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GRITOS E SUSSURROS NA RUA E NA UNIVERSIDADE

3.1.- Introdução

Neste capítulo da tese, apresentamos o resultado da análise dos dizeres dos participantes da pesquisa, os chamados moradores de rua e os universitários do curso de Pedagogia, a respeito da leitura que fizeram dos mesmos textos a eles apresentados.

Organizamos o percurso de análise nos seguintes momentos. Primeiramente, problematizamos a rua e a constituição dos sujeitos discursivos, os chamados moradores de rua. Em seguida, detalhamos a construção do corpus, apresentando os jornais da cidade de Poços de Caldas e retomando nossa metodologia de trabalho, já comentada na apresentação desta pesquisa. A seguir, caracterizamos os chamados moradores de rua, participantes da pesquisa, os quais são elencados por ordem de realização dos encontros e identificados por nomes fictícios. Apresentamos, também, cada um dos universitários participantes da pesquisa, identificados por nomes fictícios e elencados pela data de realização das leituras dos textos.

Após a caracterização dos participantes da pesquisa, volvemos nosso olhar para os textos escolhidos e salientamos alguns de seus efeitos de sentido possíveis, decorrentes da análise que realizamos. Finalmente, após cada um dos textos – aqui denominados T1, T2, T3, T4 –, está a análise dos comentários feitos pelos chamados moradores de rua e pelos universitários, seguida de algumas conclusões parciais, as quais antecedem a conclusão final, apresentada no último capítulo da tese.

3.2.- A rua e a constituição dos sujeitos discursivos

A fim de problematizar as identidades que se constroem sobre/entre os chamados moradores de rua, trazemos as denominações pelas quais esse grupo social se identifica ou é identificado. Embora saibamos, através da história da humanidade, que a pobreza sempre existiu, uma vez que marcas da desigualdade foram produzidas ao mesmo tempo em que ocorreram os processos de urbanização, de crescimento das cidades e o desenvolvimento do

capitalismo, a cada dia ela torna-se mais visível, atingindo todos aqueles que pretendem ignorá-la.

Em busca da identidade da população que está/vive na rua, partimos da definição dada pela Federação dos Sem-casa, conhecida pela sigla norte-americana HUD14, que considera sem casa (homeless) não só os que vivem na rua, mas também os que estão em habitações que não atendem às necessidades e padrões mínimos de habitabilidade. Assim, reportamo-nos ao conceito aplicado pela HUD aos chamados “moradores de rua”, denominação que, partindo daqueles que não têm moradia, “moram” na rua, atinge também os que passam pelos albergues e abrigos – lugares onde não vivem de fato, apenas passam, e não criam raízes –, casas de passagem e, ainda, aqueles que habitam lugares inseguros, considerados vulneráveis e insatisfatórios.

Já o censo dos moradores de rua da cidade de São Paulo (SAS/FIPE, 2000), ao relacionar os possíveis lugares onde se situam esse grupo social, adota os termos “população de rua” e “população moradora de rua”, abrangendo:

todas as pessoas que não têm moradia e que pernoitam nos logradores da cidade – praças, calçadas, marquises, jardins, baixos de viadutos – ou casarões abandonados, mocós, cemitérios, carcaças de veículos, terrenos baldios ou depósitos de papelão ou sucata (...) foram igualmente considerados moradores de rua aquelas pessoas, ou famílias, que, também sem moradia, pernoitam em albergues ou abrigos, sejam eles mantidos pelo poder público ou privados (SAS/FIPE, 2000, p. 5).

Recentemente, o serviço social de São Paulo (GIORGETTI, 2006, p. 20), utilizou a expressão “pessoas em situação de rua”, apontando para uma possível modalização do fato de se tratar de pessoas sem outra característica senão a de pertencerem às ruas da cidade. Apresentar à sociedade pessoas ou grupo de pessoas em determinada situação e determinado lugar remete a um dizer que tem por objetivo tamponar um descuido social, considerado incômodo pelo poder público. Busca-se, através da expressão “pessoas em situação de rua”, produzir o efeito, “politicamente correto”, de que estariam na rua apenas temporariamente.

