Os testemunhos R184 e S122 (fig.27 e 28) apresentaram médias granulométricas diferenciadas entre si por valores encontrados para a fração granulométrica argila. No demais, apresentaram semelhança nos resultados de maior porcentagem da fração silte e menor porcentagem da fração areia.
Figura 27- Gráfico de porcentagens totais das classes granulométricas do testemunho R184.
O testemunho R184 (fig.29) apresentou valor máximo de 2,51% da fração areia no topo do testemunho, na profundidade de 0,8 m, e valor mínimo de 0,10% na profundidade de 2,8 m. Os valores de silte e argila foram opostos em totalidade em relação à profundidade, onde em 0,5 m foi encontrada porcentagem máxima de silte, 97,81%, foi visto o menor valor de argila de 0,87%. Enquanto que na profundidade de 3,6 m foi identificada menor porcentagem de silte, 74,56%, e valor máximo da fração granulométrica argila de 25,27%.
O testemunho S122 (fig.30) apresentou porcentagem máxima de areia de 11,14% na profundidade de 0,9 m, e mínima de 0,11% em 3,1 m de profundidade. O valor máximo para a fração granulométrica silte foi de 99,19% em 2,4 m, e mínimo de 85,99% em 0,9 m de profundidade, coincidindo com ponto máximo da fração areia. Para os valores de argila foi encontrado máximo de 9,96% na profundidade de 3,1 m, coincidindo com ponto mínimo da fração areia, e valor mínimo de 0,02% na profundidade de 2,6 m.
7.2.1 Classificação estatística do testemunho R184
Classificação de Folk e Ward
De acordo com a classificação de Folk & Ward (1957) as amostras do testemunho R184 foram classificadas como silte fino, com exceção da amostra em 0,5 m de profundidade que foi classificada como silte médio. Quanto ao grau de seleção em sua totalidade foi classificado como mal selecionado, apresentando valor máximo 1,56 e mínimo de 1,25 (fig.31). Quanto à curtose foi classificado em totalidade como platicústica, apresentando valor máximo de 0,78 e mínimo de 0,69 (fig.32). Já para a classificação quanto à assimetria as amostras foram classificadas como muito negativa, apresentando valor máximo de 0,03 e mínimo de -0,04 (fig.33).
Figura 31- Valores de grau de seleção do testemunho R184.
Figura 33- Valores de assimetria do testemunho R184.
Diagrama de Shepard
O diagrama de Shepard (1954) classificou os sedimentos uma pequena parte como Silte Argiloso e as demais amostras como Silte ou Siltito (fig.34).
Diagrama de Perjrup
De acordo com Perjrup (1988) os sedimentos do testemunho foram classificados como silte depositado em ambiente com hidrodinâmica alta (III) e hidrodinâmica muito alta (IV)(fig.35).
Figura 35- Classificação de Perjrup (1988) para os sedimentos do testemunho R184.
7.2.2 Classificação estatística do testemunho S122
Classificação de Folk & Ward
De acordo com a classificação de Folk & Ward (1957) as amostras do testemunho S122 foram classificadas como silte médio, predominante no topo até cerca de 1,5 m, e silte fino ao longo da profundidade do testemunho. Quanto ao grau de seleção em sua totalidade foi classificado como mal selecionado, apresentando valor máximo 1,71 e mínimo de 1,23 (fig.36). Quanto à curtose foi classificado como mesocúrtica no topo e a partir de 1 metro de profundidade foi classificada como platicústica, apresentando valor máximo de 1,07 e mínimo de 0,73 (fig.37). Já para a classificação quanto à assimetria as amostras foram classificadas como muito negativa, apresentando valor máximo de 0,03 e mínimo de -0,15 (fig.38).
Figura 36- Valores de grau de seleção do testemunho S122.
Figura 37- Valores de curtose do testemunho S122.
Diagrama de Shepard
O diagrama de Shepard (1954) classificou os sedimentos em totalidade como Silte ou Siltito (fig.39).
Figura 39- Classificação de Shepard (1954) para os sedimentos do testemunho S122.
Diagrama de Perjrup
De acordo com Perjrup (1988) os sedimentos do testemunho foram classificados como silte depositado em ambiente com hidrodinâmica muito alta (IV) (fig.40).
7.2 MATÉRIA ORGÂNICA
Os teores médios de matéria orgânica nos testemunhos R184 e S122 (fig.41) foram de 4,58% e 7,3%, respectivamente. No testemunho R184 os valores encontrados foram de 0,81% a 7,74% (variação total de 6,9%). No testemunho S122 os valores encontrados foram de 1,21% a 19,28% (variação total de 18%).
