• Nenhum resultado encontrado

3 GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA FINANCEIRA E O ESTADO

3.1 FINANCEIRIZAÇÃO E OS GOVERNOS BRASILEIROS ENTRE OS ANOS DE

3.1.6 Governo Dilma Vana Rousseff II: 2015 2016

Diante dos resultados e do cenário negativos no seu primeiro governo, não houve uma mudança de modelo significativa a partir de 2015. Após vencer as eleições, no segundo turno com 51,6% dos votos, Dilma inicia seu segundo governo nomeando um novo Ministro da Fazenda, o economista Joaquim Levy. Levy, ainda em novembro de 2014, anunciou que faria um ajuste fiscal rápido e eficiente na economia levando déficit de 0,6% do PIB para um

que Dilma havia mudado o compromisso feito durante a campanha de reeleição (CARVALHO, 2016, 2018; BASTOS, 2017).

O anúncio de Levy, um economista extremamente ortodoxo, vinha como sinal de boa fé ao mercado e aos investidores internacionais e na tentativa de acalmar os ânimos dos especuladores. Após sua posse como Ministro da Fazenda, as medidas de ajuste anunciadas por Levy incluíam redução dos gastos do PAC – da ordem de 58 milhões de reais –, alterações nas regras do seguro-desemprego, abono salarial e auxílio-doença – as quais representariam uma economia de 18 bilhões de reais –, receita adicional de R$ 12,2 bilhões com aumento das alíquotas do PIS/COFINS e da Cide, arrecadação extra de R$ 5,3 milhões pela redução do desoneração da folha de pagamentos e mais R$ 5 bilhões pela volta do IPI para veículos (CARLEIAL, 2015; CARVALHO, 2016, 2018; BASTOS, 2017).

No entanto, durante o decorrer do período, o congresso resistiu em votar o aumento de impostos e a redução dos investimentos públicos acabou sendo principal variável de ajuste fiscal e de política macroeconômica do segundo governo Dilma Rousseff – ajuste do ajuste anterior –, atingindo também as áreas da saúde e educação, além dos programas sociais, com suspensão de bolsas de pós-graduação em diferentes áreas, atraso na transferência de verbas para as universidades e no desembolso dos recursos de financiamento estudantil, do Pronatec – Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego –e a suspensão dos programas Ciência sem Fronteira e Farmácia Popular (CARLEIAL, 2015; COSTA PINTO et al., 20016; BASTOS, 2017; CARVALHO, 2018).

Levy ainda reajustou de forma brusca os preços administrados do primeiro governo e estes cresceram em média 18,1%, sendo os maiores aumentos na tarifa de energia elétrica – aumento de 51% –, no preço do gás – aumento de 22,6% –, e da gasolina – aumento de 20,1%. O aumento abrupto dos preços acarretou aumento da inflação e o Banco Central não teve outra saída a não ser aumentar a taxa de juros, que passou de 11,75% em dezembro de 2014 para 14,6% em julho de 2015 – mantendo-se assim até outubro de 2016 (BASTOS, 2017; CARVALHO, 2018).

Em meados de julho, diante do avanço da crise econômica, o governo anunciou a redução da meta do superávit primário de 1,2% para 0,15% do PIB. As metas para 2016 e 2017 também despencaram respectivamente de 2% para 0,7% e 1,3% do PIB. Além disso, foi anunciado novo corte no orçamento, o que tornou o ano de 2015 o ano com maior volume de recursos contingenciados desde 2000 (CARVALHO, 2018).

Até então, a arrecadação federal já tinha caído 2,9% só no primeiro trimestre com a redução da atividade econômica e expectativa de recessão e os investimentos públicos caíram cerca de 37%. As medidas de ajustes fiscais de caráter recessivo e o baixo crescimento projetado afetaram as expectativas dos investidores privados, os quais também reduziram em 11,6%, apenas no primeiro semestre, e 13,9% no acumulado do ano, o total de investimentos em comparação com período anterior (CARVALHO, 2018).

