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3. A OBRA VICENTINA: REESCRITA EMPREGANDO A TECNOLOGIA DIGITAL EM SALA DE AULA

3.5. POR QUE GIL VICENTE E O AUTO DA BARCA DO INFERNO?

Discorrer acerca do teatro português, em especial, acerca de Gil Vicente, remonta a uma breve análise sobre o teatro medieval. Já analisamos Gil Vicente e sua época e as personagens vicentinas do Auto da Barca do Inferno. Devemos, portanto, considerar como o Cristianismo suscitou na Europa um modelo de vida, de arte e de religião. Tudo isso servirá como instrumento para a manipulação sociocultural da Igreja, tal manipulação é retomada por Gil Vicente, no Auto da Visitação, em 1502, texto que inaugura o teatro popular em Portugal.

Vimos que o mundo medieval é o resultado da mistura das estruturas que estavam em transformação: as estruturas romanas e as estruturas bárbaras. A igreja católica retoma o texto teatral em um contexto onde o Cristianismo era essencialmente a religião do medo e do castigo. A igreja cativou o medo do poder de Deus sobre a vida terrena e sobre a vida além-túmulo, e, dessa maneira, tinha o povo sob o seu total comando. As produções teatrais estavam arraigadas ao dogmatismo religioso, entretanto, não perdiam o caráter lúdico que provocava o riso fácil e levava à diversão, além de assumir vital importância nas relações sociais.

O teatro, além da disseminação ideológica, da disseminação de obediência e da submissão de valores da época, implicava na manutenção de seu status quo. Ele era uma maneira de entretenimento popular, e igualmente, um excelente mecanismo de manipulação. O caráter popular é resultado do fato de que as representações eram dirigidas tanto à classe dominante quanto às camadas do povo. Através do

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texto teatral revelava-se o sentimento da fé e alguns valores éticos, além de provocar o riso.

Há muitos elementos simbólicos que asseguram a presença marcante da imposição da fé cristã na vida social medieval e, também, na vida do próprio autor Gil Vicente. No Auto da Barca do Inferno podemos destacar, por exemplo, as cruzadas, que resgatam a imagem simbólica dos Cavaleiros de Cristo que chegam cantando ao porto, não são questionados e são acolhidos pelo Anjo.

O teatro vicentino, nasce, portanto, em um período de transição do feudalismo para o capitalismo mercantil, havia muitas mudanças políticas e sociais em Portugal naquela época, e alguns dogmas católicos estavam em conflito com o pensamento moderno.

Esse período foi marcado por três momentos históricos: nova forma de buscar conhecimento dos acadêmicos clássicos (humanistas), nova perspectiva do cristianismo iniciada por Martinho Lutero com a Reforma Protestante, a expansão ultramarítima, que termina nas grandes navegações e na descoberta da América.

Em Portugal, no período medieval, o auto era tido como uma denominação genérica para todo e qualquer tipo de peça de cunho profano ou religioso. Aqui, no Brasil, Ariano Suassuna, professor, teatrólogo e romancista que sempre esteve interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressões populares e tradicionais, intitulou algumas de suas peças de auto, pois ele valia-se do caráter religioso e popular de seu teatro. Destacamos o Auto da Compadecida, uma das obras-primas da comédia brasileira.

No Auto da Barca do Inferno temos uma gama variada de vícios e algumas virtudes, e também temos o Céu e o Inferno como um esforço de compreender e refletir o sentido da vida. O Auto da Barca do Inferno representa uma resposta ao questionamento sobre o destino imposto pela morte e sobre as consequências sobrevindas das escolhas realizadas durante a vida terrena. O cenário tem duas barcas, uma com destino ao inferno, e outra com destino ao céu, que estão em uma espécie de porto. Os seus comandantes aguardam as almas que seguirão ao paraíso ou ao inferno.

Essa representação traduz a essência e a existência humana, cujo fundamento é ver por trás das ações a principal relevância das virtudes morais como pontes seguras para se chegar ao paraíso ou possuir as virtudes.

O ser humano, mesmo no presente século, procura incessantemente por virtudes morais, e tenta desvendar como e por que é possível chegarmos ao Céu ou ao Inferno. Por essas indagações acerca da essência humana, ou seja, por ter como objetivo que ao sabor do texto o aluno identifique o ser humano que sofre mudanças com o passar do tempo, mas que tem suas virtudes morais e religiosas que são permanentes, é que escolhemos como corpus para leitura dos nossos alunos o livro Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente.

3.6. A PREOCUPAÇÅO COM O EMPREGO DE ESTRATEGIAS

DIVERSIFICADAS.

