2 METODOLOGIA
2.2 ENTREVISTAS
2.2.1 Grupo focal
Outro procedimento metodológico que embasa a presente pesquisa foi a realização de um grupo focal. O grupo focal é um procedimento metodológico utilizado na pesquisa qualitativa, no qual, um grupo de participantes interage orientado por um mediador que é o catalisador da interação ao social (comunicação) entre estes participantes, conforme define, Gaskell (2015). Sua principal diferença com relação à entrevista individual é o número de participantes envolvidos. No grupo focal interagem diversos participantes, enquanto que, na entrevista individual interagem, somente, o entrevistador e o entrevistado.
13 Com relação à ética na pesquisa científica, a presente investigação foi aprovada na Plataforma Brasil, em 29 maio 2015, e está registrada sob o número CAAE 47701715.7.0000.5285.
Flick (2009) considera que a marca que define os grupos focais é o uso explícito da interação do grupo para a produção de dados e insights que seriam menos acessíveis sem a interação verificada em um grupo. Neste sentido, Gaskell (2015) considera que o objetivo do grupo focal é estimular os participantes a falar e a reagir àquilo que outras pessoas no grupo dizem. Para o autor, o grupo focal é uma interação social mais autêntica do que a entrevista individual, pois nela os sentidos ou representações que emergem são mais influenciados pela natureza social da interação do grupo em vez de se fundamentarem na perspectiva individual, como no caso da entrevista individual. Contrastando com a narração produzida em forma de monólogo na entrevista individual, os processos de construção da realidade social são apresentados de modo que integram as narrativas conjuntas dos participantes. Os grupos focais partem de uma perspectiva interacionista e buscam mostrar o modo como uma questão é construída e alterada ao ser debatida em uma discussão de grupo, avalia Flick (2009). Na perspectiva de Gaskell (2015), a interação do grupo pode gerar humor, emoção, espontaneidade e intuições criativas. Para o autor, nos grupos focais, os participantes estão mais propensos a acolher novas ideias e a explorar suas implicações. Neste sentido, para o autor, o grupo focal é um ambiente mais natural e holístico, no qual, os participantes levam em consideração os pontos de vista dos outros na formulação de suas respostas e comentam suas próprias experiências e as dos outros.
Flick (2009) considera que os grupos focais podem ser aplicados como um método em si mesmo ou em combinação com outros métodos – levantamento documental, observações e entrevistas individuais, como é o caso da presente pesquisa. Contudo, o autor aponta algumas desvantagens na realização dos grupos focais que ilustram as vantagens da entrevista individual:
nem todos os convidados comparecem e alguns grupos planejados são difíceis de reunir, por exemplo, pessoas de idade avançada ou mães com filhos muito pequenos. Para Flick (2009), estes problemas podem ser contornados através de entrevistas individuais, que podem ser agendadas para um tempo e lugar conveniente para o entrevistado, como foi o caso da nossa pesquisa com relação aos dois maestros das duas bandas portuguesas em atividade na cidade do Rio de Janeiro, que atualmente, estão na faixa dos 80 anos de idade.
