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Capítulo III – O Gozo para o Sujeito do Inconsciente

3.9. Gozo e desejo

“Olhem como crescem os lírios do campo: eles não tecem, nem fiam. [...] Nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles” (Mt. 6, 28a-29). Para Vorca- ro (in DUNKER, 2002, prefácio, p. 8) “São Mateus, efetivamente, descreve o usufruto pleno da vida sem qualquer cálculo, considerando-a assegurada por Deus, tal como a natureza.”. Lacan, em O Avesso da Psicanálise (1969-70, 1992, p. 72), cita os lírios do campo para falar do gozo, pois ele relaciona essa passagem do Evangelho de São Mateus ao corpo inteiramente entregue ao gozo, sobre o qual nada sabemos. Com o que goza o lírio, a lula ou o tucano, ja- mais saberemos algo disso porque, “faltando significantes, não há distância entre o gozo e o corpo” (LACAN/1969-70, 1992, p. 168).

Apesar de nada sabermos do gozo, conhecemos seus meios. Sabemos das cócegas e grelhados, como bem descreve Lacan na Epígrafe citada no início deste capítulo. Aí, Lacan (1969-70, 1992, p. 68) compara o gozo ao tonel das danaides, uma vez que ali se entra não se sabe aonde isso vai dar. O mito refere-se ao esforço infindável de quarenta e nove das cinquenta filhas de Danao que, a mando deste, matam seus esposos na noite de núpcias e são condena- das por Júpiter a encher de água um tonel furado. Por séculos elas repetem, sem descanso e num esforço inútil, o movimento de carregar e despejar água no barril furado. Milênios de- pois, quando foram libertadas da pena, disseram confusas e desapontadas: Está cheio o tonel?

Pois bem! Que havemos de fazer? Já estamos habituadas com o trabalho contínuo, mesmo inútil138

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Lacan vai dizer que o saber é isso e que ninguém tem vontade de chegar muito longe em seu uso, mas mesmo assim é tentador. De algum modo, é exatamente este o ponto de in- flexão do primeiro achado de Freud: ter soletrado, escandido o inconsciente. É aí que Lacan (1969-70, 1992, p. 73) observa que “há um saber perfeitamente articulado, pelo qual, falando propriamente, nenhum sujeito é responsável. Quando um sujeito chega a encontrar, a tocar esse saber que não esperava, ele fica, pois bem, ele que fala, fica bastante desconsertado”. Ao pedir que seus analisandos falassem sobre isso, para ver qual é o saber que encontram ou re- pelem, Freud foi conduzido à descoberta do princípio do prazer. A repetição é o essencial do que determina aquilo com que lidamos na exploração do inconsciente.

O que é exatamente a repetição? Lacan descreve que ela não é como a digestão ou qualquer outra função fisiológica - o que a gente terminou e recomeça. A repetição é uma denotação precisa de um traço idêntico ao traço unário, ao elemento da escrita, um traço na medida em que comemora a irrupção do gozo. “Eis porque podemos conceber que o prazer seja violado em sua regra e seu princípio, porque ele cede ao desprazer. Não há outra coisa a dizer – não forçosamente à dor, e sim ao desprazer, que não quer dizer outra coisa senão o gozo” (LACAN/1969-70, 1992, p. 73).

Na psicanálise o Um pode ser identificado ao corpo, à noção de narcisismo; é via nar- cisismo que o corpo, antes despedaçado, faz Um. “O narcisismo é o momento psíquico onde

138 Mito disponível em: http://recantodasletras.uol.com.br/resenhas/1464954 (acesso em 05/02/2010) - onde Fernando K. Dannemann cita a versão do mito do escritor e folclorista Luis da Câmara Cascudo, publicada em 25 de setembro de 1943, no jornal “A República”.

se dá a organização auto-erótica das pulsões parciais em torno de um eixo - o eu é tomado como objeto de investimento das pulsões. Esse eu é o que faz o Um do corpo. Então, o eu narcísico, o corpo imaginário, são sinônimos de Um”139. Mas, a partir do momento em que Lacan introduz o simbólico em sua teoria, não é mais possível a idéia de unidade a partir da imagem (identificação imaginária captada como corpo próprio). “No simbólico, essa identifi- cação vem do significante, ela preexiste, e determina o imaginário. Nesse momento, para La- can, o Um é o traço unário”140.

