CAPÍTULO V – DA CLÍNICA PSICANALÍTICA PARA
CONCLUSÃO – A FANTASIA SOMÁTICA E OS NÍVEIS
D.. Dicionário do pensamento kleiniano Tradução de José Octavio de Aguiar Abreu Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.)
VI. O gradiente de angústia
A partir da conclusão de que a angústia, seguindo a trilha da pulsão, se insere entre psique e soma, construí um gradiente espirálico de eixo triplo
angústia/elaboração psíquica/alterações do soma, que é definido e aplicado nos casos clínicos e, a partir dele, um gradiente de angústia somática.
O gradiente, ao ser visualizado, mostra três eixos espirálicos entrelaçados entre si, com pontos de aproximação e afastamento entre eles, que, em certos momentos, afastam-se em direções opostas, em outros se aproximam tanto que se
22 Este subitem se refere em sua base ao texto publicado, com algumas subtrações e acréscimos:
PERSICANO, Maria Luiza Scrosoppi. A angústia na trilha da pulsão: Entre psique e soma. A metapsicologia da angústia e de suas manifestações somáticas. Pulsional Revista de Psicanálise, São Paulo, ano XVII, p.131-136, setembro de 2004. Os acréscimos são retirados da própria Dissertação de Mestrado A angústia na trilha da pulsão: Entre psique e soma. A metapsicologia da angústia e de suas manifestações somáticas. Dissertação (Mestrado) - PUC-SP, São Paulo. 2004a.
entrelaçam. Estes eixos são: elaboração psíquica - angústia - alterações do soma.
No gráfico da Figura 1 está o gradiente espirálico de eixo triplo
angústia/elaboração psíquica/alterações do soma. No pânico, há uma completa dissociação psique-soma: as manifestações somáticas se elevam, transformando- se em alterações somáticas, enquanto a angústia se mantém em elevação, sendo o que ocorre nos ataques de angústia, e a elaboração psíquica sofre queda drástica. Mais abaixo do pânico, há a angústia somática, pois se o eixo tríplice não retornar a seu fluxo em espiral teremos a dissociação estabelecida, elaboração e soma seguem caminhos apartados, a primeira em queda descendente, o segundo em crescimento progressivo das alterações somáticas, e a angústia vai chegar a desaparecer do psíquico. Temos o que denominamos de angústia somática. A partir daí, caminha-se para a cronificação e o agravamento das alterações somáticas, conduzindo a doenças e enfermidades. Chegamos, com este gradiente de angústia, à proposta de um gradiente de angústia somática.
O gráfico da Figura 2 é o gradiente de angústia somática, em que temos o processo de dissociação psique-soma. Na angústia somática, a dissociação é completa. A angústia somática é aquela que se manifesta exclusivamente no soma, enquanto quantidades descarregadas no soma sem nenhum representante psíquico, muito menos representação, ligado a estas quantidades. O pânico, dominado pelo vértice somático da angústia, apresenta, entretanto, o mais baixo nível de elaboração psíquica (temor de estar morrendo, temor de estar enlouquecendo).
Este gradiente, aplicado à angústia somática, seria um bom operador metapsicológico, mas também, e, sobretudo, um excelente operador clínico. Graduaria num contínuo que iria do polo de um mínimo de elaboração psíquica /
presença de angústia psíquica não ligada / alterações funcionais temporárias do
soma (típico do pânico) até o polo da elaboração psíquica “zero” / ausência
completa de angústia psíquica / alterações somáticas funcionais prolongadas
neurastenia). perturbações somáticas crônicas e orgânicas degenerativas (doenças e enfermidades). Neste gradiente tem-se o processo de dissociação psique-soma.
O primeiro gradiente é relativo à resistência da ligação e da objetalização, à pulsão de vida; o outro é relativo à dominância da pulsão de morte, da tendência ao desligamento e à desobjetalização. A pulsão de morte, assim, naquele trabalho não foi confundida com qualquer forma de entidade, ela foi entendida, assim como a pulsão sexual, também como uma energia, só que no negativo da pulsão sexual.
Pude justapor os dois gráficos, um que continuamente se entrelaça, outro em que os laços se desconectam, seguindo caminhos soltos e dissociados.
Pulsão de vida é esta energia sexual circulante, fazendo ligações, entrelaçando psique e soma. E a angústia psíquica é seu representante psíquico. Angústia é do vivo fazendo ligações, é vida.
Pulsão de morte é a energia pulsional que se opõe à circulação pulsional da libido, impedindo as ligações e os entrelaçamentos entre psique e soma. A angústia psíquica abandona seu lugar psíquico e, agora, comandada pelo mortífero, retorna ao soma se camuflando nele. É uma angústia somática. Mas a angústia está lá, não desapareceu, apenas perdeu seu lugar psíquico, e denuncia a
presença desta transmutação energética, que se não for interrompida pode levar à morte. É preciso apenas poder reconhecê-la, pois ela, apesar de ser uma angústia a serviço da pulsão de morte, é o último esboço de pulsão de vida, e daí sua importância clínica.
Percebi que descrevera minhas ideias a respeito do gradiente espirálico de eixo triplo da Dissertação, de modo claro, pois os colegas para quem tenho apresentado apenas a descrição do mesmo, sem ter apresentado o gráfico da Figura 1, conseguiam até visualizar a imagem do DNA, sem eu ter revelado que, em 2003, pela primeira vez que idealizei o espiral, tive de desenhar insuficientemente o que imaginava e deparei-me com algo parecido com a figura do DNA. Aí saiu o desenho que fiz para o mestrado, para a Figura 1. A Figura 2 é uma construção imaginária minha, a partir da desorganização das espirais do DNA, que considerei uma ótima representação gráfica da dissociação psique e soma. Percebi que devia repeti-lo aqui, neste trabalho para o doutorado, pelo menos ao apresentá-lo.
Estes dois gradientes serão retomados nesta atual pesquisa a partir de uma leitura da teoria kleiniana da fantasia. Para situar nestes gradientes a fantasia inconsciente kleiniana, seria necessário recorrer à construção de uma diferenciação de níveis de complexidade da fantasia inconsciente, o que apenas esquematizamos em outro trabalho23, necessitando de fundamentação e maior desenvolvimento, que esta pesquisa tentará fazer a partir da clínica. Nestes gradientes, a minha hipótese, surgida da clínica, é de que quando desce a elaboração psíquica, a angústia somática seria a angústia que ficaria apenas ligada à imagética olfativa, gustativa, tátil, sinestésica e interoceptiva das fantasias.
23 PERSICANO, Maria Luiza Scrosoppi. Criatividade e subjetivação: Do cérebro à arte na criação
do humano. In: BARTUCCI, Giovanna (Org.). Psicanálise, arte e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2002. p. 177-198.