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GLORIA PRECOCE: ALMANAQUE OBJETO DE TESE

Foi defendida, no dia 23 de março do corrente ano, no Salão Nobre da Universidade Reunida Duque de Caxias, uma tese de mestrado, intitulada O Ecletis­

mo como coerência ideológica num mundo em crise: contribuição para o estudo das revistas de cultura no Brasil. O jovem autor, Prof. Belizário Palermo Filho,

é discípulo de Bento Prado Jr., orientador da tese na área de História das Idéias Filosófico-Literárias II. O trabalho tem por objeto os três primeiros números de Almanaque. Depois de uma primeira parte, onde se estudam, com minucioso espírito científico, os ca­ racteres externos da publicação (tamanho, tipo de-pa- pel, capa, diagramação, etc...), passa-se à organização do material, por autor e por assunto; apresentam-se os colaboradores e tecem-se comentários sobre o grupo de Almanaque. A partir daí é possível chegar ao miolo da tese, onde se estudam o significado e o estilo das principais colaborações, procurando detec­ tar, através da análise semiológica, os seus ideologe- mas-chave, para chegar finalmente a inserir a publica­ ção num contexto histórico-social mais amplo. Na última pãrte, há utilíssimos apêndices, com índices de autores e assuntos e entrevistas com alguns dos participantes do grupo.

A esta resenha interessa destacar a descoberta central — eixo da tese — ao redor da qual se articulam várias outras verdadeiramente surpreendentes. O autor teria descoberto que Almanaque se faz através de um siste­ ma de disfarces. Assim é que os artigos aparentemen­ te sem importância são aqueles que, se bem analisa­ dos, revelam a linha da publicação. Também os auto­ res mais citados, cujas assinaturas se assemelham a no­ mes verdadeiros, são pseudônimos, sendo reais aque­ les nomes que pareciam fictícios. Dessa maneira, des­

(1) Almanaque agradece à Pxofa. Dra. Ligia C hiappini Mo­ raes L eite, m em bro da banca exam inadora, que gentil­ m en te nos cedeu sua argiiição, a partir da qual pudem os co m p o r esta resenha.

cobre-se, por exemplo, que Walnice Nogueira Galvão nunca existiu, sendo apenas um apelido verossímil de Beletriz Maria de Jesus, doutora em Letras pela Uni­ versidade de Coimbra que, nascida no Brasil, foi para Portugal ainda jovenzinha, tendo regressado há dez anos, inteiramente formada, Ainda em Portugal, de- dicou-se a estudos de literatura brasileira erudita, sen­ do autora de várias obras sobre escritores brasileiros, assinadas com 0 já popular pseudônimo. Uma vez no Brasil, especializou-se em literatura marginal e sublite­ ratura, vindo a publicar ensaios e contos com o nome verdadeiro.

Também depois de pacientes pesquisas, o autor averi­ guou que Almanaque, embora apareça como rigida­ mente hierarquizado, com distinção entre desenhista, diagramador, coordenadores, mesa de redação, editor e autores, o que faz crer na existência de um grupo organizado, com reuniões periódicas e tarefas claras e distintas, na realidade não era bem assim. O esquema é aqui um antiesquema. Anárquico, embora acadê­ mico, 0 grupo só era convencional na superfície. O próprio local de publicação não correspondia ao local da produção, pois esta se fazia de maneira dispersa, dividida entre dois centros dominantes: Paris e Parati. Aparentemente sem princípios, no entanto, logo no segundo número aparece um manifesto teórico, “ 19 princípios da crítica”, enviado pelo correspondente parisiense que julgou conveniente explicitar alguns dos elementos que, por excessivamente implícitos na “Apresentação” e “Desapresentação” do primeiro nú­ mero, passaram despercebidos à maior parte do públi­ co. Aliás, na referida argüição da tese, a Profa. Dra. Ligia Chiappini Moraes Leite fez questão de dizer que sempre achara os dois textos bastante “crípticos” . Ainda quanto aos “ 19 princípios” há um problema que, há muito tempo, intriga à exegese: o estranho al­ garismo ímpar, que contraria o espírito de simetria próprio do gênero. Seria assim no original? O autor

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limita-se a levantar duas hipóteses, igualmente válidas: ou o 209 princípio ter-se-ia extraviado no trânsito Europa-Brasil, ou uma imposição da censura, interna e/ou externa ao grupo, teria provocado o corte. Sempre apontando o jogo de disfarces em Almana­

que, o autor comenta a ambigüidade dos próprios ca­

racteres externos: do desenho da capa ao tipo de pa­ pel, a mistura de simplicidade e requinte. Quanto às significações implícitas no desenho de Cláudio Tozzi, vão de simples massa encefálica a figuras de mulheres nuas dentro do atormentado cérebro;

Desvendando esse sistema de ambigüidades e másca­ ras, o autor descobre ainda que, ao contrário do que parece, o artigo mais importante, que define a linha filosófico-estético-ideolôgica do seu objeto é o “Jogo de Almaqneu” . Tal afirmação é minuciosamente de­ monstrada por um procedimento inédito: a compara­ ção entre esse texto e a “Crítica da ‘Razão’ Elitista” . Pasma o leitor a descoberta de relações insuspeitadas, da coerência subterrânea entre dois artigos aparente­ mente tão contrários entre si. Na verdade, o autor só conseguiu chegar a esse resultado porque teve acesso aos arquivos onde eram guardados os originais recusa­ dos ou aguardando nova deliberação (aliás, diga-se de passagem que, embora, tenha peneirado a poeira do fundo não achou o 20? princípio que faltava). Mas, como dizia, o acesso a esses arquivos permitiu-lhe en­ contrar um inédito que explicitava as relações entre os dois textos acima referidos. Trata-se da anunciada “Crítica da ‘Razão’ Ácida” , cuja leitura revelou que a “Crítica da ‘Razão’ Elitista” e o “Jogo do Almaqneu” são o mesmo texto, compondo uma estrutura especu­ lar (influência da prosa hispano-americana contempo­ rânea e da poesia concreta, além de, na sua intertex- tualidade, dialogar com o mito de Narciso). O texto e

seu reflexo (qual o texto? qual o reflexo?) instauram uma só isotopia, como assim se demonstra:

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= onde: o absurdo é verossímeL

52 L4

Destarte, com o bem formulou a argüidora, “todos os textos da publicação, por mais disparatados que fos­ sem, adquiririam seu verdadeiro e unívoco sentido, quando postos na perspectiva das articulações do Sis­

tema Almanaque. Logo, se recusarmos o sistema co­

mo sistema e propusermos como tal um anti-sistema, a assistemática aparecerá como determinada pelo Mundo em Crise” . •

Eis aí o difícil m om ento, a passagem tão bem realiza­ da pelo autor que, inteligentemente, consegue passar da análise estrutural imanente à inserção de Alm ana­

que no contexto das séries extraliterárias.

É preciso dizer, ainda, como bem observou a autora da referida argüição, que “a tese inova porque é a pri­ meira a ser feita sobre uma publicação em curso. A velha concepção positivista e historicista de que só são objetos de estudo os textos imobilizados no tem ­ po é aqui substituída pelo flagrante do processo” . De fato, o aparecimento de uma tese como esta, tão inovadora e original, lança, talvez a contragosto, luzes sobre “a aceleração cada vez mais rápida do processo” .

É o que nos leva a indagar: O consumismo que tudo deglute já terá superado a simpática publicação? Co­ mo enfrentará ela a sua glória precoce? Sobreviverá a invenção livre a sua codificação acadêmica? Ou esta tese vem profetizar o absoletismo de Almanaque'!