CAPÍTULO 4: ESTUDO DE CASO: ANÁLISE ESPACIAL DA MOBILIDADE NA
4.3 Goiânia: Plano Diretor e Mobilidade Urbana
A mais recente legislação urbanística, o Plano Diretor de Goiânia - PDG (Lei Complementar n° 171, de 29 de maio de 2007), em síntese, explora os temas: modelo espacial, perímetro urbano, macrozoneamento da área urbana e rural, macro rede viária básica, sistema de transporte coletivo, desenvolvimento econômico, programas especiais e vazios urbanos. Tais tópicos foram estruturados em seis eixos estratégicos que versam sobre sustentabilidade socioambiental, ordenamento territorial, mobilidade/acessibilidade e transporte, desenvolvimento sociocultural, desenvolvimento econômico e gestão urbana.
De modo geral, entre os principais objetivos incorporados neste PDG (2007), têm-se premissas como a construção de uma cidade mais compacta; criação de corredores exclusivos de ônibus; promoção da geração de renda e emprego; promoção de uma política habitacional para estratos sociais mais baixos; implantação de programas especiais para revitalização; reurbanização e requalificação urbana; incentivo a projetos em áreas de interesse social e modernização administrativa. O município de Goiânia, de acordo com o PDG, ficou subdivido em duas macrozonas: construída e rural. Na porção rural, estão: Capivara, João Leite, São Domingos, Lageado, Alto Anicuns, Alto Dourados e Barreiros, conforme ilustra a Figura 32:
Com relação à macrozona construída, o plano diretor apresenta um modelo espacial, no qual é possível verificar a subdivisão em seis áreas: i. áreas adensáveis: aqui são incentivadas maiores densidades habitacionais e de atividades econômicas, sustentadas pela rede viária e de transporte; ii. áreas de desaceleração das densidades: nessas áreas as ações são no sentido de desestimular o atual processo de densificação urbana; iii. áreas de adensamento básico: áreas de baixa densidade, para as quais será admitida a duplicação dos atuais padrões de densidade; iv. área especial de interesse social, para promoção da habitação social; v. áreas de uso sustentável: são aquelas contíguas às áreas de preservação permanente; e vi. áreas de restrição aeroportuária, referentes aos espaços adjacentes ao aeroporto de Goiânia (Figura 33).
Figura 32: Macrozona construída e Macrozona rural. Fonte: Ferreira, 2013, Plano Diretor (2007).
Em relação à abordagem relacionada à mobilidade urbana, Kneib (2012) destaca que:
[...] no plano da cidade de 1938 havia prioridade para as avenidas principais e abordagens sobre a largura das vias. No plano de 1964 priorizava-se o sistema viário. Nos planos de 1964 e 1992, chega-se a mencionar o transporte coletivo, mas a prioridade ainda são as vias. Apenas no último plano diretor, de 2007, é que se verificam abordagens sobre pedestres, ciclovias, acessibilidade, baseando-se em estratégias de adensamento em corredores de transporte com prioridade para os ônibus (Kneib, 2012).
Os fatores determinantes para o ordenamento territorial, a partir do Plano Diretor de 2007, recaíram sobre preceitos relevantes para a mobilidade, conforme cita Bellorio, (2013):
• Morfologia urbana: obtenção de uma cidade mais compacta e menos onerosa socialmente, evitando a dispersão do território;
• Mobilidade: implantação dos eixos estruturadores do transporte público como elemento estruturador de modelo de ocupação do território.
• Uso e ocupação do solo: compatibilização das atividades e da densidade com a capacidade da via. Estímulo à diversidade de uso do solo ou “uso misto” na cidade, promovendo a mescla de funções. É permitido o uso diversificado tanto de comércio como residencial, de acordo com o tipo de via e grau de incomodidade,
Figura 33: subdivisão macrozona construída. Fonte: Ferreira, (2013); Plano Diretor, (2007).
proporcionando melhor aproveitamento da infraestrutura, resultando em menor necessidade de grandes deslocamentos.
O eixo estratégico de mobilidade, acessibilidade e transporte que consta no Plano incorpora os preceitos da sustentabilidade à capacidade de atendimento “às necessidades da sociedade de se deslocar livremente a fim de realizar as atividades desejadas, visando, em última análise, à melhoria da qualidade de vida urbana desta e das futuras gerações" (GOIÂNIA, 2007).
O Plano Diretor de 2007, além de tratar da prioridade do transporte público e dos não- motorizados sobre o transporte individual, traz outros elementos que constituem medidas importantes para apoiar bons projetos de mobilidade e que estão vinculados às questões de uso do solo e rede viária. No documento, destacam-se as seguintes intenções: (i) planejar e adequar a rede viária para cumprir sua função estruturadora no tecido urbano, a incluir o redesenho das características geométricas da via, priorizando sua utilização pelo transporte coletivo, pedestre, ciclistas e acesso controlado às atividades econômicas lindeiras; (ii) compreender a rede viária como parte fundamental da estrutura urbana que deverá ser planejada, reorganizada, construída e mantida como suporte para circulação de pessoas, bens e mercadorias na cidade, de acordo com os princípios de mobilidade sustentável; (iii) garantir a implementação de uma rede viária compatível com as diretrizes de uso e ocupação do solo definidas na lei do plano diretor; (iv) propiciar a integração territorial do munícipio mediante a articulação viária e sua continuidade; (v) instituir os eixos de desenvolvimento urbano apoiados na rede estrutural do transporte coletivo, integrando uso do solo ao sistema de mobilidade urbana; (vi) definir áreas adensáveis para as quais devem ser incentivadas as maiores densidades habitacionais e de atividades econômicas, sustentadas pela rede viária e de transporte; (vii) estimular os meios não-motorizados de transporte, valorizando a bicicleta como um meio de transporte integrando-o com os modais de transporte coletivo; (viii) garantir na rede estrutural de transporte coletivo com corredores exclusivos, a capacidade de implantação de veículos articulados, bi-articulados, veículos leves sobre trilhos e modais com tecnologia metroviária.
Postos estes objetivos e propostas pelo Plano Diretor de Goiânia, é importante contar com procedimentos de análise que permitam de forma antecipatória, verificar se as medidas possuem, de fato, potencial de gerar os resultados almejados. Tratando-se de um plano já aprovado, o que se visa com a aplicação do Procedimento de Análise Espacial é identificar o alcance das medidas postas em curso e daquelas que, estando previstas, serão implantadas
quando os diferentes agentes, públicos e privados, atuarem sobre o território em obediência ao plano diretor.