A esse respeito, trazemos as palavras de Skliar (2003), que apresenta uma análise do “politicamente correto”:

14 United States Department of Housing and Urban Development Federal Definition of Homeless HUD. July

o mundo do politicamente correto é um mundo onde seria melhor não nomear o negro como negro, não chamar o deficiente de deficiente, onde não seria melhor chamar o índio de índio. É o mundo do eufemismo, do travestismo discursivo. Não nomeá-los, não chamá-los, mas manter intactas as representações sobre eles, os olhares em torno deles. Ou nomeá-los de outro modo para continuar massacrando-os. (...) Contudo, entre tantos nomes que se instalam e se desmembram, o outro acaba por mudar seu nome. Apagam seus vestígios, sua língua, seu rosto, suas marcas, suas histórias, porque até o próprio nome se tornou politicamente incorreto (SKLIAR, 2003, p. 80).

Dessa forma, a expressão “pessoas em situação de rua” assemelha-se a outra expressão utilizada comumente, “bolsões de pobreza”, mascarando a realidade em que vivem esses grupos de pessoas, veiculando a ideia de que a pobreza estaria localizada em determinado lugar, com limites perfeitamente demarcados. Retomemos a expressão “bolhas de pobreza” que, em nosso entender, adequa-se mais à situação em que vivem os chamados moradores de rua, independentemente do território que ocupam, seja a rua, o abrigo ou a casa de passagem. Em seu constante processo de desterritorialização e reterritorialização (DELEUZE; GUATTARI, [1995] 2011), fragmentos de sua identidade se perdem (eu estava

lá/agora estou aqui/volto prá lá/onde tô?), como bolhas no ar, que estouram isoladamente.

Também nos momentos em que estão na sala coletiva ou na sala de refeições, seja na casa de passagem ou até mesmo no abrigo – local de disseminação de fios do discurso religioso –, por um simples motivo surge uma agressão verbal e até mesmo física. Em momentos como esse, a bolha explode por fatos simples: um pedaço de carne maior no prato do outro ou uma palavra, uma chacota feita por um de seus pares.

Pelo fato de a identidade ser construída pelo olhar do outro, Fernandes e Alves (2008) afirmam que os dizeres de uma sociedade sobre determinado grupo social contribuem para que elementos desse mesmo grupo construam sua identidade e, também, para que os próprios participantes desse grupo se apropriem dos dizeres da sociedade e se signifiquem a partir deles. Chamar a população que vive nas ruas de “mendigos” e “pedintes” não condiz com a realidade, uma vez que esse grupo se constitui por diversos segmentos e não necessariamente apenas por mendigos e pedintes. Palavras como essas lançam sobre essa população um traço identitário, sempre associado a alguém sujo e maltrapilho, que o coloca como inferior, ruim, estabelecendo uma oposição entre o bom e o mau; entre o trabalhador e o “vagabundo”. A utilização dessas denominações referentes a ser pobre e não ter onde morar

constitui um parâmetro que reforça a dicotomia entre riqueza e pobreza, uma vez que é o sistema econômico que impõe o fato de que possuir bens é o que torna alguém um cidadão.

Essa valorização moral do trabalho vincula-se ao conceito de vadiagem, pois o vadio, a partir da Abolição (LOBO, 2008 p. 228), era aquele que se negava a pagar a dívida social com o suor de seu rosto, aquele que consumia sem produzir para a comunidade. Estabelece-se, então, uma relação entre ociosidade e pobreza e entre pobreza e criminalidade.

Já Hobsbawm (1995) relaciona a existência de “pessoas sem teto” ao crescimento econômico, uma vez que muitos países ricos e desenvolvidos se acostumaram com a presença de desabrigados. Assim, afirma que

o reaparecimento de miseráveis sem teto é parte do impressionante aumento das desigualdades, social e econômica, da nova era. Pelos padrões mundiais, as ricas economias de mercado desenvolvidas “não eram – ou ainda não eram – particularmente injustas na distribuição de sua renda (HOBSBAWM, 1995, p. 396).

A utilização do termo “sem teto” é muito específica e diz respeito ao movimento organizado de luta por moradia. O mesmo ocorre com a denominação sem-terra, apesar de, na cidade e na região do sul de Minas Gerais, onde se localiza nosso trabalho de pesquisa, ser muito difícil encontrar grupos de “sem-terra”.