O desemprego, que não havia sofrido muita alteração durante o período anterior, elevou-se de 6,2% no final de 2014 para 9% ao final de 2015 e o poder de compra dos salários caiu 2,7% em média. Diante do cenário, houve uma redução de 3,9% no consumo das famílias – foi o primeiro ano de retratação deste índice desde 2003 (COSTA PINTO et al., 20016; CARVALHO, 2018).

Com todo esse cenário econômico geral negativo, com o PIB e a arrecadação menores, o déficit primário tendo aumentado de R$ 17 bilhões em 2014 para R$ 111 bilhões em 2015 apesar de toda a política de ajuste fiscal rigorosa, era evidente a quão desastrosa tinha sido estratégia implementada. Havia ainda um forte aumento da dívida pública e uma inflação de 10,67% em 2015, além de uma queda de 3,5% no PIB e rebaixamento da nota de investimento do país por agências de rating. Diante disso, ao final de 2015, Dilma anunciou a substituição do Ministro da Fazenda Joaquim Levy por Nelson Barbosa, então Ministro do Planejamento (COSTA PINTO et al., 20016; CARVALHO, 2016, 2018).

O novo Ministro pretendia seguir nas reformas de ajuste fiscal já implementadas, porém de forma mais parcimoniosa. No entanto, as tentativas de negociação entre o governo e o congresso foram infrutíferas. Já havia se instalado um clima de hostilidade entre o Legislativo e o Executivo (COSTA PINTO et al., 2016; CARVALHO, 2018).

Contribuindo para o agravamento das crises econômica e política, a Operação Lava Jato estava em andamento e já havia interferido de maneira significativa na atividade econômica e também política. A investigação atrapalhou a atividade econômica de empresas públicas e privadas de grande porte, como a Petrobras e as do ramo da construção civil. Atrapalhou também o governo com a prisão e investigação de nomes próximos à gestão Dilma e ao PT (COSTA PINTO et al., 2016; BASTOS, 2017; CARVALHO, 2018).

Embora várias tentativas de negociação e conversa tenham se estabelecido entre o governo e o Congresso, banqueiros, investidores, empresários e outros representantes da sociedade civil – além de interferências do próprio ex presidente Lula –, todas elas se mostraram infrutíferas devido ao clima tenso já instalado e a animosidade contra o Executivo.

A severa austeridade do segundo mandato em meio a uma crise recessiva foi um erro que se mostrou muito caro (COSTA PINTO et al., 20016; BASTOS, 2017; CARVALHO, 2018).

Diante desse cenário de grave crise econômica e também política, em 2 de dezembro de 2015 foi iniciado o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados. Eduardo Cunha, então presidente da casa, foi responsável pelo processo de abertura após Deputados do PT anunciarem que votariam pela continuidade do seu processo de cassação do Conselho de ética da casa. Antes da instalação do processo de impeachment e seu afastamento provisório, Dilma anunciou ainda um reajuste médio de 9% nos benefícios do bolsa família (CARVALHO, 2018).

A presidente Dilma Rousseff foi acusada de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) de utilizar banco público para realizar operações de crédito para o próprio governo, através do atraso proposital, durante vários dias, do repasse de dinheiro entre os pagamentos do tesouro para Caixa e da Caixa para os beneficiários, o que configurou, segundo Tribunal de Contas da União, uma operação de empréstimo – embora a LRF não estabeleça a quantidade de dias que se caracterizariam uma operação de empréstimo (CARVALHO, 2018).

Embora esse fato, conhecido como pedaladas fiscais, tenha ficado mais conhecido, o foco acabou recaindo sobre outra denúncia, a de que em 2015 a presidente teria assinado seis decretos de abertura de créditos suplementares, cujos valores seriam incompatíveis com o cumprimento da Meta fiscal (CARVALHO, 2018).

