2 ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS PARA PENSAR MATERIALIDADES,
4.3 GOOGLE HOME COMO PARTE DA INDÚSTRIA DE METAINTERFACE
Enquanto assistente de voz, o Google Home tem a capacidade de simplificar e personalizar a interação entre humanos e máquinas (PASE et al., 2019). Desta forma, conforme descrevemos nos tópicos anteriores, para que cada comunicação ocorra, são acionadas uma série de sistemas complexos que processam as informações solicitadas pelos humanos e retornam com uma resposta adequada no transator vocal. Essas interações são criadas por programadores e processadas por algoritmos e têm como ponto-chave “o diálogo em forma de interface homem/máquina” (PASE et
al., p. 38, 2019).
O conceito de interface surgiu no fim do século XIX, utilizado para indicar a membrana que separava dois tipos de substâncias. Ao longo do século XX o entendimento do que é uma interface passou por diferentes definições e, com a informatização, passou a ter relação com o uso do computador e de seus dispositivos de entrada e de saída. Nos anos 1980, com a chegada de computadores com novas ferramentas gráficas, surgiu o termo interface gráfica do usuário (Graphic User
Interface (GUI)), na qual o vocábulo passa a abranger também tela, mouse, teclado e
afins (SCOLARI, 2019).
Com o tempo, a interface passou a ser entendida como algo que, geralmente, representava a parte perceptível de um programa de computador, localizada entre o usuário e o código (MANOVICH, 2001). No caso de um computador, em termos semióticos, “a interface computacional atua como um código que carrega mensagens culturais em uma variedade de meios” (MANOVICH, 2001, p. 76). Para o autor, a interface tem o poder de impor sua própria lógica midiática, interferindo na forma como, por exemplo, o usuário do computador compreende o próprio computador. Manovich (2001) utiliza o termo “interfaces culturais” para descrever interfaces humano-computador-cultura, compreendo, assim, a forma como o computador ou outra interface nos permite interagir e manipular dados culturais.
O Google Home pode ser considerado uma interface intrinsecamente social, pois, como interface de voz, adequa-se ao ambiente, dando informações sobre produtos e os mais variados temas. Enquanto o computador utiliza uma tela, texto,
hiperlinks, gráficos, mouse, toque, teclado, entre outros periféricos, o Google Home
pelo termo Voice User Interface (VUI). Nesse caso, chama-se atenção para o termo interface social, utilizado por Nass e Brave (2005), pois é através do Google Assistente que a interação com o sistema vocal é viabilizada. Dotado de linguagem natural e de inteligência, o assistente responde às perguntas com senso de humor muito parecido com o esperado de outro ser humano, embora, muitas falhas ainda ocorram durante esse processo.
Scolari (2018b), ao refletir sobre a integração das interfaces com a vida humana, destaca como a interface é também um lugar de interação entre artefatos tecnológicos. De acordo com ele, o conceito deve ser entendido como algo maior que uma “interface de usuário” e pode ser utilizado para compreender e analisar vários aspectos da vida social humana. Assim, a noção de interface passa de uma definição reduzida – como instrumento que permite que o sujeito interaja com a tecnologia – a uma ampliada – compreendida como uma “rede de atores humanos (individuais e institucionais), relações e processos” que formam um ecossistema e evoluem através de processos de complexidade (SCOLARI, 2019).
Essa ampliação no conceito de interface impacta na concepção de meio e no que chamamos de interfaces midiáticas, que passa também a possuir uma conceitualização reduzida e outra ampliada. Na versão reduzida, o meio como instrumento de transmissão de informação possui uma interface de usuário. Na versão ampliada, no momento em que consideramos a interface como uma rede de atores, de relacionamentos e de processos, implicará em que qualquer prática que envolva um meio poderá ser analisada a partir dessa mesma perspectiva (SCOLARI, 2019).
Por exemplo, a visualização de uma série de televisão pode ser analisada a partir da perspectiva expandida de "interface", ou seja, como um espaço onde interatuam diversos atores humanos (telespectadores, roteiristas, showrunners, programadores de televisão etc.) e tecnológicos (telas, antenas ou cabos, controles remotos, conteúdo etc.) (SCOLARI, 2019, p. 10, tradução nossa).68
De tal modo, ambos os conceitos, em sua versão ampliada, fogem de uma visão instrumental, seja do meio como instrumento para transmitir informações ou da
68 Do original: Por ejemplo, se podría analizar el visionado de una serie televisiva desde la perspectiva
ampliada de “interfaz”, o sea, como un espacio donde interactúan diversos actores humanos (televidentes, guionistas, showrunners, programadores televisivos, etc.) y tecnológicos (pantallas, antenas o cables, controles a distancia, contenidos, etc.).
interface como forma de controlar uma determinada tecnologia. No entanto, essas versões não são opositivas, mas complementares, “[...] uma mais próxima do perceptivo-cognitivo (o meio como ambiente que modifica os sujeitos) e outra do formal-estrutural (a interface como uma rede de atores)” (SCOLARI, 2019, p. 11, tradução nossa).69
O importante da visão evolutiva do autor é compreendermos que a interface é um lugar de interação, que coevolui com seus usuários, transformando-se.
