PARTE III: O BRASIL DEMOCRÁTICO: DO ENDIVIDAMENTO À POTÊNCIA
5 O Brasil democrático: de Sarney a Itamar
5.1 O primeiro governo civil
5.1.1 O governo Sarney na Economist
No momento da transição nenhum outro assunto foi tão importante como o compromisso assumido por Tancredo Neves de não realizar investigações e punições dos crimes cometidos pelos agentes das Forças Armadas durante a ditadura militar. O gosto pela estabilidade fazia com que a revista visse com bons olhos a candidatura e a eleição do político mineiro414.
Como sabemos, foi José Sarney que acabou assumindo a Presidência. A Economist manifestou que o Brasil voltara a ser uma democracia, mas que o presidente empossado tinha sido fiel aos militares por vinte anos415. Isso poderia provocar uma quebra das alianças que elegeram o presidente e trazer dificuldades para a gestão que se iniciava; era o que a revista chamava de “The plan not the man”416.
O periódico destacou o bom desempenho do PMDB nas eleições de 1986 em que o partido venceu em 22 dos 23 estados. Da mesma forma, obteve franca maioria na Assembleia Nacional Constituinte. Segundo a publicação, esses parlamentares, além de formatar a nova Constituição, tinham a tarefa de decidir quanto duraria o mandato de José Sarney, que já estava em curso e era considerado extremamente impopular417.
Outro ponto importante da cobertura foi o debate da Constituinte. Principalmente as diversas idas e vindas do processo de decisão sobre o regime político e a extensão dos mandatos figuraram nas páginas da publicação. Esta descrevia que o Congresso se movimentava para estabelecer um período de quatro anos em um regime parlamentarista, ao passo que o presidente defendia, assim como os militares, que o mandato fosse de cinco anos num regime presidencialista418. Para a revista, as primeiras eleições diretas aconteceriam em
413 PRADO, Débora Figueiredo Barros do e MIYAMOTO, Shiguenoli. A política externa do governo José Sarney (1985-1990). Revista de Economia e Relações Internacionais, v. 8, n. 16, p. 67-80, 2010.
414 The world's most borrowed man (ed.). 5 jan. 1985. p. 12 e ss.; Democracy can hurt. 19 jan. 1985. p. 46.; Even in Brazil the kissing has to stop. 9 mar. 1985. p. 45 e ss.; The Ash Wednesday awaiting Brazil's revelling politicians. 8 fev. 1986. p. 39 e ss.
415 Mexico's next revolution (ed.). 23 mar. 1985. p. 19.; Calmly done, Brazil (ed.). 6 abr. 1985. p. 13. 416 The plan but not The man. 6 jul. 1985. p. 54.
417 The fall that threatens Brazil's new pride. 22 nov. 1986. p. 49 e ss.; Brazil at the cruzadoroads (ed.). 29 nov. 1986. p. 16 e ss; No reality, please. 6 dez. 1986. p. 60.; Ulysses returns. 7 fev. 1987. p. 53.
418 Beat the clock. 23 mai. 1987. p. 56.; Swapping tales. 18 jul. 1987. p. 86.; A slipping grip. 25 jul. 1987. p. 49.; In the shadow of the generals. 12 set. 1987. p. 63.; O for the wings of a government. 21 nov. 1987. p. 58 e ss.
15 de novembro de 1988: “the case for an election next year is beginning to look unstoppable”419.
Pouco tempo depois repercutiam as vitórias de José Sarney. Estava decidido que ele ficaria cinco anos no poder com a manutenção do regime presidencialista. De acordo com a revista, ele as obteve através da concessão de meios de comunicação para membros da Assembleia Constituinte e da atuação das forças militares: “The decisive intervention came from the country’s top military commanders, the ministries of the army, navy and air force”420.
Sobre os demais aspectos da Constituição demonstrou que apesar do texto garantir direitos civis, liberdades democráticas e direitos do trabalho e de bem-estar social, deixava muito poder nas mãos do presidente da República. Além disso, não havia contemplado uma proposta efetiva de reforma agrária e manteve arraigada a ideia de que era responsabilidade dos militares a manutenção da lei e da ordem421.
