As políticas educacionais no período do governo do bloco no poder de Lula da Silva não apresentaram propostas de rupturas com o projeto capitalista, ou seja, as propostas também foram de negociação. Conforme mencionamos anteriormente a composição estatal do período petista, se mostra heterogênea, com embates políticos de natureza distintas, e desse modo, a correlação de força se faz acentuada. No entanto, como a condução governamental não se mostrou de rompimento com o projeto antagônico, as propostas políticas procuram atender aos interesses da burguesia brasileira e das camadas populares, não alterando efetivamente as relações de classe.
Nesse sentido, as políticas para a educação são regidas também pelos pressupostos da Reforma de Estado pautada em racionalização de recursos e seus condicionantes. Predomina a política de terceirização, de ampliação de contratos temporários, de assessoria com organizações privadas para dar suporte organizacional e pedagógico às escolas.
A educação permanece recebendo diretrizes para reformar toda sua estrutura organizacional. Essas propostas estão alinhadas às exigências de reestruturação produtiva e a “nova divisão internacional do trabalho”. Estas mudanças estão pautadas no modelo de gestão empresarial, onde os pressupostos mercadológicos são transpostos para as escolas, centrando- se na racionalidade técnica e financeira em detrimento dos princípios pedagógicos. Nota-se uma predominância das parcerias público-privada no âmbito educacional, que implica em uma incorporação dos valores produtivos no espaço de produção do conhecimento.
Nessa perspectiva Frigotto (2010, p. 8) reitera:
Desse desfecho resulta que no plano estrutural reiteram-se as reformas que mudam aspectos do panorama educacional sem alterar nossa herança histórica que atribui caráter secundário à educação como direito universal e com igual qualidade. Não só algo secundário, mas desnecessário para o projeto modernizador e de capitalismo dependente aqui viabilizado.
Frigotto (2010) coaduna com os estudos de Antônio Cândido (1984), Fernandes (1992) e Saviani (2008), que ao analisar as políticas educacionais brasileiras, em momentos distintos, afirmam que no Brasil a educação é uma prioridade que se situa ao nível da retórica. Historicamente nunca houve propostas educativas capazes de alterar a estrutura da educação pública. Entretanto, segundo o autor, não se pode afirmar que as políticas do governo Lula são meras continuidades do período FHC, seria uma análise antinômica da realidade. Frigotto (2010, p. 10-11) esclarece:
Por isso, naquilo que é, especificamente, competência da esfera federal em sua função suplementar há diferenças no que tange à abrangência das políticas, aos grupos sociais atendidos e ao financiamento posto em prática. Assim, podemos assinalar a criação de mais quatorze novas Universidades Federais, a abertura de Concursos Públicos, a ampliação dos recursos de custeio e uma intensa ampliação dos antigos Centros Federais de Educação Tecnológica, atualmente transformados em Institutos Federais de Ciência e Tecnologia (IFTs). Nesse âmbito foram criadas 214 novas escolas a eles vinculados e cerca de 500 mil matrículas.
Mesmo assim, o autor citado, sinaliza que o processo de reestruturação dos Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFTS) segue a lógica da parceria público-privado. Assim, observa elementos de contradição nas ações políticas do período Lula, que utilizam de pressupostos mercadológicos, meritocráticos, que se distanciam da proposta de uma formação omnilateral apregoada por Marx. Além disso, as políticas desenvolvidas pelo Estado não são universais, são focalizadas e não alteram efetivamente as condições materiais de existência humana.
A utilização de prêmios de produção também é uma prática já utilizada em FHC e nos governos do bloco Lula é até ampliada. É uma política de precarização do trabalho, de redução dos direitos, pois o trabalhador recebe um bônus salarial atrelado a eficiência e produtividade. Essa gratificação não é incorporada ao seu salário real, não há reajustes salariais. No entanto, o governo utiliza perversamente dessa premiação para forjar um discurso de melhoria de remuneração.
A questão da expansão do ensino superior também tem sido bastante evidenciada no bloco no poder do governo Lula. A política do Projeto Universidade Para Todos (PROUNI) tem sido bastante utilizada sob a retórica de justiça social e aplaudida pelos proprietários da rede particular de ensino superior que estavam sob ameaça do excesso de vagas. O governo socorreu os empresários desse setor utilizando recursos públicos para financiar o privado, através de isenções fiscais.
Todavia, essa ampliação não é garantia de efetiva democratização do curso superior. É uma forma simbólica de certificação, visto que predominantemente as instituições credenciadas possuem uma formação instrumental voltada para o mercado. Os processos formativos nessas instituições estão associados ao interesse da classe dominante. Portanto, não há uma perspectiva de emancipação humana e nem de pesquisa.
Observa-se uma degradação das condições de democratização do conhecimento, mas o governo obteve amplo consenso com a implementação desse programa. Induziu-se uma legitimidade social por meio da ampla divulgação midiática com figuras ilustres, que
ocultaram a verdadeira essência do processo. O apoio da classe burguesa a essa pseudo democratização do ensino pode buscar fundamentação nesta passagem de Frigotto (1984, p. 201):
A estratégia burguesa em relação à prática educativa escolar e não consiste apenas na negação do saber socialmente produzido pela classe trabalhadora, senão também, da negação ao acesso do saber elaborado, sistematizado e historicamente acumulado. A desqualificação da escola para a classe trabalhadora consiste exatamente na simples negação da transmissão deste saber elaborado e sistematizado ou no aligeiramento desta transmissão. A luta pela apropriação deste saber - enquanto um saber que não é por natureza propriedade da burguesia - pela classe trabalhadora, aponta para o caráter contraditório do espaço escolar. Contradição que se explicita mediante a luta pela apropriação do saber elaborado, sistematizado e acumulado para articulá-lo aos interesses de classe em conjunturas e movimentos sociais concretos.