Interpretar uma interface, como interpretar uma novela ou filme, implica para o usuário ativar um conjunto de competências cognitivas, recuperar experiências prévias de interação e formular hipóteses sobre seu funcionamento. Nesse processo sempre haverá um espaço para o mal- entendido ou uma superinterpretação (SCOLARI, 2018b, posição 405-410, edição eletrônica, tradução nossa).70
Cada interação, portanto, apesentaria uma “proposta de interação” que as pessoas teriam o poder de aceitar ou não. Aceitando o contrato, é possível entrar no mundo da interface, acolhendo as regras do jogo e participando do intercâmbio interpretativo com a interface. No momento que interatuamos com artefatos tecnológicos tudo deve fluir, sem surpresas. Contudo, pessoas não fazem com a interface tudo ou somente o que seus designers esperam que se faça com ela, “da mesma maneira, as interfaces também têm uma gramática que regula os intercâmbios com os usuários: uma gramática da interpretação” (SCOLARI, 2018b, posição 471, edição eletrônica, tradução nossa).71
As telas sensíveis ao toque expandiram a gramática da interação com as interfaces digitais ao incorporar uma série de princípios que não estavam inclusas nos computadores comuns. Falar, arrastar, tocar, juntar e separar, são ações que ampliaram o idioma computacional a partir de algo que envolve sua dimensão material.
69 Do original: una más cercana a lo cognitivo-perceptual (el medio como entorno que modifica a los
sujetos) y otra a lo estructural-formal (la interfaz como red de actores).
70 Do original: Interpretar una interfaz, al igual que interpretar una novela o una película, implica para el
usuario activar un conjunto de competencias cognitivas, recuperar experiencias previas de interacción y formular hipótesis sobre su funcionamento. En este proceso siempre habrá um espacio para el malentendido o una sobreinterpretación.
71 Do original: de la misma manera, las interfaces tambíen tienen una gramática que regula los
Quando um usuário abre um aplicativo tenta fazer uma composição do local. Ou seja, tenta identificar a estrutura desse espaço – a chamada arquitetura da informação; isto é, o mapa dos conteúdos e das funções – e os elementos ativos (botões, menus, links) com os quais poderá interagir. Se a interface está bem projetada, esse processo será reduzido a algumas frações de segundo; caso contrário, haverá uma troca mais complexa entre as
affordances da interface e as hipóteses de funcionamento que o usuário
desenvolverá (SCOLARI, 2018b, posição 489, tradução nossa).72
Como observado por Drucker (2013), a interface não pode ser definida apenas por um objeto em si, mas como um espaço de possibilidades estruturadas para seu uso, sendo assim, “um conjunto de condições, relações estruturadas, que permitem que certos comportamentos, ações, leituras e eventos ocorram” (DRUCKER, [2013], tradução nossa).73 A teoria da interface se aplicaria, portanto, a qualquer artefato
tecnológico “criado com certas suposições sobre o corpo, a mão, os olhos, a coordenação e outras capacidades” (DRUCKER, [2013], tradução nossa),74 entre
elas, a vocal e a auditiva.
A autora chama atenção ao uso da palavra “usuário”, a qual não seria ideal quando relacionada à interface, uma vez que ela é um espaço em que um sujeito é chamado à interação. Essa crítica é feita por considerar que a interface não é algo estático e que seu “texto” não seria estável ou autoevidente, sendo assim, um sistema enunciativo. “Textos e oradores estão situados em circunstâncias pragmáticas de uso, ritual, intercâmbio e comunidades de prática. Eles são afetados por isso, e também o que ‘leem’ ou ‘recebem’ por meio de uma interface” (DRUCKER, [2013], tradução nossa).75 Por esse motivo, consideramos, de acordo com a proposição da autora,
todos os humanos que interagem com o Google Home como interatores, nomenclatura adotada nesta pesquisa.
72 Do original: Cuando un usuario abre una aplicación trata de hacerse una composición del lugar. O
sea, trata de identificar la estructura de ese espacio – la llamada arquitectura de la información; es decir, el mapa de los contenidos y funciones –y los elementos activos (botones, menús, enlaces) con los cuales podrá interactuar. Si la interfaz está bien diseñada, este proceso se reducirá a unas pocas fracciones de segundo; em caso contrario, se producirá un intercambio más complejo entre las affordances de la interfaz y las hipótesis de funcionamento que el usuario desarrollará.
73 Do original: a set of conditions, structured relations, that allow certain behaviors, actions, readings,
events to occur.
74 Do original: created with certain assumptions about the body, hand, eye, coordination, and other
capabilities.
75 Do original: Texts and speakers are situated within pragmatic circumstances of use, ritual, exchange,
and communities of practice. They are affected by it, and so is what they “read” or “receive” through an interface.
