4. APRESENTACÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.2 A ESF como cenário capaz de promover autonomia da equipe de trabalho
4.2.1 Grau de governabilidade do trabalhador sobre o seu trabalho
A análise evidenciou que existe uma abertura proporcionada pela ESF para uma autonomia do trabalhador, gerada pelo autogoverno que esse tem sobre o seu trabalho, lhe permitindo em certa medida, fazer a gestão do cuidado.
[...] Em relação à equipe [...] a gente tem algumas dificuldades [...] pelo modo de ver o que é o trabalho do ACS [...] Eu não perco oportunidades. Se eu tenho que entrar na escola, eu vou, se eu tenho que juntar os adolescentes na rua, eu ajunto [...] outros membros da equipe, acham que isso não tem nada a ver com o trabalho(ACS 1).
Esse discurso mostra uma apropriação do trabalhador, de novas ferramentas para realização do trabalho, redirecionando-o para um modo de cuidar que extrapola o modelo biomédico vigente e, sinaliza para a intersetorialidade, princípio fundamental para o cuidado. Esse novo fazer, por vezes é motivo de incômodo para
aqueles que concebem o ato cuidador, preso às prescrições normativas conforme o trabalhador relatou.
Esse autogoverno evidenciado, dá a abertura para que o ACS alcance outros espaços sociais para o cuidar em saúde, no entanto nem sempre são reconhecidos pela equipe.
Falar em governabilidade significa pensar nos limites ou pontos de contato entre o governo de si, abstraídos como exercício de autonomia, (LURAMMINGER, T.; NARDI, 2001).
Merhy, (1997) afirma que qualquer trabalhador da saúde possui um autogoverno em suas ações, que lhe permite interferir claramente no conteúdo de uma dada etapa do processo de trabalho, ou até mesmo em todo o processo.
Por sua vez, Campos (2006) argumenta sobre a produção do trabalho em saúde e, salienta que a complexidade do objeto, objetivos e meios de intervenção das práticas de saúde, sempre permitirá algum grau de tomada de decisão autônoma pelo trabalhador, pois esse lida com uma grande variabilidade de situações, que nem sempre se enquadram nas normas dos protocolos.
Mas percebo que todo mundo tem sua atitude também. Alguém influência, mas tem aquela que vai fazer da forma dela mesma (TE 2). Esse depoimento evidencia, que mesmo o trabalhador sendo orientado a agir conforme os protocolos estabelecidos, ele sempre terá um determinado poder e autogoverno.
Nesse sentido, Fortuna et al (2005, p.268) completam:
Os trabalhadores fazem o que acham que precisam fazer independente de suas chefias. Ainda que esses poderes fiquem mais num plano não visível. Quem desconhece o poder que, muitas vezes, a auxiliar de serviço exerce na equipe, no sentido de determinar, independentemente das normas?
Esse autogoverno que o trabalhador tem, funciona inclusive como instrumento para que ele confronte com as estruturas normativas presentes no serviço. Estruturas estas, nem sempre flexíveis para propiciar autonomia do sujeito.
“Sempre temos a possibilidade de mudar a situação [...], não podemos nos colocar à margem da situação e, de forma alguma, estamos livres de toda relação de poder. No entanto, sempre poderemos transformar a situação. Isto não significa que estaremos sempre enredados, antes, pelo contrário, somos sempre livres”.
O autor afirma que somente sujeitos livres são capazes de promover mudanças. O poder não é exercido onde não há liberdade, pois é esta que possibilita a reação por parte daqueles sobre os quais as estruturas dominantes atuam. É possível então, olhar para o trabalhador de saúde que possui um enorme leque de possibilidades para o agir.
São vários os caminhos que o trabalhador de saúde pode percorrer, para a partir da dependência, fazer gerar a autonomia e, em especial o ACS que tem na conformação de seu campo de responsabilidade as ações que permitem formar vínculos:
Às vezes você vai falar de um paciente com o supervisor, passa um dia, dois dias e, você não consegue passar aquilo. Aí eu peço socorro, vou pro doutor, pra técnica de enfermagem [...] peço orientação para ACS. Não deixo de levar o retorno para o paciente, não quero nem saber para que caminho eu vou [...] se eu não conseguir falar com a coordenadora, eu vou por outro caminho (ACS 3).
O trabalhador evidencia comprometimento com o seu trabalho enquanto parte de uma equipe de saúde, de dar resposta para o usuário, mesmo que para isso ele tenha que mobilizar todas outras possibilidades de decisão dentro do grupo. Mostra que nem sempre dá para caminhar pelas trilhas instituídas, nesse caso, orientado pela sua coordenação. O trabalhador abre outras linhas de fuga para o cuidado.
As linhas de fuga surgem no e do dia-a-dia, muito sutis, nascem no ato de produção do trabalho em saúde, emaranhadas às outras linhas, dando lugar para a quebra das rotinas estabelecidas, possibilitando criar novas formas de cuidar (MATUMOTO et al 2011).
Cada um dos ACS se organiza de uma forma, [...] tenho bem a convicção do que é o trabalho do ACS. [...] Quando eu tenho convicção de que o que eu to fazendo é o certo, então eu brigo, [...] A gente “bate de frente” com a coordenação (ACS 1).
Essa convicção expressa pelo ACS, parece conotar um autogoverno de suas ações, amparado pela certeza que ele tem, em relação ao seu verdadeiro papel na equipe. Olhando sob esse aspecto, Pires (2005) propõe o “conhecer para cuidar melhor”, onde a intervenção cuidadora é revolucionária, podendo fortalecer autonomias e qualificar enfrentamentos, emancipando pela desconstrução progressiva de assimetrias de poder.