Nota-se um descompasso entre o discurso de campanha eleitoral e as ações do governo, visto que se mantiveram os vetos de FHC com relação aos dispositivos do PNE referentes ao financiamento educacional. No processo de instituição do PNE, havia dois projetos em disputa, um das bases governistas que previa a retração do Estado com relação às verbas para educação e o “projeto da sociedade brasileira” que lutava em defesa da escola pública. O projeto do movimento dos educadores foi diluído. Todos os artigos concernentes ao financiamento foram vetados pelo bloco FHC e com a base Lula no poder os vetos foram confirmados. Assim segundo Frigotto (2003, p. 113):
A retração do Estado e a privatização dos serviços, ao contrário do discurso oficial e publicitário, não trouxeram benefícios à população. Ao contrário, privatizaram e elitizaram os serviços, transferiram o clientelismo populista para o clientelismo junto às organizações da sociedade civil e introduziram o voluntariado como uma questão de “cidadania”. São políticas que visam a minorar os efeitos da expropriação econômica e cultural que atingem as classes assalariadas (subempregados e desempregados) marginalizados, em diversos níveis, dos benefícios sociais pelo desenvolvimento das forças produtivas.
É num contexto marcado pelas afirmações dos pressupostos neoliberais que em abril de 2007, no segundo mandato do bloco no poder Lula da Silva, o Ministério da Educação (MEC) através do decreto nº 6.094/2007, lança o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que traz como premissa a necessidade de abranger todo o sistema educacional brasileiro, da educação básica aos cursos superiores. De acordo com o documento, seu objetivo principal é a melhoria da qualidade e a visão sistêmica da educação no Brasil.
Esse plano teve recepção favorável pela opinião pública, principalmente o empresariado25, contando com ampla divulgação na imprensa que inclusive o apelidou de “O PAC da educação”, em analogia ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciado no início de 2007.
Segundo o MEC, o PDE se apresenta como um plano executivo, visto que incorporou várias ações que já estavam sendo desenvolvidas e também se encontram em aberto, em fluxo contínuo, pois novas ações podem ser acrescentadas. O governo tem colocado o PDE como a salvação da educação, quem aderir às diretrizes propostas conseguirá melhorar a qualidade da educação. Porém, a melhoria da educação não se restringe à adesão ao PDE, pois existe uma série de fatores que perpassam e interferem neste processo que serão desenvolvidos ao longo desta análise (BRASIL, 2007).
Além disso, a preocupação com a melhoria da qualidade do ensino público não é recente, os educadores já travam essa luta há longa data. Ainda assim, estes não foram convidados a participar do processo de formulação deste Plano, cabendo sua elaboração aos “intelectuais orgânicos” do MEC. Os principais atores têm papel coadjuvante, participam da implementação ou no máximo do monitoramento das políticas educacionais
Todavia, os empresários foram protagonistas na estruturação do PDE, visto que o MEC incorporou metas do organismo Todos Pela Educação (TPE)26 e aquelas oriunda do fórum popular dos educadores foram adiadas para 2022 e até reduzidas, como foi o caso do orçamento educacional. É uma verdadeira disputa de projetos, conforme ressalta Martins (2009, p. 37):
[...] é possível afirmar que o TPE se materializa como organismo com as estratégias da classe empresarial no campo da educação, lutando para firmar uma perspectiva restrita de formação humana para os trabalhadores brasileiros na atual configuração do capitalismo. Sua inserção na sociedade civil, embora definida como “uma aliança” de esforços para o bem da nação, é, na verdade, uma forma inovadora de se obter consenso em torno de um projeto criado e dirigido pela classe empresarial.
Assim, o PDE expressa o resultado das relações de forças presentes na sociedade e traduz o projeto político que o Brasil deve implementar. Sua gênese se assenta num contexto em que os conflitos e as tensões são minimizados, num “apassivamento das lutas sociais” através da estratégia do consenso (BRASIL, 2007).
Frigotto (2010, p. 12) esclarece:
25 Através do Organismo Todos pela Educação 26
O movimento dos empresários em torno do Compromisso Todos pela Educação e sua adesão ao Plano de Desenvolvimento da Educação, contrastada com a história de resistência ativa de seus aparelhos de hegemonia e de seus intelectuais contra as teses da educação pública, gratuita, universal, laica e unitária, revela, a um tempo, o caráter cínico do movimento e a disputa ativa pela hegemonia do pensamento educacional mercantil no seio das escolas públicas.
Diante do exposto, o bloco no poder Lula da Silva congrega diretrizes de dependência, negociação, afinadas com nova fase de reestruturação capitalista. Como ressalta Ferreira (2009, p. 263):
Como vimos, a gestão das políticas educacionais empreendidas no governo de FHC foi fomentada por ações descentralizadas em todos os níveis e tanto no campo privado quanto no público, transferindo para as unidades federativas (para as escolas e para os trabalhadores da educação) as responsabilidades com a oferta do serviço social. Essa tendência continuou no governo Lula de forma mais sistemática porque foram construídos instrumentos gerenciais e adotadas práticas políticas de convencimento dos governantes estaduais e municipais para a adesão ao “Compromisso Todos pela Educação” de forma mais competente que seu antecessor.
Na próxima seção daremos continuidade sobre a política educacional gestada no governo Lula, particularmente o Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE-Escola) e seus desdobramentos no contexto escolar.
3.3 PLANO DE DESENVOLVIMENTO DA ESCOLA E SEUS DESDOBRAMENTOS NO