7.2.1 Teor de M.O. do testemunho R184
O testemunho R184 (fig.42) apresentou um padrão crescente/decrescente no teor de matéria orgânica presente nos sedimentos. Sendo os maiores valores na seções A e C, nesta ultima foi encontrado o valor máximo de 7,74% em 2,4 m de profundidade. Os menores valores foram representados pelas seções B e D, onde na seção B foi encontrado valor mínimo de 0,81% em 1,1 m de profundidade.
7.2.2 Teor de M.O. do testemunho S122
O testemunho S122(fig.43) também apresentou um padrão crescente/decrescente no teor de matéria orgânica presente nos sedimentos. Sendo o valor máximo de 19,28% em 1,0 m de profundidade, na seção de topo do testemunho. Enquanto que o valor mínimo de 1,21% em 2,3 m de profundidade, na seção C do testemunho.
7.3 CARBONATO DE CÁLCIO
Os teores médios de carbonato de cálcio nos testemunhos R184 e S122 (fig.44) foram de 6,72% e 25,81%, respectivamente. O teor de carbonato de cálcio encontrado nas amostras do testemunho R184 foi máximo de 15,06% e mínimo de 0,64% (variação total de 14,4%). No testemunho S122 o valor nas amostras foi máximo de 74,99% e o valor mínimo de 6,30% (variação total de 68,6%).
7.3.1 Teor de CaCO3 do testemunho R184
O testemunho R184 (fig.45) não apresentou um padrão bem definido no teor de carbonato de cálcio presente nos sedimentos. Sendo o valor máximo de 15,1% em 2,4 m de profundidade. Enquanto que o valor mínimo foi de 0,64% em 2,2 m de profundidade. Ambos valores encontrados na seção C do testemunho.
7.3.2 Teor de CaCO3 do testemunho S122
O testemunho S122 (fig.46) apresentou comportamento decrescente no teor de carbonato de cálcio presente nos sedimentos. Tal comportamento se acentuou a partir 1,5 m de profundidade, onde não é observado aumento significativo comparado ao topo do testemunho. Sendo o valor máximo de 74,9% em 0,6 m de profundidade. Enquanto que o valor mínimo foi de 6,3% em 2,2 m de profundidade.
7.3.3 Classificação de Larsonneur (1997)
De acordo com a classificação de Larsonneur (1977) os sedimentos do testemunho R184 foram classificados em totalidade como litoclásticos do tipo lama terrígena (tab.8)
Tabela 8- Classificação do testemunho R184 de acordo com Larsonneur (1997).
Profundidade (m) CaCO3 (%) Classificação
0,1- 4,0 CaCO3 < 30%
0,6%- 15%
Sedimento Litoclástico L<75%
De acordo com a classificação de Larsonneur (1977) os sedimentos do testemunho S122 apresentaram os quatro tipos de classificação exemplificados na tabela 9.
Tabela 9- Classificação do testemunho S122 de acordo com Larsonnneur (1997).
Profundidade (m) CaCO3 (%) Classificação
0,1- 0,2 30% < CaCO3 >50% 38,6%- 46,7% Sedimento Litobio L> 75% LL2c Marga 0,3 70%> CaCO3 70,1% Sedimento Bioclástico L>75% LB2c Vasa calcária 0,4-0,5 30% < CaCO3 >50% 36,3%- 36,9% Sedimento Litobio L> 75% LL2c Marga 0,6 70%> CaCO3 74,9% Sediemento Bioclástico L>75% LB2c Vasa calcária 0,7-0,8 50% < CaCO3 <70% 60,3%- 69,6% Sedimento Biolitoclástico L>75% LBlc Marga calcária 0,9-1,0 30% < CaCO3 >50% 46%-35,6% Sedimento Litobio L> 75% LL2c Marga 1,1 50% < CaCO3 <70% 54,9% Sedimento Biolitoclástico L>75% LBlc Marga calcária 1,2- 1,4 30% < CaCO3 >50% 32,9%-42,3% Sedimento Litobio L> 75% LL2c Marga 1,5- 4,0 CaCO3< 30% 21,2%- 6,3% Sedimento Litoclástico L>75% LLlc Lama terrígena
7.4 FICHA TÉCNICA
Agrupando os resultados foi possível a elaboração da ficha técnica do testemunho R184 (fig.47).
Agrupando os resultados foi possível a elaboração da ficha técnica do testemunho S122 (fig.48).