Essa denúncia apareceu no segundo pedido de impeachment dos Advogados Hélio Pereira Bicudo e Miguel Reale Júnior, realizado em 15 de outubro de 2015. Os decretos de 2015 totalizaram R$ 95 milhões, dos quais R$ 92,5 milhões foram compensados com cancelamento de outras dotações orçamentárias e R$ 708 milhões foram de despesas financeiras que não entraram no cálculo do resultado primário. Assim, a denúncia se aplicava apenas ao valor restante de R$ 1,8 bilhão, sendo que desse total, cerca de 70% destinou-se ao Ministério da Educação para itens como Ciência Sem Fronteiras, Universidades Federais e hospitais de ensino. No caso de Dilma, as acusações recaíam no fato de que a realocação dos recursos feitos pelos decretos suplementares ultrapassou o limite total para execução, que foi definido por decretos anteriores de contingenciamento (CARVALHO, 2018).

Embora o impeachment legalmente fosse motivado pelos supostos crimes orçamentários – os quais, aliás, dois dias após o fim do processo de impeachment foram alterados em uma nova lei aprovada pelo Senado que modificou os limites de abertura de

créditos suplementares sem necessidade de autorização do congresso. A lei aprovada não fez com que se deixasse de ser crime assinatura de decreto de lei suplementar, afinal, nunca foi crime remanejar recursos sem autorização do Congresso desde que respeitados os limites previstos por lei -, era claro que os interesses que moviam o processo eram outros (CARVALHO, 2018).

Mesmo antes da finalização do processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff, o vice-presidente Michel Temer se reuniu com empresários paulistas em dezembro de 2015 e anunciou a necessidade de implementação de medidas retrógradas. O vice- presidente pregava que o ajuste fiscal era insuficiente, pois os direitos adquiridos pela sociedade brasileira desde a redemocratização não cabiam mais no orçamento público. Ou seja, ficava claro que políticas que almejavam pelo crescimento econômico, preservação do emprego e redução de juros não faziam parte das ideias de Michel Temer. O então vice- presidente apostava na flexibilização de leis trabalhistas, fim da obrigatoriedade de gastos com saúde e educação e a desindexação de benefícios previdenciários ao salário-mínimo como medidas corretas para enfrentamento da crise econômica. Dessa reunião nasceu o Programa Uma Ponte para o Futuro e alguns dias após, a Fiesp oficializou seu apoio ao

impeachment (COSTA PINTO et al., 2016; BASTOS, 2017; CARVALHO, 2018).

Havia já um consenso entre a maioria dos Deputados e empresários de que o afastamento da presidente Dilma Rousseff acalmaria o mercado financeiro e a economia se estabilizaria. A própria arguição da presidente, feita pelos membros do Legislativo durante o processo de impeachment, enfrentou argumentações diversas que fugiram da área jurídica e baseava-se nos resultados ruins alcançados durante o seu governo, confirmando o real interesse na sua saída da presidência da República (COSTA PINTO et al., 2016; BASTOS, 2017; CARVALHO, 2018).

Em 31 de agosto de 2016, Dilma Rousseff é afastada da presidência da república após votação do Congresso Nacional e tendo cumprido um curto segundo mandato, travado pela falta de apoio e com piora desastrosa do desempenho da economia – em crise. Ao assumir a presidência, Michel Temer comprometeu-se com aprovação de reformas estruturais e a não elevação de impostos. Temer já era impopular – desde o processo de impeachment – e sua situação se agravou após sucessivos escândalos de corrupção envolvendo seus ministros e lideranças no Congresso, logo no início de sua gestão (CARVALHO, 2018).

Ainda durante o período de governo interino, o ministro do planejamento Romero Jucá teve gravações divulgadas sobre um suposto acordo para derrubar Dilma Rousseff e obstruir

as investigações da Operação Lava Jato. O fato causou mais turbulência no cenário da crise política instalada e o movimento chegou às ruas aumentando cada vez mais a impopularidade de Michel Temer.