O grupo focal foi realizado no dia 20 de julho de 2015 em uma das salas do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO. A interação foi toda registrada em áudio e teve duração de 02h17min56seg. A negociação para a realização deste grupo focal não foi fácil, pois todos os participantes são músicos profissionais de destaque nas suas respectivas áreas e, por isso, muito ocupados. Entre idas e vindas a negociação durou cerca de um mês até que conseguíssemos uma data e horário nos quais todos pudessem estar presentes. A pretensão
inicial era convidar participantes que, através do meu conhecimento pessoal prévio, tivessem recebido sua iniciação musical ou atuado, quando jovens, em uma das bandas portuguesas da cidade vindo, posteriormente, a se profissionalizar na música, pois era minha intenção demonstrar a relevância das bandas portuguesas da cidade do Rio de Janeiro como instrumento de educação musical. Foram convidados para a realização do grupo focal seis participantes e, no dia estabelecido, todos compareceram além de mim e da Profa. Dra. Diana de Souza Pinto que atuamos como mediadores. De forma não intencional percebi posteriormente que, entre os seis participantes, havia quatro luso-descendentes - três deles - Nelson Henrique, Nelson Oliveira e Carlos Soares de primeira geração - e Fábio Brum de segunda geração. O avô do participante Delton Martins era espanhol, mas tocou muitos anos na Banda Portugal e na Banda Portuguesa da Guanabara, onde ensinou os primeiros passos ao neto, segundo seu próprio relato de experiência pessoal. Somente o participante Levi Chaves, não é descendente próximo de outra nacionalidade diferente da brasileira. Apesar de todos serem profissionais da música, atuam em segmentos distintos. Muitos deles não tinham contato ou não se viam há muitos anos o que foi muito interessante pois, antes mesmo que fizéssemos qualquer pergunta do roteiro previamente estabelecido teve início, espontaneamente, uma interação muito rica em informações que foi, em grande parte registrada em áudio. Neste momento da interação, por exemplo, o tema da rivalidade entre as bandas portuguesas da cidade do Rio de Janeiro emergiu de forma espontânea e veremos no capítulo 5 que este tema foi recorrente em todas as entrevistas realizadas para a pesquisa. O áudio do grupo focal foi transcrito na íntegra, inicialmente por uma pessoa cujo resultado final e o preço não me agradaram. Posteriormente recebi a indicação a propósito da colega do PPGMS Clara Martins que executava este serviço e que acabou por refazer esta transcrição e também transcrever, na íntegra, todas as entrevistas individuais.
A seguir apresentarei um quadro que contém algumas informações sobre os participantes do grupo focal a fim de melhor contextualizar o leitor. Estas informações foram obtidas através de um formulário individual de informações elaborado por mim e que foi preenchido por todos os participantes ao término de suas respectivas entrevistas, no qual, foram solicitadas as seguintes informações:
Nome
Data de Nascimento
Idade
Local de Nascimento
Nacionalidade (s)
Instrumento (s) que toca
Onde teve sua iniciação musical?
Qual sua formação profissional?
De quais (s) banda (s) portuguesa (s) participou? Por quanto tempo?
Exerceu algum cargo de direção ou função administrativa nestes grupos? Por quanto tempo?
Participou de alguma outra banda não portuguesa? Qual (s)?
As idades dos participantes informadas no quadro abaixo referem-se à época da realização do grupo focal.
Quadro 1 - Informações sobre os participantes do grupo focal realizado em 20 jul. 2015
Nome
Foi estabelecido um roteiro aberto prévio para nortear a interação do grupo focal elaborado em conjunto por mim e pela Profa. Dra. Diana de Souza Pinto. As perguntas abertas têm como objetivo promover a interação entre os participantes e explicitar narrativas. O roteiro foi composto das seguintes perguntas:
1) Em que medida a participação em uma banda portuguesa contribuiu para a sua formação como músico?
2) Como era a relação entre as bandas portuguesas? Como você a caracterizaria?
3) Havia pessoas que se destacavam na instituição? Se sim, quem eram e quais seus papeis?
4) Você conhece alguma outra banda portuguesa no Rio de Janeiro que não a Banda Portugal, Banda Irmãos Pepino, Banda Lusitana e Banda Portuguesa de Niterói?
5) Como você avalia a situação das bandas portuguesas no presente e o que você acredita ter contribuído para a situação atual destas instituições?
As narrativas obtidas durante a interação suscitaram questões de diversas ordens como a rivalidade entre as bandas e relações familiares, além dos possíveis motivos para a situação atual das bandas que serão analisados no capítulo 6 referente à construção das memórias das bandas portuguesas da cidade do Rio de Janeiro com base nas narrativas colhidas durante a interação.