Tenho segurança, não faço nada de errado, nada que vai me comprometer, não beneficio ninguém, procuro trabalhar naquela questão da equidade, de ver a necessidade daquele paciente, naquele momento, de ver a dificuldade dele (ACS 5).
Não raramente é possível observar nos serviços de saúde, situações nas quais, prevalecem condutas individuais de trabalhadores, que por possuírem certa autonomia no que faz, posicionam-se muitas vezes na linha do favorecimento. A fala anterior dá abertura para olhar as possíveis situações em que o autogoverno de um profissional da saúde, nem sempre pode levá-lo a agir dentro do que é esperado na dimensão do cuidado, em conformidade com os princípios da equidade.
Nessa vertente, Matumoto et al (2011) discutem que no cenário onde acontecem as inúmeras possibilidades de ação e de produção de cuidado envolvendo o autogoverno dos trabalhadores, podem existir pequenas fissuras, fazendo passar fluxos, intensidades e desejos que nem sempre são cuidadores e, nem sempre libertadores.
Não tenho medo de fazer o meu trabalho, mesmo que tenha que enfrentar e “bater de frente”, como fiz muitas vezes, até em casos de pacientes, de ter que me colocar à frente da família, até pra defender algumas questões de saúde , ter que por “minha cara pra bater” (ACS 3).
Quando se trata de analisar o grau de governabilidade que cada trabalhador na ESF tem sobre o seu trabalho, logo a questão envolve também, a análise das relações de poder. Desse modo, foi evidenciado que o trabalhador exerceu sua autonomia em certa medida, ao colocar-se no lugar do usuário, em uma situação conflitante, envolvendo o serviço de saúde local.
O enfrentamento apontado pode ser visto como uma relação de poder estabelecida, que teve como bases de sustentação, o autogoverno do trabalhador, que se mobilizou em prol do usuário.
Nessa lógica, Foucault (1995, p.244) argumenta que a autonomia surge como um estado transitório em que sujeitos individuais ou coletivos, têm diante de si, um campo de possibilidades de diversas condutas, reações e maneiras de comportamento que podem acontecer.
Assim, falar em autonomia significa entrar pelas malhas do exercício do poder, em outros circuitos, outros arranjos, distribuição, diluição e capilarização do poder, pois esse é produtor e organizador de forças, mais que controlador (CECÍLIO, 1999).
A partir do momento em que se estabelece uma relação de poder, surge também uma possibilidade de resistência e de liberdade. Não seremos continuamente aprisionados pelo poder; sempre é possível mudar sua dominação em dadas condições, utilizando estratégia precisa (FOUCAULT, 1979 9. 242). Retomando a fala anterior, pode-se propor que a autonomia declarada, pode ter ocorrido pelas vias do conflito, ou seja, pela relação de poder instalada.
Porque é assim, o técnico de enfermagem pode fazer bem as coisas dele, eu posso fazer bem as minhas coisas, o doutor pode ser um ótimo médico, além do dever. Se eu quiser eu posso me empenhar, dedicar e me doar como enfermeira, a equipe tem isso muito claro [...] (E).
O trabalhador traduz a subjetividade presente no ato de cuidar a partir do seu modo de significar o trabalho. Trata-se de um processo que fundamentalmente perpassa pelo repertório individual dos sujeitos, que dialoga com a sua maneira de sentir, de enxergar, de fazer andar a vida, de seus desejos e do seu compromisso ou não com o outro. Os desfechos desses processos subjetivos tendem a ecoar na forma como a saúde será produzida.
Nesse contexto Fortuna (2003) propõe que o trabalho em saúde, a equipe e o trabalho sejam vividos como uma produção de produção, Isto é, a equipe libera desejo, criação e, conduz o trabalho para uma determinada finalidade de produção de
vida, cuidados e cidadania. Por outro, a equipe em anti–produção, é barreira para a produção, pode autodestruir-se.
Outra questão para análise desse relato relaciona-se ao poder-para, que parece permear o discurso no qual o trabalhador afirma, que além do dever (entendendo dever como compromisso com a instituição), se ele empenhar-se, deixar transbordar o cuidado, posicionar-se como sujeito de transformação, poderá alcançar a finalidade do trabalho - a saúde da população, ou contrariamente, limitar-se. Ambos os propósitos, estão sujeitos ao trabalhador, ao seu autogoverno.
Sob o olhar de Foucault (2003) é possível enxergar nesse discurso, que o trabalhador não possui poder, mas exerce-o, ele “pode”. Pode encaminhar o trabalho para diferentes direções, a partir do modo como este significa a vida e o próprio trabalho.
Portanto, todo processo de trabalho em saúde busca a produção do cuidado. E este, de acordo com as linhas de interesses que lhe dão sentido, impostas pelos vários atores em ação, permitirá a realização de distintos resultados, mais ou menos comprometidos com os interesses dos usuários, mais ou menos como mecanismos que libertam ou inibem processos de autonomia (MEHRY, 2001).
Afinal, Os trabalhadores não são uma “caixa vazia”, inversamente, aproveitam seus espaços de autonomia para agir como lhes parece certo, a partir de seus valores e objetivos (HELMAN, 2003). Logo, preservar a autonomia dos trabalhadores é fundamental para aumentar a qualidade do cuidado, sua capacidade de decisão, de envolvimento, de compromisso e vínculo com o usuário (FEUERWERKER, 2005).
4.2.2 ESF: espaço fértil para ensejar relações mais democráticas no trabalho