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3.1 Governo Castelo Branco (1964 1967) Uma “ditabranda”?

3 – O Regime Militar Brasileiro (1964-1985)

3.1- Governo Castelo Branco (1964-1967). Uma “ditabranda”?

Humberto de Alencar Castelo Branco, 1º general-presidente do regime militar. Governou o Brasil de 15/04/1964 a 15/03/1967.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Alencar_Castelo_Branco

Em 2009, a Folha de São Paulo, referiu-se aos quatro primeiros anos do regime militar como uma “ditabranda”, ou seja, uma ditadura não muito convicta de sua dureza.85 Para um jornal que, lá no passado, se colocou numa postura de resistência ao regime, o termo “ditabranda” causou grande polêmica.

85 Li ites a Chavez . Folha de São Paulo, Editorial, 17 fev.2009 (disponível em:

138 O que está por trás deste debate é o fato de que existe uma linha de raciocínio, sobretudo, por parte do que Marcos Napolitano (2014) denominou de memória liberal86 do regime, que o período compreendido entre o golpe de 31 de março de 1964, até o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, não teria sido uma ditadura. No máximo, uma ditadura “envergonhada”87, “encabulada”, que se “sentia mal” ao

tomar certas medidas e atitudes, especialmente contras seus adversários, tal como as cassações e os primeiros Atos Institucionais (mas não deixando de fazê-los e executá-los). Os defensores da tese de uma ditadura “suavizada”, ou de um regime “brando” é que nos primeiros anos do regime ainda existia o habeas corpus, mobilizado na defesa de muitos presos, por ocasião do golpe, somada a uma certa liberdade de imprensa, de expressão e de manifestação.

Antes já foi apresentada a conceituação sobre o significado de “ditadura” e de “regime militar”. Talvez possamos falar em “ditadura militar” porque se não foi a ditadura de um único indivíduo, pelo menos houve um incontestável protagonismo militar, com cinco generais-presidentes e, de fato, os militares sempre tiveram a “palavra final” nas decisões mais importantes e cruciais da fase compreendida entre os anos de 1964 a 1985. Os atos mais importantes, por parte dos civis, neste período autoritário só foram possíveis porque certamente eles contavam com o aval dos militares em suas ações e medidas. Refiro-me especialmente aos civis que ocuparam ministérios durante o período, além dos tecnocratas presentes na aparelhagem governamental. De qualquer forma, procurarei utilizar mais o termo “regime militar”, mas algumas vezes, a palavra “ditadura” estará presente, no caso específico de um determinado governo militar em questão, ou sobre a corporação militar em conjunto que, como personagem principal, fez a sua “ditadura” (a dos militares vistos em sua unidade corporativa).

Esses quatro anos iniciais do período militar abrangem os anos do seu primeiro governo – o de Castelo Branco - na Presidência da República entre abril de 1964 a março de 1967. E basicamente a metade inicial do segundo governo – o de Costa e Silva – que durou de março de 1967 a agosto de 1969, em cujo período teve-se a

86 Id., Ibid., p.69. 87 Id., Ibid., p.69.

139 promulgação do Ato Institucional nº5 (AI–5), em dezembro de 1968. Mas a ditadura “branda” está centrada principalmente no governo Castelo Branco em que alguns de seus biógrafos apontaram um general/marechal “constrangido” em exercer o poder buscando apenas “sanear” e “limpar” o ambiente político brasileiro com promessas para logo devolver o poder aos civis.88

Um exemplo apresentado para isso foi o auge cultural das esquerdas, no período de 1964 a 1968. NAPOLITANO (2014) argumenta que, ao contrário do que uma (chamada por ele) “memória liberal” do regime tenta apregoar sobre uma ditadura “envergonhada”, é que a relativa liberdade de expressão nesse 1º período anterior ao AI-5 foi decorrente da razoavelmente ampla base social que apoiou o golpe, como as classes médias, setores liberais da imprensa e partidos conservadores. Assim a repressão se apresentou seletiva e o que ocorreu foi a construção de uma ordem institucional autoritária e centralista, blindando-se o Estado brasileiro contra algumas possibilidades indesejáveis, tais como as pressões da sociedade civil paralelamente à desarticulação política dos movimentos operários e camponeses.

