Capítulo 6. Os graus de falso si-mesmo
II) E u grau e os extre o o falso si-mesmo defende o si-mesmo verdadeiro; o
si-mesmo verdadeiro, contudo, é percebido como potencial e é permitido a ele ter u aà idaàse eta à Wi i ott,à [ ]/ ,àp.à .àáà is oà oà àt oàe t e aàeà a pessoa tem algum contato com o si-mesmo verdadeiro. Porém, ele permanece protegido, resguardado, e o indivíduo tem pouca esperança de estabelecer, com alguém, uma comunicação verdadeira. Neste caso pode-se supor que, em comparação com o caso anterior, o bebê teve uma experiência mais favorável no período da primeira mamada teórica. Creio que neste grupo estão os indivíduos cujas mães foram
suficientemente boas no período da dependência absoluta, mas que – estando o lactente pronto para seguir em direção à separação da unidade mãe-bebê – não puderam facilitar a desilusão necessária para que o bebê descobrisse a existência de objetos não-eu e entrasse no estágio da transicionalidade. Algumas mães,
começam a ficar tão boas na técnica de criá-los [os filhos] que fazem tudo certo no momento exato, e assim o lactente que tinha começado a se tornar separado de sua mãe não tem meios de assumir o controle sobre as coisas boas que estão acontecendo. O gesto criativo, o choro e o protesto, todos esses pequenos sinais para induzir a mãe a realizar o que faz, todas essas coisas ficam faltando, porque a mãe já satisfez as necessidades, como se o lactente estivesse ainda fundido com ela e ela com ele. (Winnicott, 1960c/1983, p. 50)
Ao continuar prevendo e atendendo as necessidades do bebê antes mesmo que ele possa senti-las e que possa encontrar uma maneira de expressá-las, a mãe falha em se adaptar às mudanças trazidas pela crescente maturidade do bebê e ele se encontra na situação de continuar fundido com a mãe ou recusar o que ela lhe oferece. Na realidade, ele fica sem alternativa, pois ainda é muito dependente para rejeitar a mãe e seu cuidado. No mais das vezes acaba por se submeter ao que a mãe lhe impõe, tendo muita dificuldade em emergir como um si-mesmo separado e em comunicação com uma mãe externa a ele.
Uma ilustração desta problemática é o caso de uma garota que conheci quando ela contava 16 anos, cuja mãe, uma mulher muito decidida e resolutiva, tinha sempre tomado a frente da filha no que quer que fosse. A menina achava que sua mãe a conhecia melhor do que ninguém e que sabia tudo das coisas da vida, portanto sua opinião a respeito da garota e dos assuntos em geral era, para a menina, praticamente um decreto. Quando a moça ensaiava seguir em uma direção diferente daquela que sua mãe considerava ser a melhor opção, a mãe lhe dizia que ela podia fazer o que quisesse, mas que depois, se algo não desse certo, não fosse pedir a sua ajuda. A garota se via diante da escolha de seguir a mãe ou ficar por sua conta e risco, sem apoio, caso resolvesse enveredar por um caminho próprio. Era um risco que não podia correr e, logo, ela repetia a posição da mãe tomando-a para si, como própria. Sem a sustentação materna para experimentar, para ensaiar um percurso genuíno, ela não
conseguia chegar a uma posição pessoal pela qual pudesse brigar, se esforçar para manter ou tentar confrontar a mãe.
O que ocorre diante deste tipo de falha materna é que, defensivamente, via falso si-mesmo, o bebê se adapta ao padrão da mãe e cresce à semelhança desse padrão, porém o amadurecimento fica prejudicado e a dependência, ou um considerável grau dela, se mantém indefinidamente. Sem sentir que pode, por sua ação, obter uma resposta do ambiente, tudo aquilo que o bebê recebe ou tudo que o indivíduo alcança não é sentido como verdadeiro nem como conquista pessoal, mas sim como fruto do acaso ou das circunstâncias. A pessoa se sente irreal e desconhece a sua força, sua capacidade de viver experiências e integrá-las à personalidade.
Acrescente-se que ao falhar na desilusão do bebê, a mãe prejudica o alcance do objeto transicional – fruto do início da separação da mãe e, ao mesmo tempo, símbolo da união com ela –, a vivência dos fenômenos transicionais e o desenvolvimento do espaço potencial. É primeiro por ter vivido tempo suficiente no âmbito da ilusão de onipotência e, depois, pelas experiências vividas no espaço potencial, que a realidade objetiva – que existe independentemente da presença e da percepção do individuo – ganha significado pessoal. Nesse sentido, se a mãe não facilita a separação ou se falha significativamente no período da transicionalidade, o brincar, a vida imaginativa e toda a experiência cultural podem ficar prejudicadas e o indivíduo, entre outras coisas, se manter preso à concretude dos fatos.