8 DISCUSSÃO
8.1 TEXTURA E GRANULOMETRIA
A estratigrafia rasa da bacia Foz do Amazonas é representada pela Margem continental passiva, definida na última fase deposicional. Apresenta sequências sedimentares distintas, porém, semelhante quanto sua origem através de sistemas fluviais, depósitos fluvio- deltaicos e estruturas formadas por carbonatos terrígenos (Brandão & Feijó 1994). A alta descarga hídrica e sedimentar do rio Amazonas são os principais mecanismos energéticos que atuam na região, oriundo desse transporte é significativa a influência de deposição de sedimentos finos terrígenos na desembocadura do rio.
Por meio dos parâmetros estatísticos, obtidos na análise granulométrica, é possível expressar e comparar distribuições de tamanho de grão de maneira qualitativa e quantitativa (Calliari 1980). A partir dos parâmetros estatísticos obtidos foi possível indicar:
Ocorreu predominância de sedimentos da fração granulométrica silte em ambos os testemunhos, de acordo com a classificação sedimentar de Folk (1954). Ottmann (1968) foi pioneiro em identificar fácies de lama adjacente à foz do rio Amazonas, sugerindo tratar-se de uma zona de deposição brusca de sedimentos em suspensão trazidos pelo rio, formada de lama argilosa fluida com baixo teor de carbonato de cálcio. De acordo com Nittrouer (1983) os sedimentos da região de estudo possuem uma idade moderna para a sedimentação dos depósitos de lama, associadas ao transporte da pluma do rio para noroeste pela Corrente Norte do Brasil (Gibbs 1976). Medições de sedimentos sem suspensão sugerem que <5% da descarga sólida anual é transportada pela pluma de superfície de baixa salinidade e, 7-17% são trazidos para fora da plataforma (Souza 2010), sendo condicionados por agentes de transporte como fluxo de maré e corridas de lama fluida para o talude continental.
Foram observadas diferenças entre topo e base dos testemunhos, sendo que para o testemunho R184 foi encontrado areia no topo, provavelmente do transporte de sedimentos terrígenos, e aumento da fração argila no sentido da base. Já para o testemunho S122 as variações entre topo e base foram menos acentuadas, sendo encontrado areia no sentido topo- base até aproximadamente 3,0 m de profundidade, e argila ao longo dos 4,0 m de comprimento da coluna sedimentar, vale ressaltar a distância de 35,5 km entre os mesmos.
Distinções entre os testemunhos foram vistas nas porcentagens médias de areia, onde no testemunho R184 foram obtidos 2,9% e no testemunho S122 foram obtidos 0,69%. Assim
como nas porcentagens médias de argila, onde no testemunho R184 foram obtidos 11,6% enquanto que no testemunho S122 foram obtidos 4,1%.
De acordo com os resultados obtidos no diagrama de Shepard (1954), ambos os testemunhos foram classificados como silte ou siltito.
O grau de seleção, o qual descreve o selecionamento do pacote sedimentar em relação ao seu transporte e deposição (Folk & Ward 1957), em ambos os testemunhos se apresentou como silte pobremente selecionado. Segundo Suguio (2003) a predominância sedimentar pode indicar a resposta da energia hidrodinâmica durante sua deposição. Sendo assim, foi obtido com os resultados estatístico de curtose, a qual é relacionada ao nível de energia do ambiente deposicional (Alves 2001), que os sedimentos do testemunho R184 apresentaram-se como platicúrtica e do testemunho S122 como mesocúrtica e platicúrtica.
Nos resultados quanto à assimetria em ambos os testemunhos foram classificadas como muito negativa. Segundo Duene (1964) assimetria negativa indica um enriquecimento em partículas grosseiras e tendência a remoção de sedimentos do ambiente. Tal remoção, indicada pela assimetria, pode ser confirmada pelo diagrama de Pejrup (1988), que nos permite ter uma análise hidrodinâmica a qual os sedimentos foram submetidos. Ambos os testemunhos foram classificados nas seções III-D (hidrodinâmica alta) e IV-D (hidrodinâmica muito alta).
8.2 MATÉRIA ORGÂNICA
Grande parte da matéria orgânica presente em solo, água e sedimentos ocorre na forma de substâncias húmicas, classificadas como ácidos fúlvicos e húmicos. Essas substâncias funcionam como o maior reservatório de matéria orgânica em sistemas naturais, estando condicionadas ao balaço de perdas e ganhos das reações de oxi-redução no ambiente (Baldotto et al. 2013).