O autor então procura questionar que o regime só se “fechou” devido a uma onda crescente de manifestações de opositores e de contestações por parte até de aliados de primeira hora do regime, como Carlos Lacerda e o jornal carioca Correio da Manhã. Castelo Branco, não poucas vezes, chegou a ser apresentado como um mandatário bem intencionado que teve que aceitar, a contragosto, a imposição do nome de Costa e Silva, representante da “linha-dura”, para a sua sucessão.

Napolitano, em sua obra, realiza uma verdadeira “desconstrução” da figura de Castelo Branco, apontando que o mesmo foi, sim, o verdadeiro construtor institucional do regime autoritário. Foram 4 Atos Institucionais, a Lei da Imprensa, a nova Constituição (que sacramentou o princípio da segurança nacional). Também se teve mais de 700 Inquéritos Policiais Militares (IPMs). Nas sanções legais a opositores, fundamentadas nos Atos Institucionais, 65% dos 5.517 cidadãos que sofreram punição durante todo o regime, o foram no governo Castelo, totalizando-se 3.644 punidos. O mesmo governo se destacou enormemente nas sanções aplicadas

140 especialmente contra militares, 90% do total ao longo dos mais de 20 anos de autoritarismo.

Humberto de Alencar Castelo Branco foi o primeiro general-presidente, escolhido em 11 de abril. Tinha influência entre os golpistas militares e civis, sendo líder do grupo de oficiais ligados à Escola Superior de Guerra - ESG, de influência norte-americana e anti-comunista pregando contra o "inimigo interno" (o comunismo) dentro do modelo de "segurança-desenvolvimento". Este grupo era conhecido como o "grupo da Sorbonne" em que se destacavam Castelo Branco, os generais Golbery do Couto e Silva, Ernesto Geisel e outros que se diferenciavam da chamada "linha dura", que defendia o controle armado sobre os civis e aos nacionalistas de direita. O "grupo da Sorbonne" buscava soluções técnicas e formas institucionais de governo que englobassem civis (como os empresários) e "opositores moderados". Junto a um governo forte procuravam aprofundar a relação com o capital internacional e a livre iniciativa.

A ESG fez acertos com outros militares e políticos, principalmente do PSD. Teve até o apoio de Juscelino Kubitschek que estava de olho em sua candidatura à Presidência para as eleições de 1965, previstas no AI-1 - Ato Institucional nº1 - (mas JK acabaria cassado já em 8 de junho de 1964). Castelo Branco, escolhido por eleição indireta no Congresso, assumiu a presidência em 15 de abril. No Ministério organizado foi dado maior peso à UDN e o Ministério da Guerra foi dado à Costa e Silva, porta-voz da "linha-dura".

Em seu discurso de posse, Castelo Branco, fez menção da palavra “democracia” por cinco vezes. Insistiu que seu governo consolidaria “os ideais do movimento cívico da nação brasileira nestes dias memoráveis de abril, quando se levantou unida, esplêndida de coragem e decisão, para restaurar a democracia e libertá-la de quantas fraudes e distorções que a tornavam irreconhecível. Não por meio de um golpe de Estado, mas como uma revolução. (...) Nossa vocação é a da liberdade democrática”89

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“Caminharemos para a frente com a segurança que o remédio para os malefícios da extrema esquerda não será o nascimento de uma direita reacionária, mas o das reformas que se fizerem necessárias”90

Foi criado, em 13 de junho de 1964, o SNI - Serviço Nacional de Informações, no âmbito da Segurança Nacional. Sob a orientação do general Golbery do Couto e Silva, segundo CHIAVENATO (2006), o SNI recebia verbas secretas e supervisionava outros “departamentos de segurança”, inclusive o DSI (Divisão de Segurança e Informação), que se incorporou a todos os ministérios. Como as DSIs informavam o SNI sobre o funcionamento dos ministérios, investigavam candidatos a cargos públicos e vetavam ou puniam aqueles que eram considerados subversivos. Percebe-se que os ministros estariam sujeitos a pressões por parte do SNI.

O SNI só prestava contas ao CSN (Conselho de Segurança Nacional) e ao presidente da República. Controlava os serviços de segurança do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. A nível estadual, trabalhavam para o SNI a Delegacia Estadual de Ordem Política e Social (Deop) e o Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

Ao tomar posse, Castelo Branco garantiu que entregaria o cargo em 31 de janeiro de 1966, mas não foi isso o que aconteceu, como será mostrado depois.

