos, contabilista, português, pai angolano, mãe portuguesa).

Os motivos das mudanças narradas pelos entrevistados/as variam entre nativos, residentes e não-residentes, conforme o percurso da sua história pessoal e dos seus vínculos com Gibraltar mas conclui-se que essas mudanças, sobretudo no desenvolvimento económico e social nestes últimos tempos, foram relevantes. A distribuição de poder e riquezas, diminuindo as diferenças com o aumento do comércio, a diversificação cultural, as

melhorias de qualidade de vida e trabalho, o aumento de prestações de serviços e comércios locais, o sistema de controlo fronteiriço permitindo maior flexibilidade na fronteira.

Por outro lado, alguns deles demonstraram preocupação com a excessiva construção de edifícios e com o aumento nos preços das habitações, assim como o acréscimo de circulação de veículos sem nenhum controlo.