2. TEORIAS EM PAUTA
2.2 Democracia e Governo Aberto
2.2.1 Governo Aberto
Dos pressupostos elencados por Slomski (2009), a prestação de contas e a transparência, aliados à participação popular e a utilização das tecnologias de informação e comunicação, compõem os objetivos do Governo Aberto (Open Government).
Segundo Oliverio (2011),
o propósito do Governo Aberto está em uma administração que esteja em constante conversa com os cidadãos a fim de entender as necessidades e unir os atores em busca do bem comum. A decisão coletiva tem como foco atender a pluralidade de ideias que existem em uma determinada região. (OLIVERIO, 2011, p.3)
Neste sentido, a noção de Governo Aberto abrange uma nova relação Estado- sociedade, formando um modelo de gestão no qual o cidadão passa de consumidor a parceiro no desenvolvimento de políticas públicas. Como afirmam Calderón e Lorenzo (2010, p.31),
“a abertura do governo e da participação do cidadão são a sístole e a diástole do coração de
um governo aberto”.
A participação popular também é ressaltada por Sampaio (2014) como elemento central no processo de abertura de governo.
Em seu sentido original, Governo Aberto significava abertura de informações e maior transparência e, recentemente, se abriu para a participação, enfatizando não apenas accountability e responsividade, mas também abertura para os cidadãos atuarem nos governos, sendo tais possibilidades mediadas por instrumentos tecnológicos digitais. (SAMPAIO, 2014, p.66)
Compreendido o conceito de Governo Aberto, passaremos a abordagens resumidas sobre os princípios que o compõem.
2.2.1.1 Transparência e accountability
Na Administração Pública, o princípio da publicidade refere-se, de modo geral, à divulgação de atos oficiais para apreciação pública. Esta transparência permite a fiscalização por parte dos cidadãos quanto à legalidade e eficiência das ações do governo, facilitando a aquisição e a interpretação de dados sobre gestão de recursos e conduta do agente público, de forma íntegra e fidedigna. De acordo com Silva, Pereira e Araújo,
a transparência como atributo da gestão pública democrática ocasiona a ruptura com velhos hábitos de gerenciamento que creditam somente ao Estado as informações que ele produz. Já nessa nova visão, incorpora práticas que garantam a efetividade da gestão da informação e maior apoio do cidadão nas decisões de governo. (2014, p.145)
A apreciação dos atos de governo é uma forma de garantir que a Administração Pública cumpra seu objetivo de atender ao interesse coletivo. Os referidos autores destacam o papel da sociedade de pressionar o governo para a implantação e a melhoria de ferramentas que possibilitem a análise e a avaliação dos seus investimentos. Neste sentido, a questão da transparência pode ser associada à implementação da accountability e à disponibilização de informações sobre as atividades de governo.
O termo inglês accountability não encontra tradução certa para o português, porém é entendido como prestação de contas, ou seja, a capacidade que os representantes públicos têm de atender aos anseios da população. Porém, não deve se associar unicamente a essa ideia, deve abranger uma série de medidas que visem possibilitar este controle por parte do cidadão. (GENTILLI e DUTRA, 2012)
Como afirma Maia,
a questão da accountability é fundamental para a qualificação da democracia moderna. Ela acarreta para os representantes políticos, na organização de seus poderes e obrigações, o dever de responder aos cidadãos, de replicar às críticas a eles endereçadas e de aceitar (alguma) responsabilidade sobre suas falhas, incompetência ou desonestidade. (2006, p.2)
Assim sendo, mecanismos de accountability permitem aos cidadãos maior controle sobre as ações do governo, gerando responsividade por parte deste.
2.2.1.2 Transparência e participação cidadã
A mobilização da sociedade visando à realização de debates, à colaboração e à proposição de contribuições referentes às políticas públicas é essencial para um governo mais efetivo e responsivo.
De acordo com Sen (2011), estes elementos estão ganhando cada vez mais destaque na filosofia política contemporânea, quando se fala em democracia. Desta forma, a visão da democracia restrita apenas à participação popular através do voto está ultrapassada. “A opinião pública e o debate, assim, ganham espaço nos governos democráticos, e a informação,
neste contexto, é a protagonista para a realização qualitativa daqueles”. (RAMINELLI, RODEGHERI e OLIVEIRA, 2014, p.138)
Neste contexto, o desenvolvimento das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) vem possibilitando a ampliação da participação popular e a promoção da transparência.
Com a inserção das novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), principalmente a Internet, a interação antes impossível já vem sendo ampliada, e o cidadão passa a ter ferramentas que oportunizam contato, requerimento de ações e informações e até mesmo de reclamações e críticas, que chegam diretamente ao responsável em poucos segundos. (RAMINELLI, RODEGHERI e OLIVEIRA, 2014, p.136)
O sociólogo e filósofo Pierre Lévy traz, em seus estudos, o conceito de Ciberdemocracia, que aborda o uso da Internet como fator fundamental para o progresso da democracia. De acordo com o autor (2003, p.29), o uso das tecnologias de informação, como a Internet, leva “ao nascimento de um novo espaço público”, possibilitando a construção de um novo ambiente capaz de influenciar as políticas estatais e as “condições da governação”.
