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4 TRANSPARÊNCIA E INTERNET

4.2 GOVERNO ELETRÔNICO

O surgimento de mecanismos digitais de comunicação tem colocado o Estado frente ao desafio de explorá-los como novas formas de interação política com a sociedade. Exemplo disso são os portais governamentais na internet como canal de comunicação em larga escala, de baixo custo e variadas funcionalidades. Conforme Silva (2009), esses dispositivos são, ao mesmo tempo, repositórios públicos de informação que podem ser potencialmente acessados por qualquer cidadão, rompendo os constrangimentos de tempo e lugar; fornecem condições técnicas para a oferta de serviços públicos; possibilitam a comunicação dialógica ou discursiva e até mesmo consultas, sondagens e eleições on-line.

A expressão governo eletrônico surgiu na segunda metade do século XX, após a popularização da ideia de mercado eletrônico e tem associação ao uso das tecnologias de informação e comunicação feito pelos diversos níveis de governo. De acordo com Prado (2009, p. 33), “o termo governo eletrônico surge na literatura acadêmica somente no fim dos anos 1990 e os primeiros jornais acadêmicos dedicados exclusivamente ao tema surgem apenas em 2004”.

A definição governo eletrônico vincula-se às estratégias de modernização da gestão pública. Conforme Pinho (2008), o conceito de governo eletrônico pode ser considerado a partir de duas categorias: restrita e ampliada. A restrita entende governo eletrônico como um conjunto de mecanismos digitais que fornecem serviços e informações do governo para a sociedade. Na categoria ampliada, tem-se uma expectativa de governo eletrônico voltado para o reforço da capacidade de participação e de ação da sociedade para além da mera sujeição ao poder do governo. O autor adverte que não se pode negar o incremento trazido pela simples adoção dos recursos tecnológicos para o desempenho governamental com efeitos positivos junto à sociedade.

Na primeira abordagem, os projetos de governo eletrônico têm como objeto a redução dos custos de funcionamento da máquina administrativa pelos seguintes aspectos: melhoria da eficiência dos processos operacionais, otimização das atividades administrativas e diminuição

dos custos de transação. Outro aspecto é que o Estado assume o papel de fornecedor de serviços e informações, e o cidadão passa a ser um consumidor passivo.

Na segunda abordagem, Pinho (2008) explica que o governo eletrônico alcança um novo arranjo que induz a uma renovação organizacional e cultural, tanto do Estado como do cidadão, na direção de um achatamento hierárquico, na fluidez da informação, transparência, abertura e mobilização do governo para atender às demandas do cidadão-cliente.

Sobre as discussões em torno do entendimento de governo eletrônico, Prado (2009, p. 32) entende que

a partir das definições mais frequentes encontradas na literatura, em um primeiro momento, o que poderia distinguir o governo eletrônico de outras formas possíveis de uso das TICs seria o uso intensivo da Internet e das tecnologias computacionais ocorridos nas últimas duas décadas. O conceito, no entanto, ultrapassa claramente essa dimensão, porque em sentido amplo os governos sempre fizeram uso, em maior ou menor escala, das tecnologias disponíveis em seus processos internos ou na interação com a sociedade. Não parece, portanto, muito indicado associar governo eletrônico apenas ao uso das modernas TICs, nem tampouco expandi-lo ao provável surgimento de uma nova forma de governo.

Lemos e Rocha (2007) ilustram que o governo eletrônico deve fornecer pela rede a máxima quantidade de serviços e ainda promover a convergência entre as unidades de gestão em todas as esferas visando ao estabelecimento um “modelo de Estado digital” capaz de criar espaços para a participação, a discussão e a deliberação para o cidadão nos assuntos do governo. Destacam ainda que é necessário um reforço em projetos de inclusão digital. Conforme Lemos e Costa (2007), os projetos de inclusão digital devem ser induzidos pelo governo e estar sustentados em três pilares: (a) técnico - destinado a desenvolver a destreza no uso do computador, dos principais aplicativos e no acesso à internet; (b) cognitivo - objetiva a autonomia e independência do usuário na utilização mais sofisticada das tecnologias, visando ao estímulo dos capitais cultural, social e intelectual pela prática social transformadora e consciente; (c) econômico - voltado para capacidade financeira de adquirir e manter o computador, bem como custear o acesso à internet e a aplicativos básicos.