Na política externa, Castelo Branco - ao contrário de Getúlio Vargas, na década de 1950, e também de Jânio Quadros e de João Goulart - foi (em muito) alinhado com os Estados Unidos, como retribuição ao apoio dado ao golpe e pela confiança “yankee” na liderança castelista. Dentro da visão geopolítica dos conspiradores militares e civis, o Brasil tomava um posicionamento explicitamente favorável à superpotência capitalista dentro do contexto da Guerra Fria. Da anterior política externa independente, o Brasil, já em 1965, tomava outro rumo no campo externo, ao enviar tropas à Republica Dominicana favorecendo à implantação de uma ditadura pró-EUA naquele país.

142 Ao se consolidar no poder, o novo governo assentou suas bases econômicas no combate à inflação fazendo-se aumentar a recessão, "calculada" pelo governo, com uma política de contenção de créditos e dos salários acarretando o arrocho salarial, explorando-se os trabalhadores e concentrando-se as empresas e o capital, potencializados pelo Estado como resultado do PAEG (Plano de Ação Econômica do Governo).

Na área econômica, o Brasil se abriu ao capital internacional, em nome do liberalismo econômico. Roberto Campos e Otavio Bulhões se tornaram os principais expoentes na área. Buscou-se a modernização da economia e do Estado, para que o Brasil melhor se inserisse no capitalismo mundial. Contava-se que com a modernização econômica, velhas estruturas arcaicas se readaptariam. O governo federal precisava recuperar a sua capacidade de financiamento, equilibrar suas contas e combater a inflação. A receita para isso foi simples: conter os gastos públicos e impor um arrocho salarial.

O sistema fiscal foi reorganizado, disciplinando a malha complexa de interesses locais e regionais. Dava-se uma nova lógica ao sistema tributário nacional, procurando-se aumentar a eficiência arrecadatória, removendo-se empecilhos, até de natureza federativa, para se racionalizar a dinâmica tributária. Claro que isso beneficiaria especialmente a União, em detrimento aos estados e aos municípios. No plano macroeconômico, o PAEG (Plano de Ação Econômica do Governo) foi lançado ainda em 1964, para balizar as mudanças em curso. Pela imposição o novo regime buscaria o crescimento da economia, mas sem perspectivas redistributivistas, o que faria aumentar mais ainda a concentração da renda e a distância entre ricos e pobres, apesar do crescimento da classe média. Para o empresariado e o patronato em geral, houve vantagens. A nova política de reajustes salariais, certamente prejudicava os trabalhadores (também afetados pelo rígido controle aos sindicatos, amarrados à CLT e à repressão). O fim da estabilidade de emprego e a criação do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) flexibilizaram o mercado de trabalho, possibilitando demissões a custos baixos. As “pressões distributivistas” da fase republicana anterior, iniciada em 1946 ficaram amordaçadas.91

143 Outro item a se destacar foi a criação do INPS (Instituto Nacional da Previdência Social), em novembro de 1966. Resultou da fusão de seis institutos de aposentadoria existentes: o dos industriários (Iapi), o dos comerciários (IAPC), o dos marítimos (IAPM), o dos bancários (IAPB), o dos empregados em transportes e cargas (Iapetec) e o dos ferroviários e empregados em serviços públicos (Iapfesp). Com unificação de tal magnitude, o objetivo era o de conferir melhor operacionalidade ao sistema, além de controlá-lo com mais eficiência. Nesta lógica, o INPS ficou vinculado ao Ministério do Trabalho e Previdência Social.

Quanto ao meio rural, era preciso que o governo Castelo encontrasse algum tipo de solução “técnica” para a questão fundiária. Reforma agrária - nem pensar - pois a mesma se tornou como um sinônimo de comunismo para os golpistas. As elites agrárias, obviamente, haviam saudado o golpe, mas como mexer com essa questão? Era sabido que a terra, como fonte de renda imobiliária, estava sendo um entrave ao desenvolvimento capitalista. Também era conhecida que uma das causas da inflação era a crônica falta de alimentos para uma população urbana cada vez maior. Havia também a situação de êxodo rural, com massiva migração campo- cidade, alterando rapidamente o espaço geográfico e as paisagens brasileiras, especialmente nas grandes cidades.