5.1.1.1 A sombra dos militares
Uma possível volta dos militares era assunto frequente. Acreditava-se que a fraqueza da figura de José Sarney, aliada aos conflitos no campo e a instabilidade da economia poderiam criar as condições necessárias para que tal acontecesse. Consoante a revista esse temor diminuiu quando o presidente nomeou ministros identificados com os militares422, mas volta a aparecer no survey de 1987423: “A Brizola presidency is considered the event likeliest to provoke a military coup in Brazil”424. O argumento se repete: “If Brizola won, the soldiers
might step in. […] If the election goes awry, no one doubts that the generals will be ready once again to ‘save the democracy’”425.
419 O for the wings of a government. 21 nov. 1987. p. 58 e ss. Cf. também: Democracy on crutches. 5 mar. 1988. p. 64 e ss.
420 Sarney will stay. 26 mar. 1988. p. 56. Cf. também: To a different Latin beat (ed.). 11 jun. 1988. p. 17 e ss. 421 Read, digest, ignore. 10 set. 1988. p. 90 e ss.
422 Caudilhos again. 23 nov. 1985. p. 55.; Land for the people, perhaps. 8 jun. 1985. p. 46.; Land-hungry. 17 mai. 1986. p. 59 e ss.; The little man stands taller. 8 mar. 1986. p. 43 e ss.
423 O survey foi intitulado “Clumsy giant” - o gigante desajeitado - e foi conduzido por Robert Harvey. Harvey foi editor assistente da Economist de 1981 a 1983 quando foi eleito para o Parlamento Inglês pelo Partido Conservador. Depois que deixou a Casa dos Comuns em junho de 1987 foi contratado pelo Daily Telegraph. O
survey tem 26 páginas, sendo sete delas são propagandas.
424 Democracy in nappies. 25 abr. 1987. p. 15 e ss. Cf. The politics of debt. 25 abr. 1987. p. 11 e ss. e Democracy on crutches. 5 mar. 1988. p. 64 e ss.
A possibilidade de retorno dos militares era considerada uma tragédia e avaliava que se o Brasil queria pertencer ao mundo desenvolvido, devia mostrar-se capaz de sustentar uma democracia. A situação econômica ameaçava a estabilidade política: “President Sarney must keep his new fiscal promises, or Brazil risks losing its democracy […] the old joke remains sadly apt: Brazil is the country of tomorrow, and always will be”426. Ainda, às vésperas da
eleição, a hiperinflação acaba aparecendo como a única razão capaz de trazer os governos militares de volta para o Brasil427.
Apesar de toda essa preocupação com o retorno dos militares ao poder, o survey de 1987 fez uma reconstrução da trajetória política do país desde a renúncia de Jânio Quadros até a eleição de Tancredo Neves, sem nenhuma referência ou crítica à ausência de democracia428. Neste sentido, uma volta do governo castrense não era desejada nesse momento, mas este parece ter cumprido sua função na opinião da revista que, de alguma forma, minimizava as violações de direitos humanos do período da ditadura:
The soldiers peaceful withdrawal from power and their comparatively humane human-rights record during their last years in power (under the repressive General Medici in the late 1960s, the army was a lively innovator in torture) have left a less sour aftertaste than in, say, Argentina. There have been no calls for those who committed human-rights violations to go on trial429.
Segundo a Economist, José Sarney era o homem errado para encerrar o processo de redemocratização. Tinha mais saudosismo do passado do que uma visão de futuro. Dessa forma, não era o homem que os brasileiros esperavam para a transição - sempre apoiou os militares, empregava parentes no governo e tinha acusações de corrupção430. Acrescentou: “Generals have made a mess of governing Latin America; democratic politicians are missing a chance to do better431. Sarney era uma “even more incompetent version of its military predecessors”432.
