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Daniel, Norberto e Natanael eram considerados trabalhadores capacitados e úteis, correspondendo ao rendimento esperado pelos empregadores, o primeiro inclusive por mais de 15 anos. No entanto, adoeceram inesperadamente e se ausentaram do emprego para cuidar da saúde, ou melhor, da doença, porque passaram a ser portadores de um

diagnóstico. Na relação com os empregadores são posicionados como doentes, como empregados que deixaram de ser corpos saudáveis e produtivos.

Não é o médico, nem Norberto, nem Daniel que determina sua capacidade de retorno ao trabalho, mas o dono da empresa. Assim, a ordem que Norberto recebe é para sair da empresa, ir cuidar da doença, ir ficar com aids na sua própria casa. Em momento posterior, quando melhora o seu estado de saúde, é lhe dada nova ordem: a de montar um escritório na sua residência, contatar clientes e falar com eles como se estivesse dentro da empresa. Seu corpo recebe novamente investimento como força de produção que pode prover rendimentos para a empresa. É o poder disciplinar, como analisado por Foucault (1999), que atua sob a forma de determinados mecanismos de controle sobre os corpos.

Norberto, durante suas perícias, se depara com médicos que coíbem e reprimem, desconsiderando os laudos médicos apresentados e as queixas clínicas relatadas. Sem sequer examiná-lo, o recriminam por usar o benefício da Previdência Social; ele que comparece à perícia porque é um direito seu como trabalhador que contribuiu para o INSS. Não é uma consulta médica em que tem avaliação clínica, é uma perícia na qual comparece com laudos médicos, comprovantes de sua necessidade de afastamento ou de retorno ao trabalho.

Sorj (2004, p.41) considera que uma das mudanças ocorridas no âmbito da legislação trabalhista foi a associação do trabalho com o trabalhador, isto é, uma vez que o trabalhador é possuidor de um corpo, essa “materialidade”, precisa ser preservada de doenças e acidentes provocados pelo trabalho. Esse corpo trabalhador, seja homem, seja mulher, esteja doente ou saudável, passa a ser controlado dentro do trabalho como força de produção. O trabalhador precisa corresponder à imagem de um empregado saudável e, conseqüentemente, de uma empresa ideal.

A relação de desigualdade e de poder estabelecida entre empregador e empregado é propícia à estigmatização e à segregação do trabalhador com HIV positivo - que passa a ser visto como “outsider”, como “outgroup” (PARKER e AGGLETON, 2002; ELIAS e SCOTSON, 2000; DEVINE, PLANT & HARRISON, 1999).

Entretanto, essas relações de poder não se dão como fatos naturais; são produzidas com base em determinados interesses, em relações de saber-poder, no sentido foucaultiano. Relações que, como aponta Fonseca (2003, p.33), “são estratégias, manobras, táticas e

da vida individual e social”. O autor acrescenta: “A idéia de poder em questão seria do tipo proibir, inibir, restringir, reprimir, fazer calar, fazer ouvir”.

Essas ‘estratégias’ se dão através de jogos e mecanismos de poder específicos a cada época, e como ‘micro-poderes’, presentes no cotidiano das pessoas, no qual o corpo é atravessado pelo campo de tensão entre saber e poder, como ressalta Foucault:

o corpo também está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o suplicam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais. Este investimento político do corpo está ligado, segundo relações complexas e recíprocos, à sua utilização econômica; é, numa boa proporção, como força de produção que o corpo é investido por relações de poder e de dominação; mas em compensação sua constituição com força de trabalho só é possível se ele está preso num sistema de sujeição (onde a necessidade é também um instrumento político cuidadosamente organizado, calculado e utilizado); o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso (FOUCAULT, 2002a, p.25-26).

A relação estabelecida entre empregador e empregado, entre médico e paciente, nesses casos, é uma relação de saber-poder, de governo dos corpos que se dá no contexto relacional; paciente e empregado submissos por dependerem de algo que o patrão e o perito usam como estratégia, como dispositivo para controlar, reprimir e excluir. Não se trata de poder como algo que alguém detenha, mas como estratégia usada na relação por meio do controle, da vigilância sobre o corpo. Deste modo, o empregador investe no corpo produtivo e submisso do trabalhador; a subjetividade do trabalhador não é importante, não pode se sobrepor ao trabalho. São assim, “corpos constituídos, pelos efeitos do poder, como súditos.” (FOUCAULT, 1999, p.34).

O posicionamento do médico perito, de que as pessoas com HIV/aids devam trabalhar, pode ter pertinência se levado em conta o caráter atual de cronicidade da aids e ao compará-la com outras doenças crônicas. Entretanto, o seu discurso é moral, uma discriminação negativa com base “em juízo de valor” (BOBBIO, 2002); que denota um preconceito em relação a pessoas com esse diagnóstico que passam em perícia, pois não está falando daquela pessoa diante dele, não sabe quem é ela, não conhece sua história e sequer seu real estado clínico já que nem mesmo leu os laudos do médico que trata daquele doente.

