Capítulo
4.1.4 Grupo 04 – Senhoras e senhores do Centro Vivencial AMAS
A entrevista foi realizada no dia 19 de setembro de 2005, no refeitório do Centro Vivencial, e durou 1 hora e 20 minutos. Participaram do grupo focal doze idosos, sendo dois senhores e dez senhoras, com idades entre 64 e 92 anos. Neste Centro Vivencial não são aceitos idosos com problemas de saúde graves, pois não há infra-estrutura para o cuidado de enfermos.
Os idosos que participaram da discussão são bastante ativos e relacionam o lazer à diversão, pois costumam viajar, sair para passear e mantêm contanto com seus familiares distantes. Identificaram dezessete atividades de lazer, nas áreas de interesse intelectual, manual, físico, artístico e social. Entre as atividades de interesses intelectuais, destacam-se: ler, escrever e fazer palavras cruzadas. A única atividade de interesse artístico identificada é ir ao cinema. As atividades manuais foram bastante representativas entre as idosas que costumam: fazer tricô, crochê, artesanato, bordados e bijuterias. As atividades físicas, que não são apreciadas por todos, são aquelas desenvolvidas com os voluntários que vão ao Centro Vivencial, além de caminhar e dançar. E, por fim, as atividades sociais são: receber visitas, principalmente dos familiares, jogar bingo, ir a festas, viajar e passear.
No Centro Vivencial, há uma rotina semanal de atividades, onde três vezes na semana, terças, quartas e quintas-feiras, um professor de educação física coordena atividades: “No primeiro é atividade física,
no segundo é diversão, com jogos que ativam a mente, com perguntas, e no terceiro é atividade física”.
Nas sextas-feiras, há voluntários que ensinam e desenvolvem atividades manuais: “Sexta tem
voluntários, que enchem estas mesas, fazem coisas de tricô, blusas, toalhas, bordados”. Os senhores,
que não participam do grupo de atividades da sexta-feira, procuram realizar outras atividades, como ler, escrever, caminhar, etc.
Um dos idosos prefere realizar atividades que desenvolvam a mente, pois gosta de desafios: “Por isso que eu escrevo, para manter a mente! Eu escrevo o que eu quero e não aquilo que alguém deseja, ou alguém exige. Depois de aposentado eu escrevi um livro sobre engenharia, que eu tinha prazer em escrever, sobre gerenciamento de empreendimentos. Levei cinco anos escrevendo o livro, e publiquei. Agora, eu estou escrevendo uma síntese da bíblia, e estou quase no fim”.
O quadro 10, a seguir, ilustra as atividades que eles realizam e os respectivos locais:
Atividades Tipo Sexo Lugares
Ir ao cinema Shopping
Caminhar Beira-mar, no Bosque e ao redor do Centro Vivencial.
Dançar Clubes, Grupos de casais, festas.
Fazer atividade física com os
voluntários Centro Vivencial AMAS
Escrever Centro Vivencial AMAS
Fazer palavras cruzadas Centro Vivencial AMAS
Ler Centro Vivencial AMAS
Fazer artesanato Centro Vivencial AMAS
Fazer bijuterias Centro Vivencial AMAS
Fazer bordados Centro Vivencial AMAS
Fazer Crochê Centro Vivencial AMAS
Fazer Tricô Centro Vivencial AMAS
Jogar Bingo Centro Vivencial AMAS
Jogar dominó Centro Vivencial AMAS
Passear Na casa de familiares, Largo Fagundes, Praia, Praça Quinze
de Novembro, Calçadões da Rua Felipe Schmidt e Open Shopping e Praça Governador Celso Ramos.
Receber visita Centro Vivencial AMAS
Viajar Hotel Fazenda, Rio Jordão.
Quadro 10 - Atividades do grupo de entrevistas focais 04
Os locais que costumam freqüentar são geralmente espaços edificados, e entre estes destacam-se espaços domésticos, como a própria instituição ou casa de parentes, espaços sociais, como clubes e
praças, espaços esportivos, como os calçadões de caminhada, comerciais, como o shopping, espaços turísticos, como hotéis fazenda.
Quando vão a Hotéis fazenda, os idosos realizam diversas atividades, graças à diversidade de opções dos espaços: “Normalmente tem áreas de jogos, tem piscina. Tem a parte com música ao vivo, onde
dançamos a noite toda, e tem a parte da alimentação. Tem uma área boa como aqui, para fazer recreação, com plantas e animais”.