Sem casa, pessoas em situação de rua, sem teto, sem-terra, mendigo e pedinte são, como afirma Coracini (2005, p. 61), “fruto de múltiplas identificações – imaginárias e/ou simbólicas – com traços do outro que, como fios que se tecem e se entrecruzam para formar outros fios que servem de âncora para as representações que são criadas e alimentadas pela sociedade a respeito dos moradores de rua”. Representações que, na maioria das vezes, levam ao medo e são determinadas por relações de poder.

No que se refere ao mendigo e ao pedinte, encontramos duas formas pelas quais tais relações se apresentam: a primeira, a constituição de sua identidade pelo olhar da sociedade; identidade esta construída de duas formas, a da sociedade sobre ele e a dele sobre ele mesmo. A segunda, certa posição de poder que o mendigo e o pedinte exercem sobre a sociedade, quando se aproximam de alguém pedindo uma esmola e esse alguém, por caridade, filantropia ou para ver-se livre da “indesejada” presença dá-lhe a esmola pedida. “Há um conjunto de saberes que envolve desde a relação com o corpo, com a moral e com a ética, a uma relação de poder (FERNANDES; ALVES, 2008, p. 102). Ao se aproximar para pedir

uma ajuda, o chamado morador de rua é possuidor de um saber a respeito do tipo de carro utilizado por aquele que será abordado, que determinará o valor da esmola (se é um carrão

peço 10 pau / se é carro velho umas duas prata vale). Assim, há uma relação de poder-saber

que estipula o valor da esmola solicitada pelo mendigo.

Existem, ainda, outras denominações, decorrentes das relações sociais que norteiam a sociedade, que pesam sobre os chamados moradores de rua, como, por exemplo, as que se atrelam ao trabalho. O trabalho, por sua tríplice função, a produtiva, a simbólica e a de adestramento ou disciplinar (FOUCAULT, [1979] 2013, p. 338), é considerado primordial por prover não só a subsistência física, por meio dos rendimentos, mas também a subsistência simbólica, dada a sua importância social. Releva-se, ainda, o fato de que o emprego formal e o registro na carteira de trabalho são legitimadores da identidade de trabalhadores, embora grande parte destes atue no mercado informal. Sem trabalho, portanto, sem registro na carteira e, muitas vezes, sem a própria carteira profissional e/ou a de identidade, constrói-se sobre os chamados moradores de rua a identidade de vagabundos.

Marginal, vagabundo, bandido, miserável, coitado, pobre, palavras que produzem o significado posto sobre alguém, estigmatizando-o, apontam para um efeito mercantil do ser humano, já que uma pessoa assim qualificada não pode fazer parte de uma sociedade que visa ao lucro. A palavra “pobre” recobre todas as outras denominações até agora apresentadas, uma vez que assim qualifica a pessoa que não possui recursos para gerir a sua própria vida. Esse ser é visto como digno de lástima ou de compaixão, inspirando dó e reforçando cada vez mais o discurso da pobreza. Reforça-se, também, a ideia de que o pobre será sempre aquele que deve receber, não o apoio, mas a lástima, a compaixão e a piedade, sentimentos que vão ao encontro de um discurso no qual a caridade ou a filantropia é elemento necessário para a acomodação da consciência do homem, o discurso religioso. Foucault ([1973] 1999), ao falar sobre a religião, evoca Nietzsche, que diz que “a religião não tem origem, não tem Ursprung, ela foi inventada, houve uma Erfindung da religião. Em um dado momento, algo aconteceu que fez aparecer a religião. A religião foi fabricada. Ela não existia anteriormente” (FOUCAULT, [1973] 1999, p. 15); e, acrescentamos, origina-se como uma tentativa de acomodação da consciência do ser humano, através da confissão e do pagamento do dízimo.

A religião apresenta uma visão sobre os chamados moradores de rua como aqueles dignos de piedade, contribuindo para a construção da representação identitária de alguém que, por suas mazelas, deve ser visto como um “coitado” – “bem-aventurados os

pobres [de espírito] porque é deles o reino dos céus” (Mt 3, 5). O termo “coitado” desliza para a imagem do servo sofredor, que aponta para a tradição religiosa cristã que trata da resignação e do sofrimento de Cristo. Projetando-se sobre o sofrimento do chamado morador de rua, faz surgir o termo “sofredor de rua”, com conotação religiosa e explícita referência às dores causadas pelas situações de injustiça social. Além de ser uma crença que dificulta a criação de possibilidades para estes indivíduos conquistarem suas saídas das ruas, trata-se de uma visão que favorece ações meramente assistencialistas e paliativas, o que, provavelmente, tende a manter o problema, permitindo a continuidade da existência de pobres para a prática das virtudes cristãs.