5.1.1.2 Eleições
426 Brazilian summer (ed.). 21 jan. 1989. p. 14 e ss. 427 Hyperinflate, Brazil (ed.). 11 nov. 1989. p. 16. 428 Obsessed with growth. 25 abr. 1987. p. 6 e ss. 429 Democracy in nappies. 25 abr. 1987. p. 15 e ss.
430 In the shadow of the generals. 12 set. 1987. p. 63. A revista já tinha dito que José Sarney era um homem honesto. Cf. Without the principal actor. 20 abr. 1985. p. 54 e ss.
431 To a different Latin beat (ed.). 11 jun. 1988. p. 17 e ss. 432 Brazilian summer (ed.). 21 jan. 1989. p. 14 e ss.
Consoante o semanário, o mandato de José Sarney teria sido prejudicial ao PMDB. Além de dar origem a uma dissidência, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fortaleceu o PDT e o PT. Como vimos, a possível vitória de Brizola foi levantada algumas vezes. E, apesar de ter se referido a Lula com simpatia em diversas ocasiões, enfatizava que a vitória de um daqueles candidatos seria geradora de forte instabilidade política433. E ainda: “Both party leaders have presidential ambitions. If they were to join forces, as some conceive, they would be unstoppable – except by the armed forces”434.
No entanto, o crescimento de Fernando Collor nas pesquisas de intenção de voto fez- se notar. Segundo a publicação, em julho já contava com 40% do eleitorado. O candidato chamou a atenção da Economist ao ser recebido pela primeira ministra Margareth Thatcher. Mostrava-se uma opção viável: “Still, plenty of Brazilian Businessman, surveying the alternatives, are beginning to agree with the opinion poll samples that Mr Collor could be as good a bet as any”435. O apoio do empresário Roberto Marinho foi destacado, inclusive sua
declaração de que usaria sua influência para vê-lo eleito436.
A revista expressou certa descrença no processo democrático e na escolha dos eleitores brasileiros: “It is 29 years since the Brazilians elected a president without their army peeking into the polling as booths. They made a bad choice then, and their politicians are inviting them to make a worse one in November 15th”437.
Com a disputa já no segundo turno, e a polarização esquerda e direita representada por Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor, enfatizou que a decisão estaria no eleitorado do centro. E, sobre o petista acrescentou:
Lula’s Labour party, chastened by the ruins of the Berlin Wall, has given up calling for socialization of the means of production, and even sounds hazy about maintaining the loss-making state enterprises in which the trade unions have most of theirs strength. But he still clings to four incendiary principles: an indefinite moratorium on Brazil’s foreign debt of $110 billion; a rapid redistribution of incomes; agrarian reform; and a reduction in the armed forces’ political influence. Some think the army might feel obliged to pre-empt a victory by the left438.
433 The men who would be president. 25 mar. 1989. p. 80 e ss.; Living with the strains. 25 abr. 1987. p. 26. ; Please stop the world. 25 abr. 1987. p. 9 e ss.
434 The people fire a warning shot. 19 nov. 1988. p. 98. Ainda nesse artigo, a Economist destacou que as Forças Armadas haviam matado 3 grevistas em Volta Redonda, no estado do Rio de Janeiro.
435 The hot prospect from nowhere. 15 jul. 1989. p. 64.
436 Collor television. 19 ago. 1989. p. 53.; Cf. também: Star performers, wheel of fortune. 11 nov. 1989. p. 100. Nesse artigo, comparando Brizola a Getúlio a revista escreveu: “[...] he claims the mantle of Getúlio Vargas who headed various governments both dictatorial and democratic between 1930 e 1954, modelled his corporatist policies on Mussolini’s, and put a bullet through his brain when corruption scandals lapped at the palace door”. Ao contrário do que a revista disse, Getúlio se matou com um tiro no peito.
437 Hyperinflate, Brazil (ed.). 11 nov. 1989. p. 16. 438 Middlemen. 25 nov. 1989. p. 88 e ss.
Apesar de dar como certa a vitória de Fernando Collor a revista não tinha muitas expectativas alertando para o fato de que ela poderia significar mais cinco anos de estagnação439.