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Pedagogias Afrofemininas e Antirracistas: tecendo nossas metodologias formativas

MARIENE E AS GANHADEIRAS

4.2. GIRANDO A RODA: E O PROJETO COMO INICIOU?

Giramos a roda, quando nos aquilombamos no Djalma, como um território da diversidade de raças, de gêneros, de culturas e de infâncias. Nosso aquilombamento, construiu nosso coletivo de mulheres e professoras pretas, que começou a trabalhar com uma educação antirracista em que dialogasse com a diversidade das crianças pequenas. Durante nossas diferentes ações voltadas para as relações étnicos - raciais, começamos a observar que muitas crianças pequenas demonstravam não gostar do seu cabelo e nem da sua cor da pele. Isto é, não gostavam do seu corpo enegrecido, ambos símbolos de nossa

enchente, em Salvador. Além desse fato, várias famílias que saíram de outros municípios da Bahia se instalaram aqui, evidenciando uma grande pluralidade racial, religiosa e cultural.

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identidade.

Além disso, começamos a questionar nossa prática pedagógica a qual decalcava uma concepção patriarcal, racista, sexista e embranquecida. Por ter acesso a uma cultura brancocêntrica, nossas crianças apresentavam preferência por personagens brancos, destoando de sua ancestralidade diaspórica. Outro ponto que observamos, como mencionado no capítulo três, as mães e avós, em sua grande parte, eram as mantenedoras da família, sofriam com frequência violência, apresentavam baixa autoestima e partilhavam todo esse sofrimento com as crianças do Djalma.

Imbrincadas nessa realidade, questionávamos como trabalhar com crianças pequenas uma temática complexa e delicada. Em virtude de que foi disseminado pela sociedade que o racismo, não é observado na educação infantil com as crianças pequenas. Porém, diferentes estudos apontam o contrário (OLIVEIRA e ABRAMOWICZ, 2010; CAVALLEIRO, 2018; SANTIAGO, 2015), que existem sim, práticas racistas camufladas e silenciadas nos territórios infantis. A partir dessa constatação dos referenciais teóricos e de nossas práticas cotidianas, iniciamos um trabalho com projetos pedagógicos, cujo objetivo seria valorizar a mulher negra enquanto referência identitária para nossas crianças pequenas, para as professoras e para a comunidade.

Com a circularidade da roda, fomentamos o trabalho com personalidades femininas negras, as quais poderiam auxiliar nossas crianças em sua caminhada identitária e enegrecida, dentro de nossa sociedade embranquecida, colonizada e racista. Diante do exposto, em 2015, coletivamente, construímos um projeto pedagógico por meio da vida e obra de uma personalidade feminina negra. Escolhemos Mariene de Castro, uma mulher negra, mãe, cantora e atriz, que nos apresenta um empoderamento em seu canto e em sua personalidade.

Nessa perspectiva, concordamos com Zilma Ramos de Oliveira (2020), quando ela afirma que a pedagogia de projetos propicia a criança experiências com os objetos da cultura, os quais elas vão tecer redes de significações. Mas, ao refletirmos o que a autora propõe, vamos além, ao acreditarmos que o projeto, não só possibilita aprendizagens para as crianças. Mas também, para as professoras e toda a comunidade, quando elas estão inseridas verdadeiramente neste processo.

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o berçário ao Grupo 5. Mas, cada professora definiu suas atividades a partir de suas pesquisas e das demandas do grupo. Entretanto, em nossos diferentes diálogos com as professoras e em nossas pesquisas, nos deparamos com a música Garaximbola, onde as Ganhadeiras de Itapuã faziam uma participação e cantavam sobre suas vidas. Sendo Cristiane Melo, professora do Grupo 3, nascida e criada em Itapuã58, a mesma revelou estar emocionada com a música. Diante desse encontro, ao ser tocada com a matripotência e a ancestralidade das Ganhadeiras de Itapuã, Cristiane Melo, escolheu essas mulheres para comporem o projeto com Mariene, o qual foi desenvolvido no Grupo 3.

