Poliana Macedo de Sousa
GRUPOS DE PESQUISA E A CORRIDA PELO “PRODUTIVISMO” ACADÊMICO
O termo “produtivismo” tornou-se nesses últimos anos algo pejorativo e muitos pesquisadores não gostam de usá-lo como referência. Porém, apenas trocar o termo
produtivismo por produção acadêmica só disfarça um problema latente, criando eufemisticamente, uma amenização de situações complexas em torno dessa questão.
O fenômeno do ‘produtivismo’ acadêmico está associado a certas distorções da produção intelectual nas academias, inclusive no Brasil. O termo está carregado de conotação semântica negativa, transparecida no sufixo ‘ismo’, incidindo sobre as obras do intelecto e a explosão do conhecimento dos tempos atuais a carga depreciativa de nossos juízos sobre o processo inteiro (DOMINGUES, 2013).
Domingues (2013, online) apresenta o produtivismo como uma versão do ‘taylorismo3’ no meio acadêmico, em que “acrescenta ao processo de produção de conhecimento um forte viés de ‘administração’ – os métodos racionais desta são transferidos da indústria (produção de bens) para a academia (produção de artigos científicos e outras publicações intelectuais)”. Com base isso, os resultados esperados dessa produção de bens, neste caso artigos ou publicações científicas, estão: o conhecimento transforma-se em mercadoria, há uma corrida pelo patenteamento dos processos, produtos e aplicações de ciência e tecnologia, como uma busca pelo lucro, visando os negócios ou quiçá, oportunidades para negócios.
O fenômeno de fato induz aumento da produtividade do conhecimento, o que em si pode ser visto como algo positivo, não é menos verdadeiro que promove a vitória da quantidade sobre a qualidade e o mais desenfreado competitivismo, levando ao famoso ‘publique ou
3 Sistema de organização do trabalho concebido pelo engenheiro norte- americano Frederick Winslow Taylor, com o qual se pretende alcançar o máximo de produção e rendimento com o mínimo de tempo e de esforço.
pereça’. [...] As consequências serão de duas ordens, levando a um conjunto de distorções, não exatamente individuais, mas sistêmicas e coletivas. A mais conhecida e temerária é a concentração do mercado. Assim, segundo estudiosos, cerca de 3 mil revistas hospedam 75% dos artigos científicos publicados no mundo e um número ainda menor (em torno de 300) publica a metade de tudo que é lido e citado por alguém (DOMINGUES, 2013, online).
E como o pesquisador pode fazer parte dessa “fatia de mercado” se há a cada dia um aumento considerável na disputa pelos recursos que ainda existem tanto nas instituições particulares como públicas, sendo que estas últimas tem cortado cada vez mais os financiamentos de pesquisas e bolsas?
Nesse sentido, a lógica do “publicar ou perecer” começa a fazer sentido quando ser “veloz” implica assumir a quantidade como medida de todas as coisas em prejuízo da qualidade que advém de uma reflexão amadurecida, exaustivamente discutida, logo, “menos veloz”. [...]Ao acelerar a produção, compromete-se a qualidade, e toneladas desses “fast papers” são despejadas em anais de congressos e congestionam revistas acadêmicas que, frequentemente, demoram anos para responder a uma submissão (ROSA, 2008, p. 110).
Roesch (2003, p.166) citado por Rosa (2008, p. 110) explica que
o trabalho científico é demorado. Entre um working paper e um artigo publicado em revista de reputação internacional, há no mínimo dois anos de trabalho. No Brasil, a impaciência impera sobre a disciplina e a reflexão na pesquisa. A coleta de dados, com frequência, é assistemática. A análise é abreviada.
Analisar, refletir e relatar leva muito tempo. E parece que não podemos perder tempo. [...] É necessário um tempo para voltar ao artigo e agregar-lhe valor. É exatamente este processo demorado que conduz à qualidade do texto final.
Coimbra Jr. (2003) citado por Castiel & Sanz-Valero (2007, p. 3041) já havia ressaltado que
[...] há um aumento considerável na disputa por recursos para a pesquisa e diminuição de recursos públicos para tanto um dos requisitos para aceder aos financiamentos é a demonstração da produtividade dos grupos de pesquisa, sobretudo em termos de publicação nos veículos acadêmicos de melhor reputação nos respectivos campos. Assim, a competição se estende à luta ferrenha entre artigos que buscam a ocupação de espaços editoriais – o escoadouro almejado para os resultados dos esforços investigativos, mas também da necessidade de manutenção das esferas de prestígio e influência.
