matrizes
97corporais ou os exercícios muito sólidos, porque assim como é interessantes ter um
repertório para acessar quando preciso, é muito tendencioso o ator sempre recorrer a um lugar
comum, confortável, a elementos que ele sabe que vai funcionar em diversas situações. O
corpo, sob o meu olhar, deve ser furtivo com os diversos estímulos, ouvir-se, olhar-se sempre.
O treinamento e/ou preparação do ator, nesta percepção, deve ser o aumento de potência para
buscar o corpo sem órgãos (CsO), proposto por Artaud e conceituado por Gilles Deleuze e
Félix Guattari (1996). O que move o CsO é justamente a experimentação, processo de retirar
fantasmas, de desterritorialização contínua – as linhas se inscrevem em um CsO, no qual tudo
se traça e foge, ele mesmo uma linha abstrata, sem figuras imaginárias nem funções
simbólicas: o real do CsO
-de exaurir conjuntos fechados de significâncias e subjetivações
(DELEUZE; GUATTARI, 1996). O que é o CsO?
De todo modo você tem um (ou vários), não porque ele pré-exista ou seja dado inteiramente feito — se bem que sob certos aspectos ele pré-exista — mas de todo modo você faz um, não pode desejar sem fazê-lo — e ele espera por você, é um exercício, uma experimentação inevitável, já feita no momento em que você a empreende, não ainda efetuada se você não a começou. Não é tranqüilizador, porque
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Na dissertação, utilizo o conceito de matriz delineado nas entrevistas dos atores-pesquisadores do LUME Renato Ferracini (2008) e Ana Cristina Colla (2009). Para eles, a matriz não é cristalizada sempre no mesmo tempo, ritmo, espaço, embora seja uma partícula codificada de uma partitura do ator. A matriz é um fluxo de matriz, ou seja, é uma dança de matrizes, matrizes in fluxo. A matriz estará sempre sujeita à modificações porque está em relação aos objetos de cena, aos companheiros de cena, ao contexto específico do lugar e do tempo e, ainda, em relação ao público.
você pode falhar. Ou às vezes pode ser aterrorizante, conduzi-lo à morte [...] No dia 28 de novembro de 1947, Artaud declara guerra aos órgãos: Para acabar com o juízo de Deus, "porque atem-me se quiserem, mas nada há de mais inútil do que um órgão". É uma experimentação não somente radiofônica, mas biológica, política, atraindo sobre si censura e repressão. Corpus e Socius, política e experimentação. Não deixarão você experimentar em seu canto (DELEUZE; GUATTARI, 1996, vol. 3, p.9 – aspas, grifos e parênteses dos autores).
Grotowski sugeriu, como já citado, uma terapia intensa para o desnudamento do ator, a
qual deveria “estimular um processo de auto-revelação, recuando até o subconsciente” (1971,
p.80), ou seja, eliminar as resistências psicofísicas, portanto. Um método “
da superação dos limites, de um confronto, de um processo de autoconhecimento e, num certo sentido, de uma terapia”(1971, p.80). Recorro então a Deleuze e Guattari, os quais dizem que não se deve procurar a
psicanálise, pois a psicanálise traduz “tudo em fantasmas, comercializa tudo em fantasmas,
preserva o fantasma e perde o real no mais alto grau, porque perde o CsO” (DELEUZE;
GUATTARI, 1996, vol. 3, p.12). A sugestão dos autores é que através da esquizoanálise se
pode experimentar um CsO. A pergunta é: qual é o seu corpo sem órgãos?
quais são suas próprias linhas, qual mapa você está fazendo e remanejando, qual linha abstrata você traçará, e a que preço, para você e para os outros? Sua própria linha de fuga? Seu CsO que se confunde com ela? Você racha? Você rachará? Você se desterritorializa? Qual linha você interrompe, qual você prolonga ou retoma, sem figuras nem símbolos? A esquizoanálise não incide em elementos nem em conjuntos, nem em sujeitos, relacionamentos e estruturas. Ela só incide em lineamentos, que atravessam tanto os grupos quanto os indivíduos. Análise do desejo, a esquizoanálise é imediatamente prática, imediatamente política, quer se trate de um indivíduo, de um grupo ou de uma sociedade. Pois, antes do ser, há a política [...] Para cada tipo de CsO devemos perguntar: 1) Que tipo é este, como ele é fabricado, por que procedimentos e meios que prenunciam já o que vai acontecer; 2) e quais são estes modos, o que acontece, com que variantes, com que surpresas, com que coisas inesperadas em relação à expectativa? Em suma, entre um CsO de tal ou qual tipo e o que acontece nele, há uma relação muito particular de síntese ou de análise: síntese a priori onde algo vai ser necessariamente produzido sobre tal modo, mas não se sabe o que vai ser produzido; análise infinita em que aquilo que é produzido sobre o CsO já faz parte da produção deste corpo, já está compreendido nele, sobre ele, mas ao preço de uma infinidade de passagens, de divisões e de sub- produções. Experimentação muito delicada, porque não pode haver estagnação dos modos [...] (DELEUZE; GUATTARI, 1996, vol. 3, p.11-12 – grifos dos autores).
Isto que os autores propõem, também é uma proposta de que não se busque
reencontrar o seu “eu”, mas que se desfaça o seu “eu” para construir um CsO. Uma prática
que deve substituir a anamnese pelo esquecimento e a interpretação pela experimentação
(1996, p.11). Sob essa perpectiva pergunto a Simioni:
Você acha que essa dissolução do ego, do ‘eu’, que você falou que vocês passam no energético reverbera no grupo, colabora para o grupo ter durado tanto tempo. Como é essa relação aberta para a criação, no sentido dos corpos abertos para aprendizagem do grupo e, ao mesmo tempo, a autonomia de cada um?É uma pergunta muito difícil. Eu vou responder, mas não sei se é isso, né? Quando eu digo dissolução do ego, é dentro do trabalho, dentro lá da sala de trabalho. Este estado que você tem que se permitir isso, senão você não avança. Porém, é impossível dissolver o ego totalmente. O que que acontece, o ego, porque o ego fala “Ah é? Me apagaram? Me deixaram quietinho? Todo magoadinho? Né? Quando ele sai pro cotidiano, ele vem com toda força. Você entende? Ele vem com força. Isso é muito difícil e muito bom. Não adianta, né? [...] Eu não sou oriental, oriental... mas nós ocidentais a gente é o ego. É a nossa estrutura, né? Eu não sei se a gente conseguiria viver sem ego, né? Num sei mesmo, como ocidental. Só mesmos os orientais espiritualizados mesmo, que conseguem, né? É que hoje em dia já tá ocidentalizado muita coisa. Mas, então, o ego vem com tudo, o ego vem com tudo. Então, a dificuldade do grupo, justamente, ela tá nisso. Ok, eu me dissolvo dentro do trabalho criativo, no trabalho artístico, ali eu me dissolvo. Mas aqui fora, é o meu ego. Você entende? É a minha vontade, é o que eu quero. Certo? Porém, por sorte, [...] ali dentro na sala de pesquisa é tão maravilhoso, tão revelador, que o ego, o individual, por exemplo permite [essa abertura] (Carlos Roberto Simioni, entrevista concedida em 2008).