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A hiperinflação carcerária deve ser entendida como uma das consequências das políticas ultrarrepressivas (avocadas pelo Movimento Lei e Ordem e pela Ideologia de Defesa Social) implementadas nas últimas décadas. O recurso à prisão e penas severas como o modo principal de solucionar os problemas sociais culminou no grande encarceramento. A superlotação das cadeias é uma marca registrada dos últimos anos do século XX e começo do século XXI. A volatilidade do sistema carcerário é assustador.

No Brasil chegou-se a marca de 607.731 presos em 2015, ocupando o lugar de 4º maior encarcerador do mundo. Na tabela a seguir, é possível observar-se a ascensão do número dos presos no Brasil, de 1992 a 2015.

Tabela 2 - Número de presos: total por 100 mil habitantes até 2014

Ano Total de presos Presos por

100 mil habitantes 1992 114.337 74 1995 148.760 92 1997 170.602 102 2001 233.859 133 2004 336.358 183 2007 422.590 220 2010 496.251 259,17 2011 514.582 269,79 2012 548.003 287,31 2015 607.731 300

Fonte: Ministério da Justiça – a partir de 2005, dados do INFOPEN/MJ.

A tabela 2 apresenta o panorama geral do número de presos no Brasil em uma ordem cronológica ascendente. Observa-se que, a partir de 2001 houve uma rápida ascensão no número de presos. Até o primeiro semestre de 2014, contabilizou-se cerca de 300 presos para cada 100 mil habitantes. Esta realidade é o resultado da crescente criminalização de condutas que até então não eram punidas, da política da “guerra às drogas”, da maior severidade na punição de crimes patrimoniais e da longa duração das penas que se instauram sob a égide do Movimento de Defesa Social.

Diante dessa nova realidade carcerária, Vera Malaguti Batista, sustenta que,

Com a mais drástica expansão carcerária da história da humanidade, conjugam-se prisões decrépitas com imitações da supermax estadunidense e seus princípios de incomunicabilidade, emparedamento e imposição de dor e humilhação aos familiares dos presos. Perdemos a mordida crítica que tínhamos contra o

autoritarismo na saída da ditadura e hoje aplaudimos a tortura e o extermínio dos inimigos de plantão116.

A superlotação das cadeias brasileiras é um problema sério. Infla-se o sistema carcerário com a prisão de pequenos traficantes de drogas e usuários. A pesquisa denominada: Prisão Provisória e Lei de Drogas, realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, já apontava que,

Considerando apenas o intervalo interquartil, excluindo-se do cálculo as maiores e menores quantidades de drogas apreendidas – a média das apreensões por ocorrência foi de 66,5g de drogas. Ao considerar os tipos de droga apreendidos nas ocorrências, em cerca de 40% dos casos houve apreensão de até 100g de maconha. Verificou-se que, em relação à apreensão de cocaína, em cerca de 70% dos casos envolvendo essa droga, houve apreensão de até 100g117.

Na verdade, a perseguição da guerra às drogas é em face do pequeno traficante, pois, as quantidades de drogas apreendidas são ínfimas, o que não justificaria a privação de liberdade das pessoas, principalmente, num panorama onde pouco se ouve falar de prisões de grandes traficantes. É neste sentido que Loïc Wacquart já apontara:

A causa-mestra deste crescimento autônomo da população carcerária é a política da “guerra as drogas”, política que desmerece o próprio nome, pois designa na verdade é uma guerrilha de perseguição penal aos vendedores de rua, dirigida contra a juventude dos guetos para quem o comércio a varejo é a fonte de emprego mais diretamente acessível118.

De fato, o proibicionismo não permite observar que o usuário e o pequeno traficante, muitas vezes são vítimas. No caso do pequeno traficante, normalmente é vítima de desigualdade social. A pesquisa supracitada apontou que, a maioria dos casos de tráfico, independentemente da quantidade de drogas apreendidas terminaram em condenação. Apurou-se que, 91% dos réus foram condenados, e somente 3% absolvidos, e 6% tiveram sentença desclassificatória119.

Esta pesquisa revelou que, de fato, a maioria dos casos classificados como tráfico de drogas termina em condenação, o que justifica a superlotação carcerária. Todavia, prende-se massivamente o pequeno traficante. Segundo Orlando Zaccone,

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BATISTA, Vera Malaguti, ibid., p. 100-101.

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SALLA, Fernando; JESUS, Maria Gorete Marques de; Rocha, Thiago Thadeu. Relato de uma pesquisa sobre a Lei 11.343/2006. Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, Boletim - Ed. Especial Drogas. Gestão do Boletim Biênio 2011/2012. A pesquisa foi realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, realizada em 2012. Nesta pesquisa constatou-se um pequeno volume das apreensões de drogas em cada ocorrência.

118

WACQUANT, Loïc. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: F. Bastos, 2001, Revan, 2003, p. 29.

