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3.2 DEMANDAS REPETITIVAS NO DIREITO ESTRANGEIRO

3.2.2 Group Litigation Order

No direito inglês, além das representative actions, existe outra importante figura utilizada quando o assunto é o tratamento de demandas coletivas: a Group Litigation Order, ou simplesmente GLO. Este instituto, previsto na Rule 19 do CPR17, é definido como uma or-

dem para o estabelecimento de um gerenciamento de casos (case management), englobando demandas que versem sobre questões comuns, tanto de fato quanto de direito, chamadas de

GLO issues, ou “questões de ordem de litígio em grupo” (CAVALCANTI, 2016, p. 87).

Conforme mencionado por Daniel de Andrade Lévy (2011), uma GLO deve, antes de mais nada, preencher seis requisitos essenciais: (1) que seja alcançado um número mínimo de demandas em comum (number of claims), não especificado em lei, mas geralmente enten- dido pela doutrina como dez; (2) a de existência de ponto controvertido sobre questão de fato ou de direito, que seja comum ou ao menos mantenha relação entre as demandas (common or

related issues of fact or law), com menos ênfase aos aspectos formais e mais foco na adminis-

tração das causas; (3) a necessidade de procedimentos que permitam ao juízo “lidar com os casos de forma justa” (to deal with cases justly), sendo inclusive previsto em lei um rol exem- plificativo de condutas que demonstram um processo justo; (4) a devida autorização para o registro da GLO, obtida com a autoridade competente; (5) a verificação, inclusive por parte do autor18, da possibilidade de uso de qualquer outro tipo de ação ou técnica processual mais ade-

16 Por exemplo, esta ação não pode ser utilizada no caso de pretensão indenizatória, já que a lei inglesa entende que cada lesado tem um interesse distinto em relação ao valor que lhe cabe (CAVALCANTI, 2016, p. 48). 17 Civil Procedure Rules, o código de processo civil inglês (tradução nossa).

18 Autor, neste caso, refere-se ao autor do incidente que deu (dará) origem à instauração da GLO, e não neces- sariamente o autor da demanda (LÉVY, 2011).

quada para demanda, visto que a GLO só poderá ser instaurada residualmente, quando ne- nhum outro tipo de solução coletiva seja cabível; (6) a indicação, por parte do autor19, do nú-

mero de demandas já existentes que estariam aptas a fazer parte do grupo, o que evita a pro- positura de ações que não atinjam um número razoável de interessados.

Nesse sentido, em relação aos requisitos para instauração da GLO, alguns esclare- cimentos adicionais são necessários. Primeiramente, em relação à autoridade competente que autoriza a instauração da GLO, esta poderá ser tanto o Lord Chief of Justice ou o Vice-Chan-

cellor, que correspondem, respectivamente, aos poderes judiciários da Queen’s Bench Divisi- on ou da Chancery Division (LÉVY, 2011). Além de uma cópia do requerimento de instaura-

ção da GLO, devem ser encaminhadas também quaisquer provas escritas relevantes bem como as razões que demonstrem que a GLO é, de fato, o procedimento mais adequado para o caso, o que cria uma espécie de sistema de dois níveis de aprovação para a instauração de uma

GLO: primeiro, um Tribunal verifica a existência dos requisitos legais e avalia as razões para

a instauração do procedimento; em seguida, este juízo de valor é confirmado (ou não) por um

senior judge (CAVALCANTI, 2016, p. 90).

Em segundo lugar, a quantidade de dez demandas em comum, apontada pela dou- trina, mas ausente na lei, tem uma origem histórica interessante. Em 1994 o magistrado Lord Woolf foi incumbido de elaborar uma pesquisa sobre o sistema judicial inglês, e seu relatório, entre várias sugestões (não apenas a criação da GLO, mas também outras técnicas processu- ais) sugeriu o limite de dez demandas em comum, asseverando, no entanto, que este número não deveria constar na parte escrita da lei, mas sim servir como uma orientação a ser moldada de acordo com os casos concretos (CAVALCANTI, 2016, p. 82 – 85). Sobre o tema, Daniel de Andrade Lévy explica:

[…] Lord Woolf, [em seu relatório] sugere que não deve haver um limite mínimo ou máximo, e que o número de 10 deve ser usado como simples parâmetro. O que im- porta, na verdade, é que o grupo possa ser eficazmente administrado, e que a soma das ações individuais possa trazer mais vantagens para a corte e para o os litigantes, do que dificuldades. […] (LÉVY, 2011)

Em síntese, o que basta é que o Tribunal tenha a convicção plena de que haverá quantidade suficientemente grande de demandas, ainda que as questões comuns não se sobre- ponham, necessariamente, às particulares (CAVALCANTI, 2016, p. 85).

Em seguida, uma vez que a autorização tenha sido concedida e a demanda tenha sido proposta, é feito um registo coletivo contendo os detalhes do caso e as controvérsias que 19 Novamente, a referência é em relação ao autor do incidente, e não da demanda (LÉVY, 2011).

servem de base para caracterizar o grupo de litigantes (defining issues), sendo possível ao juiz-administrador ampla liberdade na gestão das causas do grupo, podendo, inclusive, excluir causa que possa, porventura, atrapalhar ou dificultar o procedimento devido às suas peculiari- dades (LÉVY, 2011). Com o registro criado e os detalhes relativos aos casos disponíveis para consulta, tanto o autor quanto o réu que litigam em causas individuais poderão fazer o reque- rimento para ingresso no processo coletivo, fazendo com que este procedimento siga o mode- lo opt-in – exatamente o contrário do que ocorre nas class actions e representative actions, que seguem o sistema opt-out (CAVALCANTI, 2016, p. 91 – 92).

Por último, em relação aos efeitos, como regra geral, a decisão vincula todas as demandas registradas no grupo até a data da decisão, exceto quando estipulado de forma di- versa pela corte, caso em que o juiz-administrador fixará as regras concernentes aos efeitos do julgamento para as demandas que se registrarem posteriormente no grupo. Qualquer parte que se sinta prejudicada poderá recorrer, exceto nos processos registrados após o julgamento, onde a única saída será requerer à corte que administradora da GLO que tal decisão não o vin- cule (LÉVY, 2011).