Neste capítulo, assim como nesta tese como um todo, é imprescindível o entendimento de que está em curso na educação médica do Brasil, nas últimas décadas, a produção de práticas de governamento. Tai práticas consistem em constituir os/as discentes como sujeitos ativos e engajados, para que eles/as possam ser governados/as,
49 Seguindo definição de Santos e Paraíso (1996), por currículo oficial me refiro ao Projeto Pedagógico do
Curso, e o currículo em ação corresponde a documentos como o caderno/guia do/a professor/a.
isto é, torna-los/as alvos das ações de governamento. Para chegar a essa compreensão, é preciso primeiro entender o uso que faço da palavra governamento. Como recomendado por Veiga-Neto (2005), uso o vocábulo governamento em vez de governo para evitar a ambiguidade que esse último possa provocar: de ser pensado, por um lado, como ―instituição do Estado que centraliza ou toma, para si, a caução da ação de governar‖, e por outro como ―uma ação ou ato de governar‖ (p. 82), comumente mencionado pela perspectiva foucaultiana.
Tal como referenciei o conceito de governo nos capítulos 1 e 3 dessa tese, o termo governamento é usado aqui para referir ―todo o conjunto de ações de poder que objetivam conduzir (governar) deliberadamente a própria conduta ou a conduta dos outros‖ (VEIGA-NETO; LOPES, 2007, p. 952), ou, em outras palavras, ―que visam estruturar o eventual campo de ação dos outros‖ (FOUCAULT, 1995, p. 244). E na medida em que poder51 é compreendido como ―ações sobre as condutas, sobre as possibilidades de ação dos outros‖ (FOUCAULT, 1995, p. 244) - uma ação sempre apoiada em saberes -, o governamento pode manifestar-se como resultado dessas ações. O governamento é, portanto, ―a manifestação ‗visível‘, ‗material‘, do poder‖ (VEIGA- NETO; LOPES, 2007, p.).
Ao definir o governamento desse modo, passo a usar essa ferramenta conceitual para compreender que o currículo de medicina da UFAL exerce uma gestão governamental (FOUCAULT, 2007) que tem nos/as discentes do curso seu alvo principal. Dito de outro modo, através de estratégias e técnicas de poder o currículo aqui investigado regula o campo de ação possível da formação médica, conduzindo cada discente no sentido dessa ou daquela prática, desse ou daquele comportamento, para então posiciona-los como sujeitos ativos e engajados. Conforme Fimyar (2008, p. 4), esse esforço para ―criar sujeitos governáveis através de várias técnicas desenvolvidas de controle, normalização e moldagem das condutas das pessoas‖ é o que Foucault (2008a) irá denominar de Governamentalidade52.
51
Como orientado por Foucault (2014), entendo o poder em sua positividade, em sua vertente produtiva, em sua capacidade de conduzir as ações dos sujeitos, e não como função exclusivamente repressiva. Nesse sentido, é possível observar no currículo de medicina da UFAL um conjunto de ações (técnicas de regulação, por exemplo) que atuam sobre as condutas dos/as estudantes, no sentido de regula-las, normatiza-las, de governa-las.
52
A governamentalidade é definida por Foucault (2008a) como ―um campo estratégico de relações do poder, no que elas têm de móvel, de transformável, de reversível‖ (p. 241). Ao basear-se no pensamento de Foucault, Machado (1992) aponta que o conceito de governamentalidade designa as práticas de governamento ou de gestão governamental que ―tem na população seu objeto, na economia seu saber mais importante e nos dispositivos de segurança seus mecanismos básicos‖ (p. 23).
Aqui parto do pressuposto de que essa regulação/controle – essa governamentalidade - exercida no currículo investigado tem no dispositivo da medicina engajada seu mecanismo fundamental. Vale salientar que, quando falo em dispositivo me refiro ao ―conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas‖ (FOUCAULT, 2014, p. 364). Como observado, o dispositivo engloba o dito e o não dito, isto é, elementos discursivos e não-discursivos53. Ele é ―a rede que se pode estabelecer entre esses elementos‖ (FOUCAULT, 2014, p. 364). Maknamara (2011, p. 69) diz ser a própria palavra dispositivo bastante sugestiva, afirmando que o mesmo ―dispõe algo em uma organização peculiar, dentro de uma racionalidade particular‖, objetiva cuidar para que ―esta ou aquela finalidade possa ser alcançada‖ (FOUCAULT, 2008a, p. 132).