Se privarmos a criança dos objetos transicionais e perturbarmos os fenômenos transicionais estabelecidos, ela só tem uma saída: uma cisão da personalidade, na qual uma metade permanece em relação com o mundo subjetivo e a outra reage complacentemente às imposições do mundo. (Winnicott, 1965k[1950]/2001, p. 211) No período da dependência absoluta, por meio da identificação primária, o bebê é o objeto e o objeto é o que o bebê cria. À medida que se inicia a transição de um estado em que do bebê está fundido com a mãe para um estado em que está em relação com ela como algo externo e separado, o objeto começa a ser percebido como não-eu, e o bebê pode tomar posse dele ou, dito de outra forma, deixando de ser o objeto, o bebê pode ter o objeto. Nessa etapa, aspectos da realidade compartilhada começam a aparecer para o bebê como tal, de modo que o objeto, ao mesmo tempo,
pertence à realidade subjetiva e também tem características próprias, pertencendo à realidade externa, ele já existia e estava disponível para ser encontrado. É um paradoxo que, segundo o autor, deve simplesmente ser aceito e mantido e que nunca se deveria desafiar o bebê a responder se aquilo com o que ele se relaciona é algo que ele criou ou é algo que ele encontrou (Winnicott, 1969i [1968]/2005, p. 172).
Uma falha que pode ocorrer neste ponto, entre outras, é o ambiente não conseguir manter o paradoxo inerente aos fenômenos transicionais, forçando uma soluç oàpa aàaà uest o.àIstoàe ui aleàaà e pu a àoà e àpa aàu aàdisti ç oàp e o eà e radical entre a realidade subjetiva e a realidade compartilhada. Para Winnicott, uma solução para o paradoxo, neste momento, somente pode ser encontrada pelo caminho da intelectualização, ou seja, seria uma solução apenas em termos de funcionamento mental, na direção do falso si- es o.à “egu doà oà auto ,à oà ueà su geà dessasà considerações é que o paradoxo aceito pode ter um valor positivo. A solução do paradoxo conduz a uma organização de defesa que, no adulto, pode encontrar-se como verdadeira e falsa organização do si-mesmo (self à d[ ]/ ,àp.à .
Se o paradoxo não pode ser mantido, também não pode ser mantido e ampliado o espaço potencial – terceira área da experiência, área intermediária, que diz respeito a uma realidade que não é unicamente subjetiva, concebida pelo bebê, nem unicamente externa ou objetivamente percebida. O espaço potencial, para ser mantido e se firmar como a área vital do viver humano, na qual se desenrolam a experiências pessoais, também necessita estar ancorado na confiabilidade ambiental. É necessário que a mãe continue sendo presente, suficientemente boa e que continue cuidando do bebê considerando-o em suas peculiaridades, sem invadi-lo com padrões externos a ele. A mãe não conseguirá sustentar o espaço potencial se, por exemplo, preenchê-lo com sua própria subjetividade. Segundo Winnicott, quando tudo corre bem e a facilitação ambiental é um fato, o espaço potencial
se preenche com os produtos da própria imaginação criativa do bebê [...] em casos de fracasso prematuro da fidedignidade ambiental, ocorre um perigo alternativo, o de que esse espaço potencial possa ser preenchido com o que nele é injetado a partir de outrem que não o bebê. (1967b/1975, p. 141)
O autor assinala que o que invade esse espaço, sem o bebê ter condições de rejeitar, assume um caráter persecutório. Outra hipótese é que, diante da invasão, ocorra a cisão e o bebê se molde àquilo que foi introduzido por outra pessoa no espaço potencial. Winnicott utiliza a situação clínica para mostrar como esse tipo de invasão pode acontecer no decorrer de um tratamento psicanalítico, apontando para o risco, por exemplo, de uma interpretação tornar-se altamente invasiva se, entre outras coisas, for apresentada fora do tempo em que possa ser compreendida pelo paciente ou se não estiver de acordo com sua realidade subjetiva. O fato é que, ao ser invadido por uma interpretação, o paciente – dependendo de sua maturidade relativa – pode não ter alternativa, apenas se submeter.
Os analistas precisam estar atentos para evitar a criação de um sentimento de confiança e uma área intermediária em que a brincadeira se possa efetuar, e, depois, injetar nessa área ou inflá-la com interpretações que, com efeito, provêm de suas próprias imaginações criativas. (Winnicott, 1967b/1975, p. 141)
III) Ai da e os ci dido: O falso si-mesmo tem como interesse principal a procura