A partir da escolha das personalidades, definimos diferentes ações curriculares embasadas com as Diretrizes Curriulares para a Educação Infantil e com as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico Raciais e para o Ensino da História Afro-brasileira e africana. Amparadas nos dispositivos legais, apresentamos a história de Mariene e das Ganhadeiras, às nossas crianças por meio de suas influências afrobrasileiras que perpassam pela culinária, pela história, pela música e pela arte. Para que as crianças experenciassem em seus corpos a ancestralidade diaspórica que compõem a identidade em ser menina e menino negro, uma vez que o processo de construção identitária para a criança pequena se constitui desde a infância.

Por conta disso, a partir desse momento, iremos narrar e problematizar de forma crítica, algumas ações pedagógicas afrocentradas do projeto: Mariene a flor que

desabrochou nossa gente59, que foi aplicado aproximadamente de abril a outubro de 2015, no Grupo 3 pela professora Cristiane Melo60, no CMEI Dr. Djalma Ramos.

4.3. QUEM É MARIENE DE CASTRO61?

A sambista Mariene Bezerra de Castro desde pequena teve contato com a música através de sua família. Ao ser matriculada para aula de violão, se interessou pela aula de

58 Bairro na cidade de Salvador, no estado da Bahia, onde as Ganhadeiras vivem e desenvolvem seu projeto. 59 Com esse projeto, em 2015, a professora Cristiane Melo ganhou o Prêmio Professores do Brasil na

categoria: estadual, regional e nacional.

60 Em 2018, o projeto: Mariene a flor que desabrochou nossa gente, foi selecionado entre diferentes projetos

premiados, para fazer parte do Banco de Práticas Inspiradoras alinhados a BNCC, em parceria com o Instintuto Alana e o Ministério da Educação. Nesse banco, qualquer professor pode acessar e conhecer o projeto. Disponível em: < https://www.facebook.com/institutopeninsula/videos/1803762223034960 > Acesso em 20 de ago. De 2020.

61 Trechos da biografia de Mariene de Castro. Disponível em: <http://www.dicionariompb.com.br/mariene-

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canto. Na escola de música descobriu o potencial raro de seu canto: o contralto. Mariene, como toda baiana começou sua trajetória musical no axé, como vocal de apoio da timbalada, entre outras bandas baianas. Em 1996, foi convidada para fazer seu primeiro show, lá tinha alguns franceses que ao perceber o potencial da cantora, a convidou para fazer uma turnê pela França. Nesse país sua voz foi comparada a cantora renomada e aclamada, Edith Piaf. Ao retornar ao Brasil, a carreira de Mariene deslanchou, fazendo apresentações importantes e grandiosas. Com uma forma peculiar de interpretar e uma voz firme e singular, Mariene foi firmando seu nome e conseguiu destaque no cenário musical após conquistar em 2004, o Prêmio Braskem de Música e ter a oportunidade de gravar seu primeiro CD: Abre Caminho. Resgatando tradições, amadurecendo como artista e cantando o que gosta, Mariene de Castro com seu samba lançou o DVD "Santo de Casa - Ao Vivo" e cada dia vem buscando se reinventar, além de mãe, mulher negra, cantora, ela também, é atriz.

4.4. QUEM SÃO AS GANHADEIRAS DE ITAPUÃ62?

O grupo as Ganhadeiras de Itapuã, surgiu em março de 2004, nos terreiros das casas de Dona Cabocla e de Dona Mariinha, onde um grupo de mulheres motivadas pelo interesse no fortalecimento da identidade cultural de Itapuã se reunia semanalmente para trocar informações sobre as antigas tradições do lugar. Assim, surgiu o grupo: As

Ganhadeiras de Itapuã, batizado com este nome em homenagem às mulheres que no século

XIX e início do século XX compravam os peixes na mão dos pescadores locais, tratavam, empalhavam, e saiam com seus balaios a pé, até o centro da cidade de Salvador para venderem os seus produtos e ganhar o sustento da família. Das rodas de conversa e samba, as Ganhadeiras construíram: um repertório de cantigas e sambas de roda. O grupo conta com a participação de crianças, músicos - que tocam instrumentos de corda e percussão - e diferentes mulheres (Cantadeiras, Ganhadeiras, Lavadeiras) que com suas vozes cantam e encantam as tradições oo povo negro. Em 2019, as Ganhadeiras foram homenageadas ao serem o enredo da escola de samba Viradouro.

62 Trechos da história sobre a criação das Ganhadeiras de Itapuã. Disponível em: <

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