Enfim, todas as denominações que envolvem esse grupo social concernem à sua situação, pois “o perigo vem de todos esses nomes flutuantes que tornam mais flutuantes a multiplicidade de homônimos e das figuras que não nomeiam nenhuma propriedade real, mas encontram por isso mesmo os meios de incorporar-se em qualquer lugar” (HOBBES apud RANCIÈRE, [1992] 1996, p. 29-30). Se flutuantes, pois a cada momento encontramos uma determinada nomeação, significam tudo e, ao mesmo tempo, não significam nada; e tentam se acomodar em qualquer lugar, mesmo que seja um lugar de anulação do próprio conceito de ser humano.

Comumente, essas pessoas são olhadas de soslaio, com uma expressão de constrangimento, alguns, vendo-as como perigosas, apressam o passo. Outros, logo as consideram vagabundas, já que ali estão por não quererem trabalhar, olhando-as com hostilidade. Muitos atravessam a rua, com receio de ser abordados por pedido de esmola ou mesmo por pré-conceberem que são pessoas sujas e malcheirosas. Há também aqueles que delas sentem pena, olham-nas com comoção e piedade. Em atitude mais violenta, alguns chegam a xingá-las e até mesmo a agredi-las ou a queimá-las, como em alguns lamentáveis casos noticiados pela imprensa e pela Pastoral Nacional da Rua, através do que a Pastoral denomina “Radiografia do Horror”15

. Não nos esqueçamos do fato que nos levou, conforme

15

A Radiografia do Horror apresenta que: no Distrito Federal. Em março de 2014, em Águas Claras, cidade satélite, dois moradores foram assassinados e, no final de fevereiro, dois foram assassinados em Santa Maria, a 26 quilômetros de Brasília;

Em Maceió e Arapiraca, um casal de moradores de rua foi assassinado com tiros na cabeça, enquanto dormia; e, fevereiro outro foi assassinado. No ano anterior, 37 homicídios e duas tentativas de morte;

Campo Grande, um morador teve 40% do corpo queimado, antes foi amarrado e agredido;

Belo Horizonte, dois moradores foram queimados no fim de fevereiro; em 2011, outros dois foram envenenados com chumbinho misturado com cachaça;

Salvador, em fevereiro, cinco moradores de rua, foram assassinados a tiro, há suspeita que os crimes tenham sido cometidos a mando de comerciantes da região;

dito na apresentação deste trabalho, à escolha do texto de 1997, a respeito do assassinato do índio Galdino, líder indígena, que estava em Brasília, participando de uma reunião, e foi queimado brutalmente por jovens, que alegaram pensar que se tratava de um mendigo. Fato semelhante aconteceu na cidade de Poços de Caldas tempos atrás, quando “Beiçola”, chefe de uma gangue de meninos moradores de rua, foi queimado, por uma gangue rival, enquanto dormia junto às árvores do jardim próximo às Termas Antônio Carlos, no centro da cidade.

Se morar em uma residência fixa, trabalhar formalmente e constituir família são padrões sociais que caracterizam os indivíduos normais, então, aqueles sem residência fixa, sem família e sem trabalho formal tornam-se alvo de regimes de verdade que consideram a mendicância, se não o produto de distúrbios de personalidade, resultado de doenças mentais, um risco social. A identidade dos moradores de rua como anormais carrega em si a contraposição a uma norma vista como forma de vida legítima na sociedade hegemônica. Apesar de trazerem em si a representação de seres que vivem em oposição à vida da sociedade hegemônica, vivendo à sua margem, em sua grande maioria, essas pessoas guardam os hábitos e costumes da sociedade em que estão inscritos: muitos lavam seus rostos nas fontes da cidade, escovam os dentes, ainda que sejam poucos e estragados, tentam ajeitar os cabelos desgrenhados.