Contrários a qualquer tipo de reforma fundiária, ainda que moderada, Castelo Branco propôs o “Estatuto da Terra”, já citado antes. Consistia, segundo NAPOLITANO (2014,) em três eixos: imposto progressivo, conforme o tamanho da propriedade; desapropriação com indenização; e a ocupação de terras ociosas. A proposta enfrentou a resistência da UDN e de setores da imprensa ligadas à oligarquia agrária mais tradicional, como O Estado de São Paulo.92 Votado já por um Congresso bastante expurgado, devido às cassações, com a posição contrária dos udenistas, o Estatuto foi aprovado após ter o seu texto original bastante alterado e quase não foi posto em prática. A União ficaria autorizada a desapropriar terras pagando indenização por meio de títulos da Dívida Pública. Foi também criado o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (Ibra). Carlos Lacerda foi uma das vozes que criticou o Estatuto: “Reformas de base são pretextos para todo governante que

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não sabe governar”.93 Desnudavam-se as diferenças entre os autoritários desejosos de reformar o capitalismo brasileiro e, de outro lado, as velhas oligarquias agrárias.

Na década de 1970, a própria dinâmica econômica inseriu o latifúndio no sistema capitalista, sem reforma agrária e sem traumas para os grandes proprietários. Para os pequenos e médios proprietários, já não era tão bom assim, pois eles dependiam dos preços mínimos garantidos pelo governo e dos empréstimos bancários. Para os trabalhadores do campo, a mecanização (por causa principalmente da soja) e a possibilidade de melhores empregos e salários nos setores da indústria e dos serviços na cidade potencializou o êxodo rural. Ainda que milhões destes migrantes acabassem morando nas periferias, especialmente nas favelas, devido à especulação imobiliária existente especialmente nos grandes centros urbanos. Mesmo assim, tais pessoas poderiam dispor, ainda que na periferia, de alguns serviços impossíveis ao campo.

O regime autoritário ainda estimularia a migração para os “espaços vazios”, como as fronteiras agrícolas, com fluxos humanos advindo de outras regiões do Brasil para a Amazônia, em especial. A mata era devastada para a chegada do “progresso” e do “desenvolvimento” representados por grandes pecuaristas e mineradoras que desalojavam os primeiros migrantes, agravando-se a grilagem de terras. A modernização do campo brasileiro criou uma geografia marcada pelo agravamento das tensões e dos conflitos fundiários, em especial na Amazônia.

Voltando-se à economia, no combate à inflação foram aumentadas as tarifas dos serviços públicos, ampliadas as taxações indiretas e o reforço da incidência de impostos como o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e o ICM (Imposto sobre Circulação de Mercadorias) favorecendo àquelas empresas cuja produtividade garantia preços unitários abaixo dos demais em detrimento das pequenas empresas, monopolizando assim o setor econômico. Com a benevolência dos Estados Unidos e do FMI (Fundo Monetário Internacional) a economia brasileira passou a ancorar-se em três setores, segundo BARROS (1998): o de bens de capital vinculados ao Estado;

145 o de bens duráveis multinacionais; e o de bens de consumo baseados no capital nacional.94

Assim a orientação econômica do governo Castelo Branco, coordenada pelos ministros Roberto Campos – no Planejamento e Coordenação Econômica; e Otávio Gouveia de Bulhões - na Fazenda - foi o de uma política econômica recessiva. Toda essa política contribuiu para o agravamento dos problemas sociais com forte crescimento das favelas, fome, violência da marginalidade, etc. Hélio Jaguaribe (in. DEL VECCHIO, 1992) enunciou, em trabalho elaborado em fins de 1966, que a política econômica ortodoxa do governo Castelo Branco seria um traço estrutural do regime onde haveria três objetivos programáticos complementares: o controle da inflação; a subordinação da economia brasileira aos centros hegemônicos, especialmente aos Estados Unidos; e o predomínio da "livre-empresa". Isto na perspectiva do desenvolvimento nacional versus imperialismo onde o total engajamento do Brasil aos EUA se refletiu na participação brasileira no auxílio à ocupação da República Dominicana em 1965. Daí viria o termo "colonial- fascismo", citado por CARDOSO (1979), que Hélio Jaguaribe aplicou ao modelo político que enxergava no momento com as suas três características: 1º) um maior poder de coerção decorrente de um fortalecimento do Estado; 2º) a já mencionada subordinação aos EUA; e 3º) a existência de livres mecanismos de mercado (empresas privadas que controlariam e dirigiriam a economia) sob a supervisão estatal. Contudo têm-se a incapacidade da burguesia nacional em imprimir o dinamismo requerido pela economia, algo este que diferenciaria o Brasil, tanto da Itália fascista, como da Alemanha nazista.