Daniel, que ainda faz parte do quadro funcional da empresa, apesar de não se encontrar mais trabalhando, diz cuidar do seu corpo, da aparência quando vai à empresa

receber os benefícios ou mesmo visitar algum colega - para corresponder à imagem de uma pessoa saudável. Ao perguntarem se está bem de saúde, sente-se invadido. Deduz que os colegas ficaram sabendo que tem HIV, mas esses não falam diretamente sobre o assunto. Vanda Na empresa você não contou pra mais ninguém?

Daniel Pra mais ninguém. Ninguém, ninguém, ninguém. Até porque eu saí da empresa, volto sempre lá, [.] mas assim mesmo quando eu volto lá sei que o povo me olha e pergunta: <<como é que tá a saúde?>>. Sei que o pessoal/ porque como vazou lá essa informação, todo mundo ficou sabendo, aí quando eu volto o pessoal já <<ah, você está bem? Como é que tá sua saúde?>>, entendeu?

Vanda Como se sente diante dessa pergunta?

Daniel Ah, muito [..]. É [.] você se sente invadido, a sua privacidade invadida e aí eu pra mostrar que eu tô bem, sempre que eu vou que vou lá vou de camisetinha apertada, pra mostrar que eu tô bem ((risos)), de barba feita [.]. Mas é complicado, você sente [.] é realmente invadido porque [.] uma coisa é você contar pras pessoas porque você sabe vou contar pra pessoas ficarem sabendo, outra coisa é as pessoas saberem por outros e por outros sem que você saiba que ninguém ficou sabendo, é complicado.

No significado do dicionário de Sociologia, encontramos estigma como “prova clara e característica de doença” (Quadro 1). Na análise de Goffman (1980) o corpo é um lugar privilegiado para a estigmatização, pois pode evidenciar a marca do estigma aos olhos dos outros tornando a pessoa desacreditada e, ao mesmo tempo, desacreditável para a própria pessoa que conhece o seu diagnóstico. O medo das marcas no corpo sempre assombrou as pessoas com aids. A notícia da epidemia veio juntamente com a imagem de pessoas já muito doentes e morrendo em decorrência desse diagnóstico e, nos últimos anos, por conta das alterações anatômicas aparentes (lipodistrofia). Em função dessa dinâmica, o corpo saudável, “malhado”, esse “tipo de corpo”, pode fazer da pessoa com HIV/aids acreditada e acreditável. Cabe ressaltar que essas concepções do que seja um corpo saudável, forte, bonito, bem como doente, fraco, “contagioso” são construções sociais e a imagem de um corpo com aids é um produto social e cultural (CASTIEL, 1996; CARNEIRO, 2000).

Em síntese, foram quatro as situações de discriminações narradas: duas com ganho de causa, uma com perda e outra ganha nas primeiras instâncias e perdida ao final do processo judicial. Dessas, três aconteceram no contexto do trabalho e uma no contexto do cuidado à saúde. Natanael recebeu indenização pela discriminação sofrida no local de trabalho e, no texto do processo judicial de Daniel, há indicação de indenização por parte da empresa “condenada”. Entretanto, na luta por alguns dos seus direitos, perderam a possibilidade de

pelas horas extras trabalhadas. Enquanto transcorria o processo judicial de Norberto, contra a empresa que o estigmatizou e discriminou, uma das empresas faliu, comprometendo sua luta. Natanael morreu antes de ver concluído um dos processos e perdeu a possibilidade de recorrer diante da causa perdida, o que poderia ter sido feito por sua família que, entretanto, desistiu de reclamar pelos direitos dele.

As situações de discriminação e os longos processos judiciais provocaram imenso sofrimento para os reivindicantes dos direitos violados. Diante das discriminações, as pessoas se posicionaram ora traídas por terem o segredo do diagnóstico revelado, que “vazou”, ora assustados, com medo e paralisados; ora indignados e frustrados pela expectativa de que seriam tratadas com respeito e dignidade pelas empresas em que trabalhavam e pelo Serviço de Saúde; posicionaram-se e foram posicionadas (pelo sindicato, pela médica) como cidadãos que lutam pelo que lhes é de direito.

CAPÍTULO 6.

Situações de

discriminação social não

encaminhadas

às Assessorias Jurídicas

Susan e Norberto narram várias situações de discriminações vivenciadas nas suas relações cotidianas. Maria também nos conta as discriminações vividas por seu irmão Natanael. Destacamos assim as situações, os diálogos que tiveram na situação e como cada um percebeu que foi discriminado. Dessa forma, podemos observar, no processo de interanimação dialógica, os posicionamentos de quem fala (pessoa discriminada e pessoa que discrimina), o contexto e as várias vozes presentes.