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No Brasil a criminalização da pobreza tem raízes profundas na chamada “guerra as drogas”: a concentração da repressão penal na última ponta do comércio de substâncias entorpecentes, ou seja, naquele setor mais débil, incapaz de reagir aos comandos de prisão é uma realidade. [...] Hoje, a grande maioria dos presos por tráfico de drogas é formada pelos chamados “aviões”, “esticas”, “mulas”, verdadeiros “sacoleiros” das drogas, detidos com uma “carga” de substância proibida, através da qual visam obter lucros insignificantes em relação à totalidade do negócio120.

A partir de 2006, ano da promulgação da Lei 11.343, as prisões por tráfico de drogas cresceram ainda mais (tabela 2), o que comprova a obsessão punitivista da Política Nacional de Drogas, ao se institucionalizar o recrudescimento das penas. Basta observar-se que, atualmente, mais de 27% da população carcerária geral representam o tráfico de drogas (tabela 2). Esta realidade tende a crescer (considerando o ritmo de ascenção das prisões a cada ano), e nem sequer, especula-se decrécimo. Assim, consolidando-se, o ideal da “Lei e Ordem” para o pequeno traficante (por ser o traficante visível), colocando-os longe do convívio social (atrás das grades).

Ao que se vê, a inovação da lei representou maior eficácia no ponto da repressão, mas pouca efetividade para a proteção e assistência ao usuário121. Assim, é questionável a verdadeira essencia da Lei, se ela presta-se mais para o grande encarceramente, ou se ela visa efeticamente a proteção e assistência ao usuário122, já que o primado da atenção ao usuário não tem sido alcançado.

A tabela 3 e os gráficos a seguir ilustram o percentual e a evolução do encarceramento por tráfico de drogas no Brasil.

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D’ELIA FILHO, Orlando Zaccone. Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas. Rio de Janeiro: Reavan, 2007, p. 116-7.

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Quanto aos gastos, só em 2012 foi gasto com a Segurança Pública R$ 61 bilhões de reais. 37% das despesas com segurança pública no Brasil são, na verdade, despesas com previdência e seguridade social. Por essa estimativa, a despesa efetiva com segurança pública cairia para R$ 40,8 bilhões.

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Andrey Borges de Mendonça e Paulo Roberto Galvão de Carvalho, em seu comentário sobre a Lei de drogas, sustentam que, “a atividade de “prevenção” visa reduzir os fatores de vulnerabilidade e comportamentos de risco ao acesso às drogas, bem como a promover e fortalecer os fatores de proteção, ou seja, aqueles fatores que afastariam os potenciais usuários das drogas, tai como incentivo às atividades esportivas, culturais e profissionais. A “Atenção”, direcionada ao usuário, dependente e respectivos familiares, visa a melhorar a qualidade de vida e reduzir os riscos de danos associados ao uso de drogas, não somente à saúde individual, mas à sociedade como um todo (art.20). Por fim, a “Reinserção Social” visa à reintegração, em redes sociais, do usuário, dependente e respectivos familiares (art.21), ou seja, permitir que eles sejam novamente integrados à sociedade, evitando marginalização”. No entanto, este discurso, parece mais mera utopia, pois, a realidade mostra que tais ações de: Prevenção, Atenção e Reinserção Social, têm sido menores do que o esforço despendido para a repressão, o que se nota, é o maior crescimento da população carcerária, maior marginalização das classes de menor poder aquisitivo, os quais têm maior contato com o pequeno tráfico, sem olvidar-se que as quase poucas instituições de atenção social carecem de estrutura, quando não são apresentadas violações de direitos humanos, como se verá nos gráficos posteriores.

Tabela 3 - População carcerária brasileira: total de presos e percentual de condenados por tráfico - 2005 a 2014

Fonte: Ministério da Justiça/Infopen, 2014.

Gráfico 2 - Distribuição de crimes tentados/consumados entre os registros das pessoas privadas de liberdade - 2012

Fonte: Depen, 2012.

Gráfico 3 - Distribuição de crimes tentados/consumados entre os registros das pessoas privadas de liberdade – 2014

Fonte: Ministério da Justiça/Infopen, 2014.

Ano Total de presos Presos por tráfico % presos por tráfico

2005 361.402 32.880 9,10% 2006 383.480 47.472 12,38% 2007 422.373 65.494 15,50% 2008 451.219 77.371 17,50% 2009 473.626 91.037 19,22% 2010 496.251 106.491 21,46% 2011 514.582 125.744 24,43% 2012 548.003 138.198 25,21% 2013 574.027 150.395 26,2% 2014 607.731 164.087 27%

Gráfico 4 - Crescimento do número de processos por tráfico de drogas

Fonte: Infopen, 2013

Comparando os gráficos 2 e 3, observa-se que houve um aumento de 1,5% para o crime de tráfico de drogas de 2012 a 2014, assim como também houve um aumento de prisões por outros crimes patrimoniais. A crescente repressão e consequentemente, altos índices de prisões por crimes patrimoniais são explicadas por Alessandro Baratta

Nos países de capitalismo avançado 80% dos delitos perseguidos são delitos contra a propriedade. Esses delitos constituem reações individuais e não políticas às contradições típicas do sistema de distribuição da riqueza e das gratificações sociais próprias da sociedade capitalista: é natural que as classes mais desfavorecidas deste sistema de distribuição estejam mais particularmente expostas a esta forma de desvio. A classe dominante está interessada na contenção do desvio em limites que não prejudiquem a funcionalidade do sistema econômico-social e os próprios interesses e, por consequência, na manutenção da própria hegemonia123.