Não há como um professor, comprometido com sua atuação profissional e responsável por ela, não levar em consideração a necessidade de repensar suas estratégias metodológicas. Embora tenhamos professores que ministrem as aulas de uma única maneira diariamente, há anos, sem propor atividades que desencadeiem a curiosidade e sem propor atividades que façam os seus alunos sentirem-se desafiados.

O aluno, hoje, é um ser dinâmico, inquieto e tem em seu bolso um celular cheio de jogos e que o mantém em contato com toda a gama que o mundo tecnológico oferece. Freire (2009), há algum tempo, já declarava que não tinha dúvida nenhuma do enorme potencial de estímulos e de desafios à curiosidade que a tecnologia põe a serviço das crianças e dos adolescentes.

Apesar disso, o professor não pode se comparar a um equipamento tecnológico, no entanto, deve utilizá-lo como uma ferramenta de apoio e não como um concorrente perigoso, mesmo porque essa concorrência, por muitas vezes, é muito mais dinâmica do que conseguimos acompanhar, todavia, o papel do professor como mediador é essencial.

Por isso o educador sábio modifica suas estratégias constantemente com o intuito de alcançar os objetivos de ensino-aprendizagem, por isso, ele reconhece que é um elemento essencial nesse processo, ele pode despertar o prazer pelo estudo. Segundo Freire (2009, p. 38), “a tarefa coerente do educador que pensa

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certo é, exercendo como ser humano a irrecusável prática de inteligir, desafiar o educando com quem se comunica e a quem comunica.”

Uma dificuldade docente latente é encontrar o equilíbrio entre as exigências do sistema e as necessidades e ansiedades dos alunos no processo de aprendizagem, por isso, Vasconcellos (2004, p. 08) afirma que

Quando estamos sendo 'porto seguro', temos de questionar: Até que ponto não deveríamos ser 'mar aberto', incentivar a participação do grupo?

Quando estamos sendo 'mar aberto', precisamos manter a tensão: Até que ponto não teríamos de ser 'porto seguro', amarrar, sistematizar, intervir?

Manter essa tensão interna é a arte do professor [...]

O professor não precisa temer e, sim, dominar a máquina e aproveitar o potencial da tecnologia em proveito de um ensino e uma aprendizagem mais criativa, autônoma, colaborativa e interativa.

Frequentemente, nos deparamos com estudantes desmotivados e que têm, também, professores desmotivados, esses professores não propõem atividades diferenciadas aos alunos porque, enquanto alunos, não vivenciaram nada de inovador também e por isso, têm medo de ousar. Assim, continuamos um ciclo infindável.

O professor que na prática ousa, traz propostas efetivas que muitas vezes, e na maioria delas, não são frutos de experiências vivenciadas enquanto discentes, mas frutos da reinterpretação de um discurso pedagógico e da realidade. Eliana B. C. de Albuquerque (2006, p. 15) em seu livro Mudanças Didáticas e Pedagógicas no Ensino da Língua Portuguesa cita Marc Weisser que explica essa realidade ao dizer que

os saberes não são fruto de uma transmissão, mas de uma apropriação e de uma produção; eles são ligados ao autor profissional e à sua pessoa. A formação do professor tomará não o aspecto de uma transferência de conhecimentos descontextualizados, mas uma reinterpretação de um discurso pedagógico próprio a cada um dos formados.

O professor não deve esperar por estratégias com receitas prontas e extraordinárias, ele precisa criar propostas, apresentá-las, compartilhá-las e discuti-

las com seus colegas para reflexão e desenvolvimento de projetos e, por fim, para avaliação dos resultados.

O educador não deveria solicitar uma leitura de livro, sempre da mesma forma, em seguida, aplicar uma prova que contempla as mesmas questões aplicadas em vestibulares ou em provas de anos anteriores. Infelizmente, muitos professores têm exatamente essa estratégia, eles pedem aos alunos que adquiram o livro, o mais rapidamente possível, indicam a livraria, divulgam o valor e agendam uma avaliação escrita, com perguntas e respostas, extremamente, objetivas acerca do enredo em questão. Assim, o aluno, não consegue vislumbrar outros objetivos para a leitura obrigatória a não ser a realização de uma prova e a obtenção, ou não, de uma nota.

A leitura, que deve ocupar a base do processo de ensino-aprendizagem, acaba por ser uma atividade desmotivadora, sem qualidade e sem objetivo claro e bem definido.

A partir dessa preocupação com os instrumentos de avaliação para verificação de leitura de um livro nasceu a proposta de trabalho que é o mote desta pesquisa. Essa proposta de trabalho será descrita a seguir.

3.7. AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÅO E COMUNICAÇÃO E A