A partir dos conceitos expostos, nota-se que, nas iniciativas de aplicações das tecnologias de informação e comunicação sob a denominação governo eletrônico, há pelo menos três objetivos: modernização da estrutura e do funcionamento da administração pública; fornecimento de serviços e informações governamentais mais eficientes; empoderamento do cidadão para exercer maior controle social.

O desenvolvimento dos programas de implantação de governo eletrônico associados à reforma estatal, conforme Prado (2009), foi marcado por duas fases. A primeira teve como base o contexto da primeira geração de reforma do Estado e programas voltados para a melhoria da gestão e seu foco essencial era a busca de eficiência e controle de custos. Essa fase é caracterizada por ações direcionadas aos processos internos do governo. Na segunda fase, a preocupação era aumentar a credibilidade dos governos junto ao público externo. As ações empreendidas nessa fase estão “ligadas à melhoria das relações do governo com o público externo, representadas pela maior disponibilização de serviços via Internet, aperfeiçoamento da transparência governamental e busca do aumento do controle social por meio da interação online” (PRADO, 2009, p. 39). Assim, percebe-se que a noção de governo eletrônico ganhou, ao longo do tempo, valores e expectativas que se delineiam conforme as perspectivas assumidas por cada projeto.

A internet revela-se como um meio que aproxima e reorganiza os fluxos comunicacionais, permitindo o estabelecimento de novas formas de compartilhamento de dados e/ou informações. Conforme Jambeiro; Andrade e Sobreira (2008, p. 3),

as tecnologias de informação e comunicações têm papel significativo [...]. Seu crescente uso tem estimulado a realização pessoal de cada pessoa humana, assim como a democratização dos processos sociais, maior transparência dos governos e conscientização da população quanto à sua responsabilidade na administração dos serviços públicos da sua cidade, do seu estado, do seu país. É crescente a crença de que a participação de cidadãos permanentemente ativos e informados é a chave para a construção de uma sociedade democrática.

No Brasil, a apropriação das ferramentas da internet pelos gestores públicos, através de sites e portais de governo eletrônico, teve início em meados dos anos 90 e tem se expandido expressivamente pela aplicação da internet nos diferentes níveis de governo (federal, estadual e municipal) por meio do governo eletrônico ou e-gov. Esse novo modelo de gestão de organizações governamentais visa ao menor custo, a uma maior integração e um melhor relacionamento entre governo e governo, governo e cidadãos e governo e fornecedores na oferta de serviços e informações 7 dias por semana, 24 horas por dia.

O governo eletrônico caracteriza-se por sistemas avançados de informação que possibilitam aumento da eficácia e da eficiência da gestão, melhoria da qualidade dos serviços, transparência e ampliação das possibilidades de fiscalização das ações e dos serviços em planejamento, em andamento e já executados pelas instituições públicas (LEMOS;

ROCHA 2007; SANTOS, 2003; TEIXEIRA, 2004). O governo eletrônico deve ser planejado e executado com a finalidade de promover e facilitar o controle social e possibilitar a participação dos atores sociais no processo de planejamento e de gestão dos municípios em favor da visão estratégica definida para a cidade, bem como atender às necessidades do cidadão.

O Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e Comunicação – CETIC.br realizou, em 2010, uma pesquisa para verificar a existência de alinhamento entre as ofertas do governo e a demanda em serviços de governo eletrônico (e-gov) pela população. Os resultados evidenciados demonstram que o principal meio de acesso aos serviços públicos ainda é o presencial. Contudo, quando a tecnologia é mediadora do acesso ao serviço, 35% da amostra respondeu que a internet é o principal meio de obter os serviços governamentais. Isso revela que há um grande gap a ser preenchido para o uso mais efetivo do governo eletrônico. Mais da metade dos entrevistados declararam que usariam e que indicariam a internet como forma de acesso aos serviços de governo. Outro dado interessante é que mais de 91% dos usuários declararam-se satisfeitos ou muito satisfeitos com os serviços ofertados. No entanto esse grau de satisfação não é confirmado quando os entrevistados são questionados sobre a efetiva utilização. A maior parte (90%) respondeu que usa os serviços de e-gov para buscar informações sobre serviços e 61% utiliza para realizar transações pela internet.

Mais que “meros” murais eletrônicos, nas cidades, os portais municipais podem se tornar ambientes de interação entre os cidadãos, propiciando um espaço coletivo de diálogo e de decisão. “O e-governo municipal, nesse sentido, pode estimular maior interação e transparência entre governo e sociedade e ampliar o espaço para o exercício da cidadania e da prática democrática” (JAMBEIRO; ANDRADE; SOBREIRA, 2008, p. 5).

Uma evidência fica clara até aqui: o uso das comunicações mediadas por computadores através da world wide web favorece a construção de um novo espaço social com grande potencial para fortalecer a democracia. Contudo, as promessas das potencialidades oferecidas pela internet, no âmbito do governo eletrônico, serão cumpridas de acordo com as prioridades governamentais, conforme finalidades atribuídas pelas agendas de governo, bem como pelo cardápio de serviços e informações colocados à disposição da sociedade. Para Prado (2009, p. 161),

o governo eletrônico pode ser um dos mais importantes instrumentos à disposição dos governos para promoção da transparência. Para que o mesmo se concretize como instrumento efetivo de transparência, é necessário, no entanto, a existência de condições político-institucionais que favoreçam a transparência.

A próxima e última seção deste capítulo abordará especificamente sobre o objeto de análise deste estudo, tendo como pano de fundo os elementos e as dimensões analíticas para a compreensão da transparência digital nos websites municipais brasileiros.

4.3 TRANSPARÊNCIA DIGITAL

O emprego do termo transparência digital considera a existência de duas dimensões que têm universos próximos e fronteiras imprecisas: a transparência da gestão governamental e as tecnologias de informações e comunicação digitais. Nesta tese, ao usar essa expressão, pretende-se fazer alusão às experiências e iniciativas de governos que usam dispositivos digitais para potencializar o fortalecimento da democracia por meio da transparência pública.

Para este estudo, a noção de transparência refere-se ao governo cujo poder é exercido por meio de regras e normas prévia e claramente estabelecidas. As ações e decisões são justificadas, publicadas e submetidas ao escrutínio da esfera pública. Assim, toma-se o conceito de transparência no sentido lato e considerando-se ainda que ao tema adere-se um conjunto de conceitos que tonifica o seu efeito. São eles: visibilidade, abertura, accountability e vigilância. Por tecnologias de informação e comunicação entendem-se as aplicações realizadas por meio de redes digitais de longo alcance que permitem acesso e transferência de dados em diversos formatos, realização de serviços que suportam a comunicação assíncrona e síncrona, bem como o compartilhamento de arquivos.

O estudo da interface democracia e internet, visando compreender a sua influência e seus efeitos para o aperfeiçoamento daquele sistema de governo, tem sido objeto de interesse de diversas áreas do conhecimento. Ao mapear as pesquisas nessa área, Bragatto (2011, p. 4) afirma que, apesar do reconhecimento de que a internet, “em certa medida, transforma a relação dos indivíduos com a informação política e que pode propiciar distintas formas de relação entre a cidadania e o Estado, não há ainda clareza a respeito do tipo de impacto gerado e nem do seu alcance”. Na ciência, a falta de clareza e a necessidade de compreender as múltiplas facetas dos fenômenos são o grande motor para novas pesquisas na tentativa responder aos questionamentos em aberto.