Observa-se que, a tendência é a ascensão desses números porque existe, efetivamente, uma grande desproporcionalidade entre condutas puníveis e as que são efetivamente punidas, ou seja, diante da gama de delitos existentes sistema penal, as que mais resultam em prisões são os crimes patrimoniais e os de tráfico de drogas. Isto demonstra que, o rigor da lei penal incidirá sobre aquelas condutas selecionadas pelo sistema, nos moldes da Defesa Social e da Lei e Ordem.

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BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal: introdução à sociologia do direito penal. (trad. Juarez Cirino dos Santos). 6.ed. Rio de Janeiro: Editora Revan/ICC, 2011, p. 197-198.

É neste sentido que, Loïc Wacquant ao analisar as consequências da política de tolerância zero, afirma:

[...] tolerancia cero [...] significó perseguir agresivamente la pequeña delincuencia, expulsar a los mendigos y a los sin techo de las calles [...] se acabó puniendo severamente infracciones menores [...] castigou-se a pequeños revendedores de droga, prostitutas, mendigos, vagabundos, autores de grafitis. En definitiva al subproletariado que representa una amenaza. A él apunta prioritariamente a política de tolerancia cero124.

A perseguição aos pequenos traficantes fica evidente no gráfico 4, pois observa -se que as prisões relativas ao tráfico internacional de drogas representavam até 2013, apenas 7.431 presos, que, provavelmente, são as mulas apreendidas nos aeroportos e fronteiras brasileiras, porque, de fato, são raras as grandes apreensões no tráfico internacional de drogas que traz enormes quantidades no Brasil, enquanto um enorme mercado de drogas.

Então, considerando que o Brasil possui um grande mercado de drogas consideradas ilícitas, parece pertinente questionar, se o Brasil se enquadra, de fato, como rota do tráfico, ou se é o maior produtor e vendedor de drogas, já que possui elevado índice de prisões relativas ao tráfico de drogas no território nacional e não por tráfico internacional de drogas (que em tese seria a fonte abastecimento do mercado interno). Parece que ainda se carece de maiores estudos e observações sobre o fenômeno das drogas no Brasil, o que faz com que se adotem estratégias de controle equivocadas, o que contribui para o grande encarceramento, e favorece o aumento da violência no tráfico de drogas, enquanto atividade ilegal.

De fato, urge refletir-se sobre a atual política sobre drogas, a fim de alcançar mudança paradigmática na estratégia penal da Política Nacional de Drogas, buscando-se soluções alternativas. É necessário reverter-se o quadro da atuação penal da Política Nacional de Drogas, que se foca mais em prender o pequeno traficante, que comumente, é vítima da desigualdade social, e suas condições econômicas precárias o impulsionam a adentrar em um mercado de trabalho (comércio varejista de drogas ilícitas) onde a violência é perene, por causa da ilicitude do negócio.

Sobre este ponto, o Secretário da Senad, Luiz Guilherme Mendes de Paiva em entrevista da presente pesquisa (Apêndice C), se posiciona da seguinte maneira:

O primeiro passo para reduzir a violência no mercado de drogas ilícitas, [...] é definir as nossas prioridades. O que a gente quer? A gente quer que esse grupo aqui deixe de se matar, pra conseguir acesso aos pontos de venda? Eu entendo que sim, que é isso que a gente tem que fazer prioritariamente, sem descuidar das outras pontas. Eu acho que a gente tem que combater o pequeno tráfico, eu acho que a gente tem que ter muito cuidado e muita inteligência policial na fronteira do Brasil

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para a entrada de drogas. Agora, violência, homicídios, número de homicídios que é um número muito alto no Brasil, é nesse meio aí que a gente tem que focar. E pra isso, é muito difícil, mas a gente tem que tentar.[...] Eu não acho que nós vamos resolver o problema de violência, sem efetivamente oferecer alternativas de vida para um grupo grande de jovens principalmente nas comunidades carentes no Brasil, porque enquanto houver tráfico, vai haver uma economia do tráfico e enquanto houver uma economia do tráfico que oferece várias alternativas mais lucrativas e mais interessantes pra essa gurizada ele vai optar por esse caminho (informação verbal)125.