Desde essa perspectiva, o dispositivo deve ser entendido como ―um tipo de formação que, em um determinado momento histórico, teve como função principal responder a uma urgência. O dispositivo tem, portanto, uma função estratégica dominante‖ (FOUCAULT, 2014, p. 365). Esse é o caso do dispositivo da medicina engajada, que emerge como resposta à urgência da produção de discentes ativos e engajados capazes de atender às exigências de uma formação médica voltada ao cuidado amplo e irrestrito à saúde. Nesse sentido o currículo de medicina da UFAL deve ser compreendido a partir das táticas de governamento que controla a formação médica por esse dispositivo. E ao tomar o grupo de discentes como sujeitos políticos, como coletividades sobre as quais devem incidir diferentes estratégias de poder, o currículo de medicina adentra o campo da biopolítica.
Partindo da noção foucaultiana sobre o termo, Maknamara (2011) diz ser a biopolítica ―uma forma de organização e racionalização do poder que ambiciona integrar no plano coletivo, fenômenos e questões individuais, tomando a população como seu correlato e administrando-a em profundidade, sutileza e detalhe‖ (p. 99). Assim Foucault (1999b) caracteriza sua emergência:
53
Aqui devo esclarecer que, ao tomar o dispositivo como ―práticas elas mesmas, atuando como um aparelho, uma ferramenta, constituindo sujeitos e os organizando‖ (DREYFUS; RABINOW, 1995, p. 135), não estou lidando com ―uma estrutura fechada organizada, cujos elementos em jogo estão previamente dados, mas, antes, com aquilo que é da ordem do imprevisível, da ordem da criação: o acontecimento.‖ (MARCELLO, 2014, p. 211).
As disciplinas lidavam praticamente com o indivíduo e com seu corpo. Não é exatamente com a sociedade que se lida nessa nova tecnologia de poder [...] É um novo corpo: corpo múltiplo, corpo com inúmeras cabeças, se não infinito pelo menos necessariamente numerável. É a noção de ―população‖. A biopolítica lida com a população, e a população como problema político, como problema a um só tempo científico e político, como problema biológico e como problema de poder [...]. (FOUCAULT, 1999b, p. 292-293).
Dirigindo-se a uma população, ―o Estado biopolítico governa pessoas, não como súditos submetidos a um poder central, mas indivíduos que participam de modo ativo da produção da vida coletiva‖ (GALLO, 2017, p. 86). Scisleski e Guareschi (2011) indicam que Foucault apresenta diversos níveis de abrangência de governamento, podendo ir do nível do biopoder ao cuidado de si. No âmbito da biopolítica, as práticas de governamento são exercidas mediante acionamento de um tipo de poder, o biopoder. Ao ser compreendido como um nível de abrangência de governamento, o biopoder refere-se aos ―procedimentos que, mesmo tomando cada indivíduo em suas particularidades espaciais e temporais, têm como objetivo promover a vida da coletividade na qual o indivíduo se insere; trata-se de uma coletividade que a partir daí vai ser entendida como uma população‖ (VEIGA-NETO; LOPES, 2007, p 955). É importante destacar que para um controle/gestão mais efetiva dessa coletividade/população, ocorre nesse nível de abrangência de governamento, uma articulação ente técnicas disciplinares e técnicas de regulamentação. Estabelece-se assim,
... dois conjuntos de mecanismos complementares e articulados entre si, que ocupam esferas diferentes: na esfera do corpo, o poder disciplinar, atuando por meio de mecanismos disciplinares; na esfera da população, o biopoder atuando por intermédio de mecanismos regulamentadores. Tais esferas situam-se em polos opostos mas, não antagônicos: num polo, a unidade; no outro, o conjunto. [...] A norma é a que articula os mecanismos disciplinares com os mecanismos regulamentadores. (VEIGA-NETO, 2016, p. 73-74).