Eles não costumam sair da instituição com freqüência, mas quando o fazem, procuram ser acompanhados por familiares ou por outros moradores, e utilizam veículos próprios ou da instituição, pois não gostam de andar de ônibus: “É desagradável porque o espaço é pequeno, principalmente
para um idoso. Às vezes junta muita gente,e mesmo que não junte ele é mal dimensionado e projetado, de modo que onde você pode segurar é lá em cima, ou então tem uma barra, que cada arranco do carro tu te gira em torno da barra, pode até cair junto a porta, para fora”.
Para os entrevistados, a falta de infra-estrutura na cidade é a principal causa de não utilizarem áreas livres públicas de lazer: “Aqui em Florianópolis tem muito pouca praça, que você possa usufruir. A
cidade não é arborizada, tem morro arborizado, mas a cidade em si não é! Em dias de calor é horrível, e as ruas são estreitas demais”; “Eu acho que estes problemas dos idosos de não ter lugar para eles se divertirem é na cidade inteira. Aqui a gente está nessa casa por uma necessidade, mas eu gostaria de morar num apartamento, e ir a qualquer lugar que tivesse praças para idosos, para eles se distraírem, para recordarem, com um banco agradável, tudo isso, mas aqui não tem”. E, alertam que este
problema não se restringe a Florianópolis: “As cidades no Brasil são mal urbanizadas. Não tem
incentivo para o uso do coletivo, tem para um comércio, estoque de mercadorias, fábricas e não sei o que mais, para população não existe nada praticamente. O brasileiro vai para um futebol porque tem um local para ele assistir, para o resto não existe nada”.
Para exemplificar como gostaria que fossem os calçadões das Avenidas Beira-mar, um idoso fez um croqui (figura 32) ilustrando alguns
equipamentos interessantes e a forma como deveriam ser implantados, igual a uma praia localizada no estado de São Paulo: “A Praia
Grande tem quilômetros e quilômetros de praia, largas, ao longo dela toda, tem um calçadão,
tem quiosques aqui, confortáveis para se comer, Figura 32 - Croqui do calçadão ideal para um dos entrevistados
confortáveis para se sentar, e tem muitas cadeiras ao redor, palmeiras ao redor. Aqui não tem nada disso, a Beira-mar ali devia ser assim também ”.
Além da infra-estrutura, outros problemas levantados foram dimensões e pavimentação de passeios e praças, e a falta de segurança. Como comentou uma idosa, que prefere ir a praças de cidades menores por serem mais bem conservadas: “As praças interioranas são muito mais bem calçadas, né!
Uruguaiana, por exemplo, tem umas calçadas que vem de lá até aqui. A gente andava tranqüilo, que não ia tropeçar em nada”. Outro caso ruim é a pavimentação da Praça Governador Celso Ramos: “[...] quando chove fica lago, ela é toda de areia. É uma praça bonita, bem feita e tudo mais, e todo o centro é de areia, só que a areia concentra, daí quando chove muito, fica lago! Não tem drenagem nenhuma”.
Outras áreas livres públicas de lazer mencionadas foram a Praça Quinze e o Calçadão da Rua Felipe Schmidt, que devido ao grande movimento e concentração de pessoas lhes causam medo: “Eu não
quero andar sozinha naquela praça, é a mesma coisa que eu tenho medo de andar sozinha em São Paulo, porque a gente vê muita gente sozinha, homem, às vezes tem ‘certa gente”’.
As duas únicas áreas livres públicas de lazer consideradas interessantes são os Calçadões do Open Shopping em Jurerê Internacional e da Avenida Beira-mar de São José, por suas qualidades de implantação e manutenção. “A Beira-mar de São José foi mais planejada, tem mais espaço, bem
calçada, os ônibus são bons. Tem muita gente que está morando lá”.
Neste grupo, os entrevistados consideram que praticavam mais atividades de lazer quando eram mais jovens, mesmo quando trabalhavam: “Ah! Antes, tinha muito mais, eu tinha meu grupo de amigas, a
gente se reunia, trabalhava, fazia trabalhos manuais, ia nos orfanatos, nos asilos”. E, além disso,
percebeu-se que o envelhecimento alterou a prática de atividades de lazer, principalmente as modificações sensoriais visuais: “Eu não posso mais fazer crochê como antes, agora eu estou ruim dos
olhos”.
No final da entrevista, um dos participantes reiterou sua opinião quanto às limitações impostas pelo espaço em detrimento aquelas causadas pelo envelhecimento: “Se a gente tivesse uma cidade mais
bem feita, acho que independia a idade. Acho que o que limita muito, limita muito mais além da idade, além dos problemas que a gente vai adquirindo com o passar do tempo, é a falta de estrutura, é a falta de visão nessa área, porque é uma queixa geral”.