Com o avanço das estruturas de Big Software e aprendizagem de máquina, podemos localizar o Google Home também como parte de uma indústria da metaiterface, conceito de Andersen e Pold (2018, posição 189, edição eletrônica, tradução nossa), que consideram a interface como algo “intrínseco e parte importante de uma condição contemporânea onde a captura e o fluxo de dados, informação e mídia estão em todo lugar e partem de tudo”.76 Essa condição contemporânea envolve
empresas de interface como Google, Apple, Facebook e Amazon, que usam a rede de computadores para transformar formas de trabalho, criar tendência e valor, além da distribuição de conteúdo cultural e imposição de novos sistemas simbólicos (ANDERSEN; POLD, 2018, edição eletrônica), algo que já trabalhamos no capítulo anterior do presente estudo.
Essa cultura da interface contemporânea é chamada de metainterface, cuja presença é cada vez mais onipresente e invisível, além de estar em objetos cotidianos, possibilitando a comunicação entre eles. A interface, assim, desaparece nas práticas culturais cotidianas, “misturando-se imaculadamente ao ambiente através do que é comumente chamado como computação móvel, computação ubíqua e Internet das Coisas (Internet of Things (IoT)), entre outros termos” (ANDERSEN; POLD, 2018, posição 311, edição eletrônica, tradução nossa).77
Desta forma, uma metainterface teria três funções principais. A primeira delas está relacionada à descrição de um paradigma contemporâneo da interface, cuja especificidade é sua natureza onipresente e universalmente dispersa. Aqui, ocorre a transformação da interface em interface para outras interfaces, conectada em uma rede global. A segunda função da metainterface refere-se à indústria em volta da metainterface que a apresenta como uma nova realidade de interação, enquanto a terceira, trata da realidade produzida pela metainterface e como ela reconfigura uma série de domínios, desde a produção cultural aos espaços urbanos, assim como, nossa percepção de mundo conectado, globalizado (ANDERSEN; POLD, 2018).
76 Do original: The interface can be seen as an intrinsic and important part of the production of a
contemporary condition where the capture and flow of data, information, and media is everywhere and part of everything.
77 Do original: by blending immaculately into the environment via what is commonly referred to as mobile
Essa perspectiva de Andersen e Pold (2018) problematiza a interface como uma nova forma de textualidade com gramáticas e inscrições características à sua condição, em uma abordagem relacionada ao materialismo e aos novos materialismos, preocupando-se ainda com o que é representacional e material em relação às interfaces. Na visão dos autores, é importante explorar a relação entre material e mediação, considerando todas as dimensões que fazem parte desta dialética como a cultural, a política e a ideológica, por exemplo.
A metainterface é um novo modo de produção que transgride cada vez mais o sistema relativamente fechado de software independente e HCI [Interação Humano-Computador]. Ele incorpora uma interface sinal-computador que quantifica e datafica e, finalmente, transforma o mundo inteiro em uma interface: um grande corpo estatístico cuja realidade depende profundamente do processamento e das visualizações de dados (ANDERSEN; POLD, 2018, posição 991, edição eletrônica, tradução nossa).78
O software impõe uma própria expressão cultural e é através da metainterface que empresas que produzem programas de software culturais agora possuem interfaces para consumidores da cultura da computação. Nessa realidade, Google, Apple, Amazon e outras, apresentam “um modelo de negócios bem definido e em plataformas de hardware prontamente disponíveis para bilhões de usuários” (ANDERSEN; POLD, 2018, posição 1319, edição eletrônica, tradução nossa).79
Nesse contexto, a metainterface passa a ser uma nova indústria cultural muito distinta daquela dos meios de comunicação de massa. Ao mesmo tempo em que percebemos o aumento de produtos culturais como música, vídeos, séries, jogos, notícias, entre outros, abre-se possibilidade para que produtos de nicho também tenham destaque. Por trás de tudo isso está a indústria de metainterface cultural, na qual, “assim como a computação se tornou cultural, a cultura é cada vez mais computada e burocratizada” (ANDERSEN; POLD, 2018, posição 1333, edição eletrônica, tradução nossa).80
78 Do original: The metainterface is a new production mode that increasinly transgresses the relatively
closed system of self-contained software and HCI. It incorporates a signal-computer interface that quantifies and datafies, and ultimately turns the whole world into an interface: a large statistical body whose reality deeply depends on the processing and visualizations of data.
79 Do original: a well-defined business model and on hardware platforms readily available to billions of
users.
80 Do original: as much as computing has turned cultural, culture is increasingly computed and
O Google Home, enquanto transator vocal capaz de fazer inúmeras transações através de seu assistente de voz embarcado, atua como uma plataforma da indústria de metainterface cultural, ligado às estruturas de Big Software: é um produto de uma empresa global de tecnologia (Google) que, conectado à internet, pode trazer informações globais para dentro de casa a partir de comandos de voz. Traz consigo a realidade da interação humano-máquina, máquina-rede e máquina-humano de forma cada vez mais natural e aprimorada, reconfigurando o espaço em que está. O Google