Segundo Souza (2010) os maiores teores de MO são encontrados próximos à região costeira, sobre influência de sedimentos terrígenos e diminuem conforme o afastamento do continente. Porém, o conteúdo de matéria orgânica no testemunho R184, localizado a 884 m de profundidade, apresentou valor médio 2,7% menor em relação ao testemunho S122, que se localiza mais afastado da linha de costa, a 1910 m de profundidade. Esta variação entre os dois testemunhos gera uma discordância para os padrões esperados, onde os valores de MO deveriam ser maiores para regiões com maior influência continental. Tal discordância provavelmente deve ter sido gerada por deslizamentos ou depósito sedimentar da plataforma
no talude, sendo comum tal fenômeno, pois a região é caracterizada por episódios de megadeslizamentos, segundo Araújo et al. (2009). Tal variação também foi vista por Vasconcelos (2018) onde no ponto de perfuração mais raso no talude amazônico foi obtida média de 4,4% e no ponto de perfuração mais distante da costa a média foi de 6,5%.
8.3 CARBONATO DE CÁLCIO
Milimann (1979) indica que os sedimentos da Plataforma Continental Amazônica possuem teor de CaCO3 inferior a 30%, e que a quantidade de CaCO3 nos sedimentos desta região aumenta em direção ao talude continental. Assim como obtido no estudo de Vasconcelos (2018) as médias de 11,7% no ponto mais raso e próximo a costa, e média de 20% no ponto de perfuração mais distante da costa.
O que entra em acordo com os resultados obtidos nas análises, onde no testemunho R184 foi obtido valor médio de 6,7%, não apresentando variações significativas ao longo da coluna sedimentar, sendo classificado em totalidade como composto por sedimentos litoclásticos do tipo lama terrígena, de acordo com Larsonneur (1977). E para o testemunho S122, com média de 25,8%, as concentrações em algumas amostras do topo do testemunho chegaram a apresentar 75% de CaCO3, sendo classificado de acordo com Larsonneur (1977) como sedimento bioclástico do tipo vasa calcária, em 0,6 m de profundidade. Somente a partir da profundidade de 1,5 m o testemunho S122 apresentou mesma classificação em relação ao testemunho R184, como sedimento litoclástico do tipo lama terrígena.
A produção carbonática está associada a sedimentos biogênicos, grande parte de origem autóctone autigênica e bioquímica. Formados a partir de reações químicas entre água do mar e compostos minerais ou após a morte e decomposição de organismos com carapaça, os detritos são redistribuídos nos sedimentos preexistentes no fundo marinho. Como controladores do suprimento biogênico marinho destaca-se a produtividade primária de nutrientes, processos de dissolução de carbonatos e sílica, assim como o maceramento e diluição provocados pelo aporte de sedimentos terrígenos (Baptista Neto 2004)
9 CONCLUSÃO
Foram analisados dois testemunhos coletados no talude continental da Foz do Amazonas medindo 4 metros de comprimento em cada ponto de perfuração.
Com base nos resultados obtidos através de análises laboratoriais, os parâmetros granulométricos dos sedimentos do talude continental da Foz do Amazonas mostraram-se classificados como: curtose como platicúrtica com algumas exceções de mesocúrtica, assimetria muito negativa, grau de seleção pobremente selecionado e diâmetro médio classificando os sedimentos como silte fino, com algumas exceções de silte médio.
Os teores de matéria orgânica variaram de 0,81 a 7,74%, no ponto de perfuração mais raso,apresentando média de 4,5%, e 1,21 a 19,28%, no ponto de perfuração mais profundo, apresentando média de 7,3%. Sendo observada maior concentração neste último (S122), assim como, variações significativas relacionadas à concentração de matéria orgânica entre topo-base do testemunho.
Os teores de carbonato variaram de 0,64 a 15%, no ponto perfuração mais raso,apresentando média de 6,7% e variação total de 14,4%. E 6,3 a 75%, no ponto perfuração mais profundo, apresentando média de 25,8% e variação total de 68,6%. Sendo novamente observadas, neste último (S112), variações significativas de concentração no sentido topo- base do testemunho.
Por fim, os sedimentos de ambos os testemunhos apresentaram classificação de silte ou siltito de acordo com os parâmetros estatísticos do diagrama de Shepard (1954), e características de condições hidrodinâmicas altas a muito altas de acordo com o diagrama de Perjrup (1988).
Foi utilizada como referência comparativa mais próxima o estudo do talude amazônico realizado por Vasconcelos (2018). O mesmo, assim como este estudo, também participa do projeto de Estudos Sistemáticos da Sedimentação Recente do Talude Continental da Margem Equatorial (Amazonas, Pará-Maranhão) (2017/presente). Segundo a autora foram obtidas médias de MO de 4,4% e 6,5%, e CaCO3 de 11,7% e 20%. Resultados que apresentam grande semelhança com os aqui expostos. Sendo assim, o presente estudo contribuiu e proporcionou uma padronização nos dados obtidos para região do Talude Continental Amazônico.
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