Em Poços de Caldas, um pequeno grupo dos chamados moradores de rua que vive no Abrigo São Francisco, durante o dia, trabalha como chapa, carregando e descarregando os caminhões que chegam. Ficam a postos na entrada da cidade e, para se protegerem da chuva e do sol, com o que conseguiram do lixo, montaram o que poderíamos chamar de uma “sala”, com sofá, um pequeno fogão e cobertura; do lado de fora, construíram um pequeno jardim. Em tudo se assemelha a uma pequena casa de um bairro periférico.

Aracaju, um morador de rua foi assassinado com requintes de crueldade;

Manaus, em janeiro, em menos de 72 horas, três moradores de rua foram assassinados no centro da cidade;

Teresina, um homem foi morto a pauladas no sábado de carnaval.

Figura 8: Moradores trabalhando como chapas Fonte: Foto tirada pelo autor do trabalho de pesquisa

Semanas depois, vimos que a Secretaria de Obras e Viação, com um trator, desmanchou essa pequena construção, o que não impede que seja novamente construída pelos moradores. Nesse (re)construir, o pequeno jardim permanece sempre, como fonte de vida.

Figura 9: Destruição da construção dos moradores

Essa “limpeza” na entrada da cidade reflete o discurso higienista que a caracteriza e reforça o codinome, “Terra da Saúde e da Beleza”, pelo qual é reconhecida. Por ter estas como características principais, a cidade não pode apresentar corpos feios, sujos, que a emporcalham e afastam os turistas. É preciso, pois, manter a estética de uma cidade saudável e, portanto, limpa. A destruição do espaço construído pelos chamados moradores de rua, contudo, vai de encontro às propostas apresentadas pela Promoção Social da cidade, que postula a necessidade de dar aos mendigos “dignidade e cidadania”. A busca pelo trabalho, por mais simples e informal que seja, é uma tentativa de o chamado morador de rua, pelo menos, tentar ser útil de alguma forma à sociedade, rompendo com a imagem de vagabundo a ele imposta.

Porém, ao estarem vinculados à difundida figura de um indivíduo sujo, maltrapilho e de aparência sórdida, o que se propaga é o estigma de um “estereótipo do fedor”. Conforme Magni (1994),

o estereótipo do nômade urbano é clássico: roupa esfarrapada, pele encardida com dermatoses, às vezes, abrindo em feridas, corpo marcado por cicatrizes; unhas das mãos e dos pés enegrecidas, compridas e, por vezes, deformadas; dentes em parte caídos, em parte cariados; cabelos ensebados, olhos congestionados, etc. São signos genéricos que contam a trajetória social e tornam evidente que o indivíduo faz parte da população pobre que habita as ruas (MAGNI, 1994, p. 134).

Tal descrição também aponta para o discurso higienista, que rotula e propaga a representação do morador de rua associada à sujeira que deve ser jogada para “debaixo do tapete!”. Essa sujeira tornada invisível remete à situação em que se encontram os chamados moradores de rua, em um hífen entre a visibilidade e a invisibilidade: não queremos ver, mas estão em nossa presença e não adianta tentarmos fechar os olhos.

Além disso, cabe ressaltar o fato de a vinculação da pobreza com a violência e a delinquência vir a favorecer que todos os cidadãos enxerguem o morador de rua como “socialmente ameaçador” e um “criminoso em potencial”, representando, portanto, um risco para a sociedade. Há, de fato, uma espécie de associação perversa entre a pobreza e a criminalidade, que parece autorizar as relações de poder através das instituições de assistência social e, até mesmo, de acordo com Agamben ([2004] 2010), a eliminação da vida nua dos pobres. A associação entre pobreza e criminalidade, acrescida pela violência, estigmatizada

pelas bolhas de pobreza prestes a explodirem, assusta-nos, ameaça-nos, instaurando o medo e a insegurança.

Para além de todas as denominações aqui apresentadas, entre os moradores de rua, é comum o uso do termo “maloqueiro”, que se refere tão somente a quem usa a maloca, ou mocó, lugar de permanência de pequenos grupos, para o pernoite, com colchões velhos e trapos, restos de móveis ou camas feitas de papelão encontrados nas ruas. Eles criam, assim, seus territórios (espaços físicos) e, sempre que desterritorializados, tentam resistir,

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