Nesse cenário do produtivismo apresentado por Domingues (2013) é que surge a importância dos grupos de pesquisas para que esses pesquisadores possam conseguir recursos para prosseguir com seus trabalhos. A força de um grupo de pesquisa favorecerá essa corrida pela produtividade, pois há a necessidade em perceber que “neste contexto de ampliação na pesquisa científica e da intensa contabilização numérica de artigos publicados por investigadores em revistas científicas de reconhecido status acadêmico, para se legitimarem como profissionais nos seus campos de atuação” (Castiel & Sanz-Valero, 2007, p. 3042). Ao falarmos em grupos de pesquisa, remetemo-nos às redes de colaboração ou mundos pequenos apresentado por Lazzarini (2007) citado por Rossoni (2014, p. 208) em que “embora a maioria das pessoas não esteja relacionada
diretamente entre si, elas se conectam indiretamente por meio de poucos intermediários”.
Rossini (2014, p. 209) ressalta ainda que
Sob a perspectiva de mundos pequenos, o processo de desenvolvimento científico não ocorre segundo uma lógica de fragmentação, com grupos de pesquisa distintos sem interface entre si. Diferentemente, considera-se que há ligações entre eles, nos quais a informação é relativamente redundante, mantendo-se um nível de coesão necessário para que atividades se tornem familiares entre os membros dos diferentes grupos. [...]A dinâmica de redes mundos pequenos permite que atores isolados atuem reproduzindo as propriedades estruturais presentes nas relações sociais, contradizendo a intuição de que atores podem romper abruptamente com a estrutura social. [...]Tal fato é fundamental para entender a relação entre os níveis micro e macro, pois possibilita compreender como a estrutura de relacionamento local influencia a construção de estruturas globais, que recursivamente afetam a elaboração de estruturas locais, em uma relação de constante dualidade. [...]Isso porque há evidências de que a familiaridade entre pesquisadores, ocasionada pela imersão em grupos coesos, possibilita menor número de obstáculos em cooperar, afetando positivamente a produtividade.
Porém, Castiel & Sanz-Valero (2007, p. 3042) criticam esse posicionamento, pois para eles “há um crescente aumento de autores por artigo, significando mais do que o suposto aumento dos integrantes dos grupos de pesquisa, mas sim a possível prática de “escambo autoral” (meu nome no teu artigo, teu nome no meu artigo etc.)”.
Os autores destacam também que os pesquisadores precisam publicar, preferencialmente conjuntamente ao seu
grupo de pesquisa, precisam ainda encontrar estratégias de busca de financiamento, da gestão das relações entre grupos acadêmicos, da comunicação entre pares, em produzir e publicar uma quantidade importante de artigos em revistas conceituadas no respectivo campo, e óbvio, com isso, serem citados.
Os pesquisadores precisam publicar, seja por razões normativas definidas pela configuração dos necessários intercâmbios em rede que definem o avanço e o debate inerente à atividade científica, seja pela necessidade de mostrar-se produtivo aos olhares judiciosos daqueles que financiam pesquisas. [...] Logo, não é absurdo pensar que o conhecido lema “publicar ou perecer” implica algo parecido com as lutas territoriais para a seleção dos mais aptos entre artigos que lutam entre si. Primeiramente, para despertarem o interesse e a atenção dos editores como tema relevante e importante no âmbito acadêmico; depois, serem devidamente analisados para obedecerem às demandas dos revisores em busca da ansiada chancela de qualidade que conduz à meta da aprovação para a publicação. Este é um prêmio depois da ultrapassagem por esses controles, pois isso significaria a possibilidade de habitar nichos mais valorizados deste mercado, algo que poderia ser chamado de “darwinismo bibliográfico”(CASTIEL & SANZ-VALERO, 2007, p. 3045-3046).
Os autores ressaltam ainda que
[...] os líderes de grupos de pesquisa, para além de sua expertise técnico-científica, passam a atuar cada vez mais como homens de negócios ao gerenciar insumos, produtos, pessoal, recursos humanos, equipamentos, mas, sobretudo, devem manter ativas as fontes de financiamento para dar continuidade à sobrevivência de seu grupo, que é uma forma de
manter a sua própria existência no campo (CASTIEL & SANZ-VALERO, 2007, p.3046).
Portanto, tanto os pesquisadores como seus respectivos grupos de pesquisa precisam vencer a competição do mercado de publicações que possui elementos e regras semelhantes às atividades comerciais que vigoram no mercado atualmente. É preciso ampliarmos essa discussão acerca dessa competitividade, ou como batizamos neste trabalho, “corrida pelo ouro”, como também debatermos ainda mais sobre a dimensão mercadológica do produtivismo da atividade científica.