A partir de 1958141, Lacan define o sujeito como dividido pelo significante que o re- presenta para um outro significante. Disso resulta uma redefinição do desejo (que num 1º tempo era definido como desejo de reconhecimento; fazer-se reconhecer pelo outro na palavra que lhe é dirigida; o desejo é reconhecido pelo desejo do outro). O desejo do sujeito dividido pelo significante é submetido às leis da linguagem (metáfora e metonímia) e, consubstancial destas temos a Lei do desejo (interdição do incesto). Portanto, nesse 2º tempo, o desejo não é mais desejo do outro, mas do grande Outro do significante. Ao se alojar na metonímia da ca- deia significante o desejo se torna indizível. O sujeito não pode mais reconhecer seu desejo, é preciso interpretá-lo para ele, para que ele possa nomeá-lo. A escuta analítica faz o analisando falar, elaborar seu drama, possibilitando a saída da fala vazia, descritiva. Ao não responder à demanda, o analista convoca o sujeito a falar sobre si mesmo, a investigar sua própria fala, que é o significado do desejo. É a articulação de um significante a um outro significante que dá um saber142; o jogo das cadeias significantes proporciona assumir o próprio discurso, ser agente da própria produção. No seminário de um Outro ao outro, Lacan (1968-69, 2008) des- creve o saber como sendo aquilo que falta à verdade.

Como diz Safouan (2006) a fórmula lacaniana de desejo é desnorteante, pois, desejo é desejo de nada, e também, o desejo é inominável. Por esse nada, devemos compreender “nada de efetivo”. “Com efeito, se o desejo encontra sua satisfação na alucinação, como afirma Freud, é porque ela „se realiza‟ em outra parte, na fantasia. É um desejo que, em suma, tam- bém é um não-desejo, ou, mais exatamente, está preso a seu próprio estatuto de desejo.” SA- FOUAN, 2006, p. 30). Quanto à declaração do desejo inominável, Lacan se refere ao conceito

139 LEITE, Márico Peter. “A Teoria dos Gozos em Lacan”. Disponível em:

http://www.antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=750 (acesso em 18/10/2009). 140 Ibidem.

141 A partir de “A instância da letra no inconsciente”.

de sujeito que, não sendo algo, é uma ausência. Por ser uma ausência, o desejo do sujeito não é falta de alguma coisa, “mas uma falta de ser pelo qual o ser existe, e que está pra além de tudo o que pode representá-lo. Ele é sempre apresentado como um reflexo sobre um véu” (SAFOUAN, 2006, p. 31). Daí se tem a direção da psicanálise: conduzir o sujeito a nomear seu desejo. Ao fazer isso, não sem um bocado de trabalho, o sujeito cria o próprio desejo.

Nomear, nessa vertente, “significa extrair o desejo em questão do recalque primário onde ele permanece preso a seu estatuto de desejo vazio” (SAFOUAN, 2006, p. 31). O desejo se situa na cadeia simbólica onde o próprio eu está preso. Á medida em que se erotiza, isto é, quando se captura uma atividade, um objeto, no mecanismo do desejo, temos a intervenção da angús- tia. Daí o sujeito querer se defender; defesa contra o desejo, contra a libido.

“Che vuoi?”, “O que você quer?”. Para Lacan essa pergunta é a que melhor conduz o sujeito ao caminho de seu próprio desejo. Na experiência da linguagem é que se funda a apre- ensão do grande Outro, desse Outro que pode dar a resposta, e uma resposta de oráculo – a- firma Lacan, ao apelo do sujeito em seu desamparo. Ao dar ao sujeito a experiência de seu desejo, o Outro lhe dá ao mesmo tempo uma experiência essencial, pois, é na experiência do desejo do Outro que sujeito faz sua escolha, sua seleção dos significantes; está ao alcance do Outro fazer com que um ou outro dos significantes esteja ali.

O desejo do ser falante é o desejo do Outro; desejo do desejo do Outro; é como Outro que o ser humano deseja.

Žižek desdobra em dois significados a afirmação de Lacan de que é como Outro que o que o ser humano deseja”:

Primeiro significa que o desejo do homem é estruturado pelo grande Outro “descentrado”, a ordem simbólica: o que eu desejo é predeterminado pelo grande Outro, o espaço simbólico dentro do qual eu habito. Sempre que meus desejos são transgressivos, sempre que eles violam as normas sociais, essa mesma transgressão é condicionada pelo que é transgredido. Paulo sa- bia disso muito bem quando, na famosa passagem em Romanos, ele descre- ve como a lei dá origem ao desejo para violá-la. [...] Há, contudo, outro sen- tido para “o desejo do homem é o desejo do Outro”: o sujeito deseja apenas na medida em que ele experimenta o Outro ele mesmo como desejante, co- mo o lugar de um insondável desejo, como se um desejo opaco estivesse emanando dele ou dela. O outro não apenas se endereça a mim com um e-

nigmático desejo, ele também me confronta com o fato de que eu mesmo não sei o que eu realmente desejo, com o enigma de meu próprio desejo.”143

A partir de “As formações do inconsciente”, de Lacan, é possível conceber o desejo “como efeito do aprisionamento do sujeito no desfile da cadeia significante, situando-se no intervalo entre a demanda como expressão da necessidade e a demanda como demanda de amor” (SAFOUAN, 2006, p. 105).

No documento MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO São Paulo (páginas 158-162)