Observo aqui a articulação entre tecnologias disciplinares, chamadas de ―anátomo-política do corpo humano‖ (FOUCAULT, 1999a, p. 151), com as tecnologias de regulamentação – chamadas de ―biopolítica da população‖ (FOUCAULT, 1999a, p. 152). Observo ademais, um elemento comum que transita entre uma tecnologia e outra, ―e que possibilita a manutenção do equilíbrio entre a ordem disciplinar do corpo e a ordem aleatória da população‖ (POGREBINSCHI, 2004, p. 48). Esse elemento é a
norma, ―que pode tanto se aplicar a um corpo que se quer disciplinar quanto a uma população que se quer regulamentar‖ (FOUCAULT, 1999b, p. 302).
Partindo dessa premissa – de que no biopoder o governamento atua simultaneamente na vida do indivíduo e na vida da população -, e inspirado na proposta do diagrama bipolar do biopoder54 de Rose (2013), proponho ser possível pensar um esquema, ou mesmo, um diagrama bipolar do biopoder ativado na formação médica. Delineio esse esquema na figura 01 a seguir.
Figura 01: Diagrama bipolar do biopoder ativado na formação médica
Anatomia Política do corpo discente BIOPODER Biopolítica da formação médica
Disciplina Regulamentação
Cada discente
Um corpo imbuído de mecanismos de individualização
Coletivo de discentes
Um corpo-molar/maleável/múltiplo imbuído de mecanismos de totalização
Discentes como sujeitos político Formação médica como objeto político
Fonte: Elaboração própria a partir de Rose (2013) e de Scisleski e Guareschi (2011).
A leitura do diagrama acima possibilita compreender como o biopoder é acionado no currículo de medicina da UFAL pelo dispositivo da medicina engajada, para um governamento das condutas dos/as discentes. Dito de outro modo, o diagrama auxilia na análise sobre a produção de discentes ativos pelas estratégias do biopoder. Assim como configurado no diagrama, será observado na análise desprendida aqui, que as práticas de ensino e aprendizagem do currículo médico da UFAL ensinam sutilezas quanto ao que cada corpo discente deve ser capaz de fazer (acionando para tanto técnicas disciplinares) para ser reconhecido como um tipo de médico específico e desejado pelo currículo (tornado possível através da regulamentação ativada no mesmo).
Gallo (2017) ao buscar pensar os elementos da subjetivação no contexto da biopolítica, indica que ―uma subjetivação biopolítica passa, necessariamente, por uma afirmação de si no ato de ser conduzido. Em outras palavras, o biopoder constitui
54
Inspirado no pensamento de Foucault (1999a) sobre o biopoder, Rose (2013) propõe um diagrama bipolar do biopoder e apesar de chamar esse esquema de bipolar, ―não significa que a questão esteja subordinada a uma lógica bipartida ou dicotômica, mas sim a algo que se produz simultaneamente, associando as tecnologias disciplinares [...] com as tecnologias de regulamentação‖ (SCISLESKI; GUARESCHI, 2011, p. 89).
sujeitos para governá-los. Sermos sujeitos é nossa maneira de sermos governados em termos biopolíticos.‖ (p. 85). Vale salientar que, no biopoder, essa afirmação de si (pela qual a subjetividade individual se constitui) ―é sempre atravessada pelo modo de subjetivação coletiva, isto é, a forma da referência de um si a um nós‖ (NETO, 2007, p. 136). Assim, ao acionar o biopoder através do dispositivo da medicina engajada, o currículo de medicina da UFAL disponibiliza a posição de sujeito discente ativo/a compatível com o tipo de profissional médico/a que ele deseja formar. Nesse sentido, é possível afirmar que, ser e se reconhecer como um/a discente ativo/a é a maneira de o/a mesmo/a ser governado/a em termos biopolíticos. Esse/a discente ativo/a é pensado/a nesse capitulo como sujeito do biopoder (GALLO, 2017).
Na análise aqui desprendida busco captar essa produção (entendida como processos de subjetivação) entre discentes pesquisados/as, analisando as forças que possibilitam aos/as mesmos/as tornarem-se sujeitos discentes ativos/as por meio de investimentos discursivos sobre seus corpos individualmente e sobre suas vidas coletivamente. Essa análise será realizada nos tópicos a seguir.
4.2 Investimentos em normalização disciplinar e a produção do/a discente