Já Celso Furtado (in DEL VECCHIO, 1992) na mesma época, também a partir da contraposição desenvolvimento nacional versus imperialismo, aborda, como Jaguaribe, a natureza do regime a partir da estabilização social, onde o modelo adotado implicaria numa solução "pastoril" em que os dados do PAEG foram interpretados com ênfase na agricultura devido aos investimentos destinados a esse setor no período de 1964-1966 simultaneamente à uma forte recessão do setor industrial. Porém Furtado reconheceu, mais tarde num ensaio de 1973, o caráter dinâmico do regime militar brasileiro. Na verdade tanto o termo "colonial-fascismo"

146 de Jaguaribe como a "pastorização da economia" de Furtado resultaram das influências conjunturais do início do regime militar, que ainda estavam num processo de consolidação, referente às críticas à política econômica de Castelo Branco. Dentro de uma nova linha de interpretação, as relações de dependência se atrelariam a uma nova divisão internacional do trabalho onde parte do sistema industrial de países hegemônicos, sob controle das corporações internacionais, são transferidos para as economias periféricas que previamente alcançaram certo desenvolvimento industrial constituindo-se na chamada "internacionalização do mercado", segundo CARDOSO (1979).

Tem-se que: "O período recessivo de 1964-1967 cumpriu plenamente a sua função, para os idealizadores do PAEG. A concentração hegemônica do grande capital e o extraordinário achatamento salarial limparam as altas taxas de inflação, criando o patamar inicial de um crescimento econômico sem precedentes que se verificaria nos anos seguintes. A partir de 1967, a política econômica governamental mudaria significativamente, com a liberação do crédito e a ampliação dos gastos estatais" 95.

O regime continuava a fazer outras reformas econômicas indispensáveis para um novo ciclo de desenvolvimento. Em dezembro de 1964 era criado o Banco Central, substituindo a Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), vinculada ao Banco do Brasil. Entre as atribuições exclusivas do Banco Central estava a de emitir papel-moeda, regular o câmbio, controlar o capital estrangeiro e a política creditícia (funções que foram anteriormente do Banco do Brasil durante décadas). Instituiu-se também o Conselho Monetário Nacional, responsável pelas diretrizes da política da moeda e do crédito. Nota-se a busca pelo governo de alicerçar solidamente uma nova inserção para o capitalismo brasileiro. Todavia, os resultados destas ações não seriam sentidas a curto prazo. Em 1965, os preços dos gêneros de primeira necessidade continuavam subindo.

Com o objetivo de enfrentar uma questão, premente na época, que atingia sobretudo as camadas populares, o déficit habitacional, que motivara mobilizações

147 políticas no governo Goulart, foi criado o Banco Nacional da Habitação (BNH), para enfrentar a demanda por moradia, agravada pelas migrações em direção aos grandes centros urbanos.

A política ortodoxa e recessiva da equipe econômica de Castelo Branco acarretou em fissuras na vertente do apoio civil ao movimento de 1964, pois Carlos Lacerda, governador do estado da Guanabara, e Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, se colocaram contra os rumos da política econômica. Nas eleições de 1965, o PSD bateu os candidatos oficiais nestes estados (com Negrão de Lima na Guanabara e Israel Pinheiro em Minas Gerais).

O mau resultado na eleição motivou Lacerda, que vinha criticando a política econômico-financeira da União, pois os resultados positivos da dupla ministerial “Campos-Bulhões” ainda não haviam se mostrado, a se afastar de Castelo mantendo- se próximo aos coronéis ainda simpáticos ao lacerdismo.

O regime, ao sofrer estes resultados negativos, começa a revestir sua inicial fragilidade institucional com a cristalização efetiva em regime militar, em que o "grupo da Sorbonne" se encontrava comprimido pelas oposições de um lado e pela "linha dura" do outro (constatando-se a não unidade do regime naquele momento). O presidente Castelo Branco cede então às pressões da "linha dura" materializando a declaração do AI-1, onde "a Revolução legitima-se a si própria" através do AI-2, de 27 de outubro de 1965, que suspendeu eleições diretas para Presidente e governadores de estado até 15 de março de 1967, e extinguiu os partidos políticos

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