Esta forma de progresso, como afirma Lévy (2003), possibilita maior transparência das ações de governo, uma vez que, essas novas técnicas de comunicação permitem o acesso a documentos complexos e a informações que antes pertenciam a uma pequena minoria. O autor destaca ainda que para que a Ciberdemocracia aconteça é necessário o desenvolvimento da educação, o desenvolvimento humano, o combate à pobreza e a facilitação do acesso à Internet pelas classes ainda fora de rede.
A modernização dos governos também é essencial na promoção da Ciberdemocracia. Ações como a utilização das TIC´s com o intuito de implementar novos modelos de gestão e de melhoria de processos vieram à tona a partir de 1990, com o surgimento do novo modelo de gestão pública - a Nova Gestão Pública (NGP). Segundo Santos et al. (2013, p.723), este
processo ocorreu “quando se assistiu à implementação de políticas públicas com o objetivo de
utilizar os sistemas informacionais em rede para simplificar as práticas internas e garantir os preceitos de eficiência, eficácia e efetividade”. (SANTOS et al., 2013, p.723)
A este fenômeno, muitos autores atribuem o conceito de Governo Eletrônico ou e- gov6, designando as atividades estatais realizadas através das TIC´s. Raminelli, Rodegheri e
Oliveira (2014) ampliam as considerações sobre Governo Eletrônico além da modernização das estruturas governamentais através das novas tecnologias. De acordo com os autores, este
6 Foram encontradas, ainda, na literatura sobre o assunto as terminologias: e-government, governo virtual, e-
conceito é elástico e abrange ainda a possibilidade de maior eficácia das entidades públicas e maior participação popular.
Trata-se, portanto, de “uma infraestrutura única de comunicação compartilhada por diferentes órgãos públicos a partir da qual a tecnologia da informação e da comunicação é usada de forma intensiva para melhorar a gestão pública e o atendimento ao cidadão”. (ROVER, 2006, p.99)
2.2.1.3 Transparência e dados abertos
A utilização de TIC´s visando à implementação e consolidação da democracia pode ser exemplificada com a abertura de dados e informações sobre as atividades de governo através da Internet. De acordo com a Controladora Geral da União7, para que isto aconteça, tais informações devem ser “abertas, compreensíveis, tempestivas, livremente acessíveis e
atendem ao padrão básico de dados abertos”.
O fenômeno Open Government Data ou Dados Governamentais Abertos alcançou ênfase a partir da publicação, pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2009, do Memorandum on Transparency and Open Government. O documento elencou iniciativas voltadas ao acesso aos dados do governo americano, desde a gestão interna da informação até a publicação dos mesmos para o público em geral. (RIBEIRO e ALMEIDA, 2011)
De acordo com a política de Open Government Data, além de disponíveis no maior número possível de base de dados, em formato aberto, as informações de caráter público devem estar acessíveis aos diversos públicos, possibilitando o seu tratamento, compartilhamento e a reutilização como nova forma de conhecimento.
Com dados abertos disponíveis, abrem-se possibilidades para a sociedade que vão desde a análise mais profunda das informações públicas por meio da correlação de diferentes bases de dados, até a criação de aplicativos que fazem uma leitura frequente de bases de dados públicas para fornecer soluções que beneficiam a sociedade ou que geram oportunidades de negócio. (NEVES, 2013, p.13)
Em 2011, foi lançada a Open Government Partnership (OGP), quando oito países (África do Sul, Brasil, Estados Unidos, Filipinas, Indonésia, México, Noruega e Reino Unido) assinaram a Declaração de Governo Aberto, apresentando seus planos de ação. A iniciativa internacional pretende difundir e incentivar globalmente as práticas de governo referentes à transparência, acesso à informação e participação social.
No Brasil, exemplo de incentivo à publicação de dados no formato aberto aconteceu no ano de 2012, através da publicação da Instrução Normativa Nº4, que instituiu a Infraestrutura Nacional de Dados Abertos8 (INDA). Trata-se da união de padrões, tecnologias, procedimentos e mecanismos de controle que visam à disseminação e ao compartilhamento de dados e informações públicas, seguindo o modelo de dados abertos.
A criação do Portal Brasileiro de Dados Abertos9 foi outra ação brasileira visando centralizar a busca e o acesso aos dados e informações públicas. Através do portal, são disponibilizados, por exemplo, dados das áreas de saúde, transporte público, educação, gastos governamentais, dentre outros. Desta forma, atua como um grande catálogo facilitando a busca e o uso de dados publicados pelos órgãos do governo.
As noções aqui expostas sobre transparência, accountability e dados abertos auxiliarão na compreensão sobre os propósitos da Lei de Acesso à Informação, objeto desta pesquisa e um dos marcos do Governo Aberto no Brasil.
8<http://www.governoeletronico.gov.br/eixos-de-atuacao/cidadao/dados-abertos/inda-infraestrutura-nacional-de-
dados-